domingo, 18 de janeiro de 2026

Leila Pinheiro e Eduardo Gudin iluminando a MPB*

Por Edmilson Siqueira


Leila Pinheiro é uma das melhores cantoras do Brasil e tem, em sua trajetória, marcado momentos essenciais da MPB. Um deles, foi o "aniversário" de 30 anos da bossa nova, quando ela se juntou a um dos criadores da própria, Roberto Menescal, e saiu por aí cantando os clássicos daquele que foi o movimento mais internacional que nossa música já teve. Uma dessas andanças, no longínquo início dos anos 1990, foi o Japão. Na volta esteve em Campinas para um show no Centro de Convivência, com Menescal e banda. Almocei com eles à época, cobrindo o evento que estava para o Caderno C do Correio Popular.  
Eduardo Gudin é um desses compositores que não abrem mão de botar o samba em tudo que criam e com um detalhe luxuoso: sempre tem qualidade, seja sozinho ou com um de seus inúmeros e ótimos parceiros. Sua trajetória (hoje ele está com 75 anos) não tem altos e baixos. Se não é um compositor de grandes sucessos, tem permanecido à frente de sua música, fazendo shows e lotando teatros. E continua sendo respeitado por todos aqueles que fazem música e que gostam de música bem-feita. 
O encontro entre Leila Pinheiro e Eduardo Gudin no disco "Pra Iluminar" é, por consequência, um daqueles acontecimentos raros da música popular brasileira que dispensam excessos e apostam na essência.  
Lançado como um trabalho que encontrou os dois em plena maturidade, em 2007, o álbum - gravado ao vivo no Teatro Fecap em São Paulo - reuniu duas trajetórias sólidas que se cruzam em nome da canção bem escrita, da interpretação precisa e de uma estética que valoriza o silêncio, a nuance e a emoção contida. Mais do que um simples disco de cantora e compositor, "Pra Iluminar" se afirma como um exercício de respeito absoluto à música. 
Eduardo Gudin está na parada desde os anos 1970, pertencendo a uma espécie de segunda safra preciosa da MPPB, logo após os festivais que alavancaram a carreira de tanta gente boa.  
Compositor de melodias sofisticadas e harmonias refinadas, sempre teve na parceria com letristas como Paulo César Pinheiro um de seus maiores trunfos. Sua obra carrega influências do samba, da música urbana paulistana e de um lirismo que foge do lugar-comum. Já Leila Pinheiro construiu uma carreira marcada pela elegância interpretativa, pelo domínio técnico e pela capacidade rara de dar nova vida a repertórios consagrados, transitando com naturalidade entre o samba, a MPB e a canção romântica. 
Em "Pra Iluminar", Leila se coloca a serviço das composições de Gudin com a mesma e qualificada entrega que resultou na homenagem aos 30 anos da bossa nova. Sua voz é simples, sem artifícios, limpa, precisa, explorando dinâmicas sutis e respeitando a arquitetura melódica das canções. Não há aqui espaço para exageros interpretativos: cada palavra é dita no tempo exato, cada frase musical respira com naturalidade, reforçando a força poética das letras. 


O repertório, todo de Gudin e parceiros é um dos grandes méritos do álbum. Canções como “Velho Ateu”, “Paulista”, “Verde”, “Mordaça” e a faixa-título revelam diferentes faces de Gudin: o cronista urbano, o lírico introspectivo, o compositor politicamente atento e o melodista de raro equilíbrio. A presença do próprio Eduardo Gudin ao violão e, em alguns momentos, como intérprete, reforça o caráter intimista do disco, criando uma atmosfera quase doméstica, como se o ouvinte estivesse diante de uma roda de música cuidadosamente iluminada. 
Os arranjos seguem a mesma linha de sobriedade. Predominam o violão, o piano e intervenções discretas de outros instrumentos, sempre a favor da canção, destacando o diálogo entre voz e harmonia, permitindo que as composições se revelem em sua plenitude. Detalhe: o disco foge dos modismos e se ancora numa tradição da MPB que valoriza mais a qualidade que fica que a urgência do mercado que desparece no ano seguinte. 
A bela capa do CD, com um folheto muito bem feito, guarda uma surpresa: ao tirar o CD do encaixe, atrás do plástico, há dois textos, ambos falando de Leila. Um é assinado pelo próprio Gudin e, entre outros elogios diz que conheceu Leila no Festival dos Festivais da TV Globo: "Cesar Camargo Mariano, o diretor musical chamou a mim e a Costa Neto para conhecermos a intérprete que defenderia nossa música "Verde", se concordássemos. Colocou uma gravação de "Noturna", de Guinga e Paulo César Pinheiro, canção difícil de cantar. Fiquei absolutamente encantado com a voz que vinha da gravação e tomava conta da sala. Assim conheci o canto de Leila Pinheiro. Perguntei ao Cesar: 'E ela canta samba?' - Aí é com ela mesmo, sabe tudo!'.  
O outro exto é assinado por ninguém menos que Guinga: "Leila: você cantou essa música como a mulher que dá o telefone escrito com baton num guardanapo de papel pois esse era o único meio. Sou amigo e parceiro dessa rapaz franzino e de olhos tão azuis: foi assim que o conheci há 40 anos. Hoje ele usa uma barba de sal e pimenta, ou melhor, de garoa e fumaça. A vida nos colocou sempre muito próximos e íntimos, sendo Leila um elo fortíssimo por ser a principal intérprete das nossas músicas. O farol já vai abrir e apenas uma estrela veio hoje pra invadir, enfim PRA ILUMINAR!!! Gudin, leva ela em casa!!!"
Por essas e outras, ouvir hoje esse disco traz a mesma sensação de conforto e alegria que ele espalhou no seu lançamento. São sambas que dizem muito do universo brasileiro em geral e paulistano em particular.  
E para completar, Leila Pinheiro canta como quem conversa, e Gudin compõe como quem observa o mundo com lucidez e sensibilidade. O resultado é um álbum que convida à escuta atenta, recompensando o ouvinte disposto a desacelerar. 
As músicas do show e do disco são as seguintes: 
"Pra Iluminar" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) 
"O Amor E Eu" (Eduardo Gudin) 
"Chorei" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin) 
"Mente" (Paulo Vanzolini e Eduardo Gudin) 
"Ainda Mais" (Paulinho da Viola e Eduardo Gudin) 
"Sempre Se Pode Sonhar" (Paulinho da Viola e  Eduardo Gudin) 
"Luzes Da Mesma Luz" (Eduardo Gudin e Sérgio Natureza) 
"O Amor Veio Me Visitar" (Eduardo Gudin e Roberto Riberti) 
"Obrigado" (Eduardo Gudin) 
"Paulista" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) 
"Praça 14 Bis" (Eduardo Gudin) 
"Mordaça" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin) 
"Verde" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto) 
"Neo-Brasil" (Eduardo Gudin) 
"Boa Maré" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin) 
"Vida Dá" (Eduardo Gudin) 
"Velho Ateu" (Eduardo Gudin e Roberto Riberti) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo a um preço um tanto salgado, mas vale a pena. E pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=rvVOyZdtREI&list=PLrt7VbxNS8rd66UyF_TpEYmeBbGqzYhWx . 

*A pesquisa para este artigo teve auxílio da IA do ChatGPT

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