Por Ronaldo Faria
Dúvida. Quem entrará pela
porta feito amante sedenta de beijos ou o agiota a cobrar seu espaço no lar? O
que sairá do plantio da horta? Quem dançará a derradeira dança em mi bemol num
semitom abaixo de mi e um semitom acima de ré? De onde sairá o grito derradeiro
do sorriso brejeiro que não está aqui? O vento valsará entre as frestas da
janela ou se largará nas festas que rolam na madrugada do amanhã? Nas ruas
boiarão almas rumo às sarjetas que correm no asfalto infausto ou pássaros se
aninharão na árvore que desabrocha a primavera? Na dúvida dadivosa que divide
dramas e dogmas, o pó ao pó.
Marcelo caminhava no asfalto
como andasse nas estrelas. Centelhas de fuligem desciam na avenida. Fria, quase
frígida de si mesma, a madrugada se trajava de história e the end, num quase fim. No vento que volteia silencioso e cioso de
atrapalhar o destino, há espaço que junta pés descalços e cadarço desatado. Há ainda a
frágil monotonia que a diáspora faz levar - leve e iluminada de olhares
fugazes. Em tudo isso, ele atravessa em versos o tempo que corre nos ponteiros
do relógio em quiproquó desde que a humanidade deixou de viver sob a umidade de
não ter um telhado pra dormir.
À frente, na infausta história
que nem Fausto escreveria igual, Marcelo se pergunta agora se vale a pena
viver. Na manhã de ontem, já outrora para o nada eterno, ele acreditava que
sim. Afinal, se era para estar aqui, que fosse da forma que fosse. Mas, nesse
momento, na avenida premida e espremida entre calçadas e concubinas, a resposta
já era dúvida encravada de vozes ao longe e latidos feito grunhidos. Na
sentença que se escrevia na junção de íris e lunares pesadelos, ele seguia a
beirar a guia da calçada. Bem melhor do que aqueles que descansavam à
eternidade nos campos santos cheios de ateus e seres bestiais, ao menos Marcelo
conseguia seguir sem cão de guia. Ainda. “Senhor, quer comprar um churros de chocolate?”
Ele não ouve o vendedor que parece vendilhão de açúcar e dor. Segue rumo ao
prumo que visualizou. Na sua cabeça, torrentes de saudades correm nos dormentes
do trem da felicidade que descarrilhou na última esquina. Entre mortos e feridos, corroem feito gritos ardidos nos poucos toscos que se salvaram...
(A ouvir João Cavalcanti e Marcelo Caldi)
