quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Parafuso difuso

Por Ronaldo Faria


 
No silêncio chorado feito arcanjo que desce do céu, no aguardo de algum milagre no miolo cinza que há entre a garganta e os dentes, Sandoval faz da sua espera a quimera final. Acomodado entre samba e fado, atabalhoado de versos e versículos que nunca leu, ao léu do mundo, quase Quasimodo, era fã de Gil e Caetano, Chico e Noel, Mautner e Tom Zé. Amava ouvir Elis, Bethânia e Gal. Mas, no mundo de tantas músicas muxoxas de agora, fechava os ouvidos sem uma nota dar permissão ou flertava vozes e notas que surgiam quase que em prece e transbordar de reza pra Iemanjá.
-- Pedrinho, tem coisa nova?
-- Você só pode estar de brincadeira. A MPB sempre se renova. Graças à musicalidade que não é só paulista, mineira, pernambucana ou carioca.
-- Aí você me fode. Amante da música em geral, terei de gastar mais milhares de bytes para sorver o tanto que ainda se tem pra descobrir.
-- Não tenho culpa. Da próxima vez, na futura reencarnação, nasça num país monocórdico ou que não tenha veia musical...
-- Não, melhor não. Aí deixaria de escrever e crer que emoção foi feita pra se viver. Manda descer o que tiver de bom! Dinheiro foi feito pra se gastar e ouvidos pra se encantarem de notas e acordas, vozes.
 
(Com outra das centenas de descobertas, Marco Vilane)

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