sábado, 24 de janeiro de 2026

Os Cariocas

Por Ronaldo Faria


A música transita de mesa em mesa e dribla cadeiras mil, corpos vis, copos de bebidas que anteveem cópulas orgásticas e, quiçá, dramáticas. Em notas anacrônicas, crônicas de tantas vidas e amores vãos, o som faz do lugar um salão de baile a embalar pares díspares e cômicos até mesmo para uma crônica volátil. Mas, ainda assim, a música permeia sem meias verdades a canção que sai das cordas vocais de bocas mil. E brinca de rimar, trazer saudades e lugares. Nos olhares de um gato pardo, o negror que se espraia na praia a se debulhar de prazeres benfazejos. Em quimeras e desejos. No esmero que nem o esmeril da ilusão poderá fazer cortar a dor, o torpor de corações no limite da vida em dívida e dúvida que ainda resta no arresto do sonhar.
A música se faz parte do aparte entre a lucidez e a loucura bêbada que chega em mansidão no canto efêmero do luar que habita recôndito lugar do que chamam coração. E brinca de brincar feito criança que crê, ancha, que futuro há. Se traveste de felicidade e, na inequidade que faz parte da vida, vira sequência sem idade. E baila num salão escuro e obscuro, desses que só o amor sabe iluminar. Depois, a pedir gim, batatas fritas e guardanapos novos, trompas de falópios serão mero lugar. Em desejos e ensejos, praguejo e beijos onde as línguas são centro e limiar, o casal se acasala feito mandala descrita e proscrita por uma fada. A foda fica no seu depois pra depois. Na imensidão que a mansidão traz e traduz há uma luz etérea e perdida nalgum canto do universo que se debulha em verso feito sabugo de milho que torra na fogueira da paixão. E assim, por fim, no fim que tudo tem, resta a certeza de que, presta, a lua adormecerá solene ao sol que desperta no além.

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