quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Entre um gole e outro

 Por Ronaldo Faria


Na rinha de galos que disputam em bicadas a vida ou a panela como canja, Josenildo aposta errado e perde os últimos reais que tinha conseguido num bico de ajudante de pedreiro.  “Puta que pariu! Como eu pude ver nesse despenado o galo da sorte?” Sai bravo do lugar, a chutar sofá velho descartado na beira do córrego assoreado e pede para o seu santo de cabeça que lhe dê melhor sorte da próxima vez. Segue na rua meio sem rumo. Sem prumo, sua vida era inconstante trilha suicida. O silêncio seria total se não fosse um ronco de cuíca. “Já que estou mesmo na merda, vamos lá.”
No terreiro que se abria sob a mangueira cheia de flores, a roda de samba rolava entre mistérios da noite depois do dia cinzento. Como unguento, uma garrafa de pinga que pingava de copo em copo para limpar as gargantas no cantar. Entre tamborins, pandeiros e ganzá, cavaquinho, caixas de fósforos e rimas soltas a noite se madrugava. “E aí, posso chegar?” A pergunta de Josenildo, feita com tanta vontade, tem resposta pronta: “Claro, aqui qualquer um é sempre bem chegado.” Foi o que bastou para ele se juntar ao grupo, se aboletar debaixo da laje mais próxima e deixar o tempo passar. “Amanhã eu consigo outra obra pra trabalhar. Meu Ogum não vai me abandonar.”
Logo abaixo a cidade borbulha de cervejas, champanhes e uísques abertos de bar em bar. De copos em copos e cálices, risos e cartões que creditam ao amanhã a ressaca de logo mais darão o tom. Ali não tem espaço para perfume da Avon. Permínio, perpétuo desafeto da vida desde que foi gerado em feto, chama o garçom e pede outra gelada até fazer gelo no corpo. “Manda que eu pago e ainda dou os dez por cento sem chorar.” Na sua mesa, cheia de donos de Porsche, Ferrari e Lamborghini, com suas amadas de Prada e Fendi, a noite parecia conto de fadas a anteciparem boas fodas. “Decidi que não aplico mais na Bolsa. O negócio é mesmo criptomoedas.”
Na calçada, flanelinhas disputam o espaço pelas gorjetas que virão. No vão entre destinos e realidades, casuais e discrepantes verídicas verdades, vidas escorrem e se entornam na chuva fria e fina que decide cair. “Que bosta, logo amanhã que estava pensando em ir para o Guarujá.” A execrar os meteorologistas que não sabem prever nem o próximo minuto, Permínio pensa em comprar seu próprio satélite para antecipar os fins de semana. “Agora vou pagar o piloto do helicóptero sem precisar. Podia ter dado folga para aquele bosta.” Ao longe, uma sirene de Patamo rompe a quietude que as línguas simplificam em beijos e silêncios do depois.
Na roda de samba em que Josenildo joga seus dramas para o alto, a hora é de recolher instrumentos, chorar resto de lamentos e pedir pra acordar como der pro batente que logo vai chegar. No bar em que Permínio fecha a conta com cartão internacional pago em euro, salamaleques e fricotes das damas que não podem sujar os sapatos de salto alto de tanzanite, a hora também chegou. No meio de tudo, entre periferias e jardins, o mundo respira e transpira histórias histriônicas e lendas catatônicas. Do alto, em algum percalço daqueles que acreditam em santidades, o Criador (seja ele qual for) diz que no mundo há equidade. A quem quiser, descrente ou a favor, faça-se a própria verdade.
 
(Ao som de João Bosco)

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