terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sinatra–Basie: o primeiro encontro*

 Por Edmilson Siqueira


Juntar dois gênios da música num estúdio, como aconteceu em 1963 com Frank Sinatra e Count Basie não foi apenas uma boa ideia. Mesmo que fossem duas boas ideias (eles gravaram 20 músicas que resultaram em dois LPs) ainda assim, seria muito mais. 
Pois a parceria entre dois pilares absolutos da música popular norte-americana resultou em um de seus momentos mais luminosos.  Lançado no auge da maturidade artística de ambos, o disco revela a confluência entre a sofisticação das grandes orquestras de jazz e a precisão interpretativa de um dos maiores cantores populares que o mundo já ouviu.  
Em 1964, Sinatra e Basie gravaram um último álbum de estúdio, "It Might as Well Be Swing", com orquestração de Quincy Jones, e o primeiro álbum ao vivo de Sinatra, Sinatra at the Sands (1966), contou com a banda de Basie. Na verdade, então, foram três os encontros entre o cantor e o maestro, sendo o último deles ao vivo. 
Mas este artigo é sobre o primeiro disco, reproduzido em 2011 em CD com as dez músicas do primeiro LP. 
Gravado pela Reprise Records, a produção encontrou Sinatra em um momento particularmente fértil. Já tinha seu próprio estúdio, com liberdade criativa e cercado de colaboradores da mais alta estatura. Assim, ele pode explorar um repertório que combina standards consagrados e canções menos gravadas. 
Já a orquestra de Basie vive, no início da década de 1960, um renascimento artístico: rejuvenescida, compacta, com precisão rítmica quase metronômica, mas jamais burocrática, ela oferece o tipo de base ideal para um vocalista que dependia tanto da respiração do swing quanto da expressividade textual. 
Os arranjos são de Neal Hefti, cuja contribuição é também decisiva para a qualidade do disco. Admirado como trompetista e compositor no círculo do jazz moderno, ele se revelara também um arranjador de rara inteligência orquestral, dono de uma escrita que favorece a clareza, o balanço e a conversação musical entre seções. Em Sinatra-Basie, Hefti evita grandiloquências e abraça a vitalidade da big band, construindo arranjos que evidenciam tanto a qualidade e o talento vocal de Sinatra quanto a inspirada participação da orquestra de Basie.  
Logo na abertura, “Pennies from Heaven”, ouve-se a síntese dessa estética: a leveza dançante, o fraseado impecável e uma sonoridade ampla, mas nunca pesada. Sinatra canta como se flutuasse sobre a orquestra, encontrando espaços entre os sopros e linhas de contrabaixo, moldando cada verso como um diálogo entre a voz e os sons orquestrais. 

 
Um dos aspectos mais notáveis do álbum é a contenção expressiva. Diferentemente de gravações mais dramáticas de Sinatra, como aquelas que realizou com Nelson Riddle, aqui o foco é o swing, a conversa musical, a leveza do gesto. Isso não significa superficialidade: ao contrário, a interpretação do cantor é profundamente madura, construída com economia de recursos, pequenas inflexões e a famosa dicção cristalina que transformava cada palavra em gesto emocional. 
Segundo a crítica especializada, o álbum também representa um encontro simbólico entre duas escolas da música americana. Sinatra vinha do universo das canções populares, do teatro musical, das orquestras de rádio e das gravações luxuosas de Hollywood. Basie, da tradição do swing e do jazz afro-americano, das noites de Kansas City, do improviso e da energia contagiante das big bands. Em Sinatra-Basie, essas duas linhagens se encontram perfeitamente: o glamour e o fraseado vocal sofisticado convivem com o swing mais orgânico do jazz clássico. 
O resultado é um marco discográfico que atravessa décadas com frescor intacto. O álbum soa moderno ainda hoje, talvez porque Hefti, Basie e Sinatra compreenderam que a elegância é, por si só, uma forma de modernidade. Não há modismos nem maneirismos no projeto: há precisão e talento. Para o ouvinte contemporâneo, permanece um documento raro de entendimento artístico mútuo — uma aula de musicalidade que continua a valer com a mesma qualidade de 1963. 
As faixas: 
"Pennies from Heaven" (Arthur Johnston, Johnny Burke)  
"Please Be Kind" (Saul Chaplin, Sammy Cahn)  
"(Love Is) The Tender Trap" (Cahn, Jimmy Van Heusen) 
"Looking at the World Through Rose Colored Glasses" (Jimmy Steiger, Tommy Mailie) 
"My Kind of Girl" (Leslie Bricusse) 
"I Only Have Eyes for You" (Harry Warren, Al Dubin) 
"Nice Work If You Can Get It" (George Gershwin, Ira Gershwin) 
"Learnin' the Blues" (Dolores Vicki Silvers) 
"I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter" (Fred Ahlert, Joe Young) 
"I Won't Dance" (Jerome Kern, Jimmy McHugh, Oscar Hammerstein II, Dorothy Fields, Otto Harbach) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Spotify e no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=lQbH0mVvOYg. 

*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT. 


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