Por Ronaldo Faria
Peripécia famélica no ranger
de dentes, entrementes as luzes perdidas nas esquinas que se dispersam com o passar
dos carros que nem sabem se em algum lugar vão chegar. Nos esgotos soturnos e
escondidos sob o asfalto negro de piche, um e outro rato rastejam e praguejam o
mundo de fora. “Logo a madrugada fará tudo parar”, pensa um deles à espera dos
latões de lixo que ficaram abertos na escuridão que se impregna.
De terno branco, manco, o indigente indigno com a sua vida passa na avenida que percorre a lua acima como resto de breu. Entre um passo torpe e torto e outro na mira para não rolar ladeira abaixo, segue a ver o pouco que a vista ainda descobre em vultos vetustos e inverossímeis. Não sabe, decerto, o que ainda é certo. Mas continua na sua reta cheia de perpendiculares e chegadas ovais. Para piorar, logo terá de subir um morro. Ao ver a cena, a beata se benze e pensa na máxima de que Deus protege crianças e ébrios.
No tédio da realidade, na chegança de santos e seres fugazes, desses que a gente crê que existe só por crer, meia dúzia na metade de doze homens vestidos de branco fazem uma entrega a Exu Caveira. Em gamelas e pratos de barro, frangos mortos, farofas fartas e velas que brilham no escuro profícuo e profundo eles professam a fé que muda o curso do mundo. Em cânticos que vêm de outros cantos além de um mar de emaranhados desgarrados em galés e golfadas, emanam das manhãs que virão à esperança do porvir. Ao redor, uma nota evocada em dó termina o ritual.
Um ônibus em correria para cumprir o horário derradeiro, como se tivesse chegado atrasado num enterro, segue a passar por semáforos e faróis que piscam verde e vermelho. Nele, a faxineira que largou o emprego faz poucas horas, o estudante metafórico, o vigilante atrasado para trampar e o velho gagá que nem sabe em que ponto descerá. Na direção, o motorista que está com o salário atrasado e cheio de contas pra pagar. “Culpa do salafrário do dono da empresa”. Se dependesse dele, melhor seria o veículo bater em perda total. Mas logo mais tem Marina para encontrar na cama e beijar. “Melhor não”. O sinal toca e desce o velho desmemoriado e sobe mais um notívago que, notadamente, esqueceu que o tempo não consegue parar.
Assim, na prosopopeia de esquinas e quinas, feito epopeia de crisântemos que surgem no meio do asfalto na seca esturricada da cidade calada, a Terra faz um novo giro total. Saber-se-á se para o depois ou no tributo do agora. Mas, tanto faz. No piano de um bar rola jazz. Aliás, esse texto sem pretexto anterior, talvez fosse apenas e tão somente para cantar o amor. Mas surgiram personagens e sagazes saudades, efemérides fugazes, convescotes vorazes. Tudo num imbróglio que vira e mexe bole na embolada de notas e rimas que a voz de Leny Andrade traz a soar. Longe, o mar se debulha em lágrimas feito gotas de ondas a desmanchar.
De terno branco, manco, o indigente indigno com a sua vida passa na avenida que percorre a lua acima como resto de breu. Entre um passo torpe e torto e outro na mira para não rolar ladeira abaixo, segue a ver o pouco que a vista ainda descobre em vultos vetustos e inverossímeis. Não sabe, decerto, o que ainda é certo. Mas continua na sua reta cheia de perpendiculares e chegadas ovais. Para piorar, logo terá de subir um morro. Ao ver a cena, a beata se benze e pensa na máxima de que Deus protege crianças e ébrios.
No tédio da realidade, na chegança de santos e seres fugazes, desses que a gente crê que existe só por crer, meia dúzia na metade de doze homens vestidos de branco fazem uma entrega a Exu Caveira. Em gamelas e pratos de barro, frangos mortos, farofas fartas e velas que brilham no escuro profícuo e profundo eles professam a fé que muda o curso do mundo. Em cânticos que vêm de outros cantos além de um mar de emaranhados desgarrados em galés e golfadas, emanam das manhãs que virão à esperança do porvir. Ao redor, uma nota evocada em dó termina o ritual.
Um ônibus em correria para cumprir o horário derradeiro, como se tivesse chegado atrasado num enterro, segue a passar por semáforos e faróis que piscam verde e vermelho. Nele, a faxineira que largou o emprego faz poucas horas, o estudante metafórico, o vigilante atrasado para trampar e o velho gagá que nem sabe em que ponto descerá. Na direção, o motorista que está com o salário atrasado e cheio de contas pra pagar. “Culpa do salafrário do dono da empresa”. Se dependesse dele, melhor seria o veículo bater em perda total. Mas logo mais tem Marina para encontrar na cama e beijar. “Melhor não”. O sinal toca e desce o velho desmemoriado e sobe mais um notívago que, notadamente, esqueceu que o tempo não consegue parar.
Assim, na prosopopeia de esquinas e quinas, feito epopeia de crisântemos que surgem no meio do asfalto na seca esturricada da cidade calada, a Terra faz um novo giro total. Saber-se-á se para o depois ou no tributo do agora. Mas, tanto faz. No piano de um bar rola jazz. Aliás, esse texto sem pretexto anterior, talvez fosse apenas e tão somente para cantar o amor. Mas surgiram personagens e sagazes saudades, efemérides fugazes, convescotes vorazes. Tudo num imbróglio que vira e mexe bole na embolada de notas e rimas que a voz de Leny Andrade traz a soar. Longe, o mar se debulha em lágrimas feito gotas de ondas a desmanchar.
