Por Ronaldo Faria
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Derradeiro incenso
quarta-feira, 17 de dezembro de 2025
Com Rolando Boldrin
Por Ronaldo Faria
Sem causos para contar além da própria vida, cheia de bocados que poderiam virar fados fosse essa história em Portugal, nos brocados e trocados que faltam, Adamastor chora em louvor ao Boi Fubá, morto para sua família alimentar. Ser entregue às feiras cheias de carnes dependuradas num gancho cercado de moscas toscas que revoam e pousam deveras a vera, caminhante de tempos outrora, nos alforjes e roupas de couro curtido, ele vislumbra o alumbre de viagens de tropeiro e boiadeiro. Feito carcará certeiro, mira os olhos de caramelo da amada para não descrer de que vale a pena viver. Em novo estrado o corpo daquela desejada desde o primeiro olhar abaixo de uma escada irá de novo vicejar. Na frente, no defronte das frontes, um pastel irá encher de cheiros o amor dos dois.
Assim, feito a açucena que tem gosto de beijo, Adamastor busca no passado o futuro de si. Caótico, ciclópico, morto no presente e ausente nas barcas que empacam no rio seco, a correr a areia branca onde antes corria água cristalina, guarda no sentimento a falácia de ser o mesmo. Nas brincadeiras que o relento lembra com o cheiro de lampiões brotando luz em querosene queimado, sombras voltam e perfazem desejos tristes onde os morcegos em desaconchego voam na busca de jugulares e saudades. Quiçá uma fruta ainda dependurada no pé de pau brilha na lua cheia. Para ele, pasmado e trôpego diante de tudo que se diz e traduz, a luz viceja amanhecer que trará plenitude. Alguém, nalgum lugar, tracejará trilha onde uma erva irá curar seu lumbago. E assim, refeito feito o amante que foi outrora, irá sentir a cama a correr no quarto, se deitar no mato e andar entre ondas frias que margeiam o ensejo do desejo de amar. E só aí a chegada, por fim, far-se-á.
terça-feira, 16 de dezembro de 2025
Algo mais com Cannonball Adderley*
E, para completar, embora traga o nome de Cannonball Adderley na capa, o álbum costuma ser lembrado também como um dos momentos mais luminosos de Miles Davis fora de suas próprias formações. Essa convivência artística gera um dos registros mais equilibrados, líricos e marcantes da era do hard bop.
Logo de cara, a introdução do piano, da bateria e do contrabaixo parece que vai nos levar para um mambo qualquer, mas quando ela termina e começam a entrar as primeiras notas de "Autumn Leaves" (J. Kosma e J. Mercer), o ouvinte sente estar diante de algo grandioso, o que vai ser fartamente comprovado nos quase 11 minutos de performance sobre o tema. O solo de Hank Jones, sempre elegante, reafirma a coesão do grupo. Já Art Blakey, com suas escovas precisas, age como quem não precisa impor nada mais do que o necessário. Sam Jones, no baixo, completa essa base com firmeza e discrição.
O contexto do disco é especial. Cannonball havia chegado ao sexteto de Miles pouco tempo antes, participando das gravações que antecederiam "Kind of Blue". Aqui, porém, o saxofonista assume o protagonismo e com seu sopro firme, caloroso, com um fraseado que combina blues, gospel e precisão moderna. Sua sonoridade contrasta com o trompete econômico de Miles. A interação entre ambos sustenta o coração expressivo do disco.
A segunda faixa é “Love for Sale”, um clássico de Cole Porter. Art Blakey marca um pulso mais vivo e dinâmico. Cannonball brilha especialmente, mostrando sua capacidade de transformar temas familiares em improvisações cheias de frescor rítmico. Miles, por sua vez, opta por um trompete seco e, claro, genial. O resultado é um contraste vivo, que prende a atenção de quem ouve.
A quarta faixa é "One for Daddy-O" de Nat Adderley, trompetista e irmão mais novo de Cannonball. Sob um tema aparentemente simples, o grupo mostra toda sua versatilidade em transformar em ouro puro jazzístico o que lhe cai em mãos. O sax de Cannonball se sobressai em notas fortes, sempre com o acompanhamento primoroso do baixo e da bateria.
Outro clássico, "Dancing in the Dark" (A. Schwartz e H.Deitz) vem a seguir. É o momento mais intimista do disco, com longo e expressivo solo de sax beirando um blues atravessa a faixa toda.
Por fim, "Bangoon" do pianista Hank Jones, completa os cerca de 45 minutos do disco com um encerramento alegre, aberto com Davis caprichando nas notas rápidas, sendo seguido pelo sax de Cannonball. Tudo muito bem acompanhado pelo piano, bateria e contrabaixo, num ótimo exemplo do que a "turminha" podia fazer junto.
"Somethin’ Else" é, acima de tudo, um encontro raro: são músicos no auge da maturidade criativa, reunidos em torno de um repertório enxuto e tratado com uma combinação de espontaneidade e rigor estético.
Mais de seis décadas após sua gravação, "Somethin’ Else" permanece um daqueles discos que convidam tanto a escuta atenta quanto o puro deleite musical. É jazz de alta voltagem, capaz de combinar técnica e beleza formal com aparente naturalidade. Um clássico que soa sempre novo.
O CD e o LP estão à venda nos bons sites do ramo, mas os preços são meio salgados. Ele pode ser ouvido no YouTube na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=u37RF5xKNq8&list=PLTIb4fKCEAevQGcDKFIXdimOXsMK4uVNv .
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
Na viagem
Por Ronaldo Faria
(Ao som de Dominguinhos)
sábado, 13 de dezembro de 2025
Magos
-- E então, você acha que a felicidade vai voltar?
-- Onde e em que lugar?
-- Sei lá. Aqui e agora, na terra ao nosso redor...
-- É pra responder com verdade ou heresia?
-- Fica fria, com aquilo que quiser...
-- Acho que sim, onde se une emoções em metamorfose ambulante, como já disse um poeta que inspiramos um dia, a felicidade vai chegar.
-- Poxa, então valeu ficarmos aqui pirando na batatinha...
-- Que piração, Astromeus? Apenas vivemos a loucura real, na maluquês.
-- Tem razão, somos só malucos-beleza. E podemos nessa vida crer que nada é melhor para se viver.
Pregados na parede, Astromeus e Luanova, com olhos e mentes presentes no derredor, a amenizarem o que possa se tornar dor, se entreolham no mundo de fora. Neste, vidas que mudaram de lugar e se entregaram e se jogaram à loucura de viver seu próprio mundo, dão abraços, beijos, matam saudades e voltam ao passado vivo que, tão grato de relembrar, nunca acabou.
-- Viu que riso gostoso saiu daquela boca?
-- Vi, claro. Estou ligada, mas acende logo esse cachimbo.
-- Calma, a coisa pra ser boa tem que ser vivida devagar. Ainda mais nesse tempo que não quer parar. Não é assim. Pra sentir é preciso antes apertar.
-- Astromeus, quer me ensinar a ser maga?
-- Não, claro que não. Só estou na busca da perfeição.
-- Tudo bem, mas nem sempre a pressa é inimiga da perfeição...
Astromeus conclui seu trabalho, acende a certeza da felicidade etérea e imagina abestalhado o que o mundo todo poderia ser se ficasse restrito àquele espaço.
-- Por que não podemos sair daqui?
-- E pra quê? Estamos pendurados na parede, feito rede de nordestino. Daqui vemos a todos e a tudo. E de certa forma vivemos a performance de quem enxergamos. E é tanta gente a brindar a vida que vivemos igual. Por isso resistimos ao tempo do mundo em desalento. Ali logo do lado, sentados à mesa ou andarem e sorrirem no gramado, seres humanos se humanizam de novo. Redescobrem saudades, preenchem lacunas da vida, ouvem histórias que pareciam perdidas no vento. Ou seja, eternizam mais uma vez aquilo que viveram e está pra sempre preso em corações e mentes.
-- Tem razão, Luanova. Manda ver...
Magos, ele e ela, astrólogos do princípio ao fim, pedem juntos um “toca Raul”.
-- Mas que merda, a gente grita e o cara do violão não ouve...
-- Calma, logo um deles vai ouvir e pedir. Nem que seja porque o Diabo é o pai do rock.
-- Beleza, então vamos curtir...
Logo atrás dos dois o ser vivo da imagem viaja na maionese e nas quimeras que envolvem a cena. E se vê no todo, mero animal. Quiçá, maluco total na loucura geral. Apenas beleza. Defronte ao pano mágico, todos conseguem enfim sorrir, do coração ao porvir. E a mágica está feita. A vida valeu. Sempre valerá. Ainda mais no baseado de Luanova e Astromeus.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
Na marquise do tempo
Por Ronaldo Faria
-- Claro. Só se for agora...
Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de vestir como fralda, pegaram o rumo da rua. O trem passaria logo, se a Rede Ferroviária Federal não tivesse tido algum problema nas conexões a partir de Japeri. Chegaria lotado de gente uniformizada de fome e pobreza, mas na esperança de ser feliz em 90 trôpegos minutos do tempo.
-- Hoje o Mengão ganha fácil. Quatro a zero, fora o baile.
-- Tomara que sim.
-- O Maraca vai estar lotado, mas qualquer coisa a gente foge pra marquise.
-- Porra, será que nem na geral vai ter lugar?
-- Nunca se sabe, mas não vamos nos apertar. Esse jogo a gente vai assistir.
Não deu o fim da frase, chega a composição no seu ritmo cansado de rodar centenas de trilhos quase enferrujados. As portas, que há muito não fecham, estão apinhadas de viajantes longe de cenário verdejante. As casas do subúrbio há tempos deixaram de ver flores florescer.
-- Ô caralho, vamos chegando pra trás que sempre cabe mais um torcedor!
Sorte de Carlos e Kelé é que ainda existe (à época) solidariedade. Empurra daqui, espreme dali e está resolvida a questão.
-- Agora é só segurar com força pra não cair, mermão...
E o trem transita trêmulo por outras estações. “Não cabe mais ninguém! Chega de parar, filho da puta de maquinista!” O grito, decerto maniqueísta de quem já está entalado na lata de sardinha, vira coro geral. Pedido feito, pedido aceito. “Não quero ver o trem de novo depredado”, diz o maquinista para si mesmo. A esmo, quem fica pra trás ainda tenta jogar pedras, mas erra a pontaria.
-- Tomara que o ataque do Vasco esteja hoje tão ruim quanto a mira desse povo.
Por fim, no enfim de todo fim de viagem, surge a Estação Maracanã. Em segundos, ela fica lotada de seres que correm às bilheterias para comprar o ingresso mais barato, na geral popular.
-- É agora. Estamos aqui e vamos lá garantir o lugar!
Depois de muita espera, fila, cavalaria da PM tentando organizar o que dá, Carlos e Kelé estão no templo do futebol. Como eles, outras dezenas de milhares de seres que irão virar estatística na história do clássico dos milhões.
-- Cacete, se a gente ficar na geral não vai ver nada. Está lotada. Nem formiga cabe mais.
-- Esquenta não. Marquise, vamos nós.
-- E se a porra da PM descer o cacete geral depois que a gente subir?
-- Do jeito que essa merda está cheia você acha que os caras vão encher nosso saco lá em cima? Olha o que já tem de gente lá!
Dito e feito e o feito de escalar pra sentar no concreto que cobre os sortudos da arquibancada e segura o refletores é completo.
-- Agora é só torcer!
Ao apito final do árbitro, três possibilidades:
1) Flamengo goleia o Vasco. O time, sem patrocínio na camisa (não havia nesse tempo), sai aplaudido e deixa a galera em delírio profundo. Carlos e Kelé voltam felizes para casa. Horas depois de rodarem outra vez espremidos os trilhos da vida, param na birosca do Seu Luiz para comemorar. “Luizão, mete duas das cervas mais baratas, uma pinga com limão espremido e pode pendurar. No final do mês a gente acerta, como de praxe.”
2) Flamengo empata. O Vasco marca nos minutos finais. Putos, Carlos e Kelé xingam o time e o esforço dispendido para ver o rubro-negro jogar. “Mas não foi de todo mau, ainda estamos na frente no campeonato.” Horas depois de rodarem outra vez espremidos, param na birosca do Seu Luiz para tentar esquecer o tempo perdido ou ganho na epopeia. “Luizão, mete duas das cervas mais baratas, uma pinga com limão espremido e pode pendurar. No final do mês a gente tenta acertar, como de praxe.”
3) O Flamengo perde de forma impiedosa. Revoltado, Carlos quase se joga da marquise. A sorte é que Kelé foi mais rápido e o segurou. “Calma irmão, outros jogos vão rolar. No próximo nós vamos golear!” Horas depois de rodarem outra vez espremidos, param na birosca do Seu Luiz para tentar esquecer o tempo jogado no lixo. “Luizão, mete duas das cervas mais baratas, uma pinga com limão espremido e pode pendurar. A gente acerta quando puder e se der.”
No Maracanã, gigante ainda e ressonando sob os olhares do Gigante Adormecido em pedra que se vê nos arredores do bairro, termina mais um capítulo de vidas que podem terminar em cafunés ou nos mais nefastos impropérios. No entorno, cambistas e vendedores ambulantes ou não de cerveja e cachorro-quente comemoram o placar que tenha sido. No final é tudo igual, só muda o final...
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
Trio na mesa
Por Ronaldo Faria
domingo, 7 de dezembro de 2025
“Tony Bennett at Carnegie Hall”: um show que entrou para a história*
sexta-feira, 5 de dezembro de 2025
Pro Jorge Mautner
Por Ronaldo Faria
Cair de boca nas coisas que surgem em janeiro e morrem demenciadas em dezembro. E lá se foi outro ano. Na hecatombe que tiver passado, o passado temporal surge abrupto e tosco, tosquiado feito ovelha na máquina zero. Aos loucos e esotéricos, dançarinos dos bailes e perrengues, o par pede passagem para não morrer sem nunca ter voltado por lá.
Depois, brindar goles e golfadas na fantasia que traz azia e picardia. Andar na corda bamba que o bambolê da criança faz rodar em círculos ridículos para quem de fora vê. Ver-se nos versos de outrora como agora: ser abissal que nunca saiu da areia que a praia deixava. E levar para longe a caravela sem velas que teima em pegar tormentas e calmarias na busca do torpor.
Subir no foguete que fala com os animais. Ver a Terra além da estratosfera, onde a fera humana vira a mesma do animal, e sorrir com a bola que gira no espaço. No bagaço, bactéria vive e surge no papel almaço com seu almoço descerebrado. E chegar aos sete anéis de Saturno sem achar isso um absurdo. Afinal, tudo ainda voa e até parece balão.
Por fim, nos finalmentes do repente que deseja mais um gole e briga com a certeza do beijo, vicejos de vida longa e enlevo. No eclipse sozinho que percorre lua e sol com cuidado, a Babilônia fônica e atônita que a tônica com gim traz para o lado. Perto e distante um povo evoca no maracatu atômico que há céu sem estrelas. No teclado as unhas afiadas se fiam em louvor a vencerem o tempo e a dor.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Na seta
Por Ronaldo Faria
Seta, beta, meta, reta. Seja o rumo da lucidez ou do hospício. Auspiciosa e diretiva. Divisa entre o rumo e a esquina. Curso direcionado para a sina que se ensina no espaço da solidão. Harmonia e blasfêmia. Saudade da boca dela, no maior cacófato que isso possa ser. Pouco importa. Na porta, a saída e a entrada. Lá fora a bruxa briga com a fada. Uma quer a fogueira e a outra a foda. No calor tropical do inverno encravado no continente que fica ao sul de uma linha imaginária, a cena de brincar de se achegar. Tempo há e haverá, apesar do gosto oposto da brisa no rosto. Ainda teremos ondas, rotundas emoções, errôneas verdades. Na loucura catastrófica da mente, certeza ausente que voa em balão. Corpo aqui e desejo no Japão. Copo esvaziado no vazio da criação. Falange de deuses pretos no amor que só é bom se doer. Rememoração da ação esquecida em alfarrábios vagos e amarelados. Signos cravados no peito com bazófias e som de metal. Sem Natal. Na seta tem beta, meta e reta. Tem sonhos transversos e versos de poeta. Na estética estoica de saber sofrer e amar, versículos dos loucos desvairados. Prazeres nos azares tocados em alaúdes antes de irmos ao ataúde. No passado, psicodelismo da retórica que a história delimita em saudades e fados, passos de dança num salão vazio. Dependurada e pintada numa placa, a seta beta da meta reta está lá, no escuro obscuro do caos caótico do ateu católico. E lá ficará sem cabeça e touca. A ensinar o caminho da sanha que toda manhã resolve novamente trazer ao lugar.
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Monk e Coltrane: um encontro histórico*
segunda-feira, 1 de dezembro de 2025
Casa sem pressa (longevos tempos de república)
sábado, 29 de novembro de 2025
Ao Gumex
Por Ronaldo Faria
-- Seu Gumercindo, estamos fechando o bar. O senhor quer algo mais pra levar?
-- Não, Gonzaga. Muito obrigado. Pode trazer a dolorosa.
Pagou a conta que despontava como boa para o português dono da bagaçada, deu boa noite e saiu no seu caminhar trôpego de funcionário público de repartição. Viu que a lua estava fraca, minguante. Os postes acesos brilhavam mais do que ela. O guarda de quarteirão lhe dá boa noite. Era o Percival, há muito dono do espaço. Substituiu o Pascácio, aposentado por perder a visão. Teve catarata sem nunca ter ido à Floresta da Tijuca ver a Cascatinha. Era gente boa. Morava em Vicente de Carvalho, longe pra caralho. Mas nunca faltou no batente e conhecia toda a gente.
-- Um bom resto de trabalho pra você, Percival...
Gumercindo entrou na pensão, foi direto ao seu quarto e fez chá de hortelã para dormir melhor. Logo cedo terá que ir de bonde à repartição. E o motorneiro, Seu Walfrido da Silva, não perdia a hora. Era mais certo que o relógio cuco que badalava a cada minuto na pensão. “Vamos dormir. Amanhã eu vejo o que aconteceu com a Esmeralda”. E logo lhe chegou o sono. Enternecido de goles a mais, vieram-lhe os pesadelos e desmazelos de quem dorme sabendo que não irá sonhar. Acordou no dia seguinte e leu a manchete do jornal que chegou à mesa na procuradoria federal “Mulher foge com o palhaço do circo soviético”. A partir daí virou radical, se vestiu de verde e se tornou integralista até a última redoma da alma. Morreu só, anos depois, no quarto pequeno no Centro da cidade. Gonzaga, o garçom, Percival o guarda de quarteirão, e o português dono do boteco foram acompanhar o enterro. “Perdi um grande cliente. Que Deus esteja ciente disso e me dê outro”, pensou o lusitano antes do caixão baixar em sete palmos contados a dedo. Defronte do cemitério do Caju, um moleque solta pipa sem dar atenção a tão pouco dramalhão. Ao fim, o fim de outra visão.
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Pataquada
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 25 de novembro de 2025
Com Donato, Shank e Valença (ou vale o que está escrito)
Por Ronaldo Faria
No piano, altiplano da troca de emoções e canções, malabarismos de paródias que não acabam se acercam de sonhos e bisonhos desejos ensejados no cadafalso que leva o amor ao coração. Há luar e estrelas, nuvens raras e secas de pingos futuros, bêbados diuturnos até. Tem também catadores de lixo, pombas que teimam em vasculhar a sujeira da areia, poetas e proxenetas. Cansados amantes à espera do primeiro raio solar, notívagos que decidiram madrugar, operários e faxineiras que despencam do ônibus no seu eterno trilhar. Há ainda o cachorro de rua, que vira a última lata para sobreviver, a uivar e acreditar num lar.
No bar o garçom fecha a última conta: “Deu R$ 220,00 sem os dez por cento.” Na dicotomia do destino, desatino cretino dos loucos e vespertinos, um transeunte que transita sem rumo diz adeus à vida ao se jogar diante do circular. “Porra, fodeu geral. Agora vem a polícia, a perícia e o escambau. Até chegar o próximo ônibus eu já atrasei geral” – vociferava Marcondes que vai chegar tarde no turno da fábrica de metal fundido. “Estou fodido” – sentencia. Perto das ondas que enchem de espuma a bruma geral, João e Rebeca ouvem o barulho do atropelamento, o lamento dos passageiros e até a sentença do motorista: “Esse merda se jogou na frente...” Mas qual, cada um com seu cada qual. No sol que surge do horizonte, as línguas dos dois dão o cúmplice recado ao mundo: Lei de Muricy... cada um que trate de si.
Chick Corea e Lionel Hamptom: encontro histórico
Por Edmilson Siqueira Chick Corea ainda não tinha 30 anos quando fez um show ao vivo em Cannes, no Theatre du Casino. na França, durante o M...
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Por Ronaldo Faria O CD Cazas de Cazuza – A Ópera-Rock é de 2000. Dez anos após a sua morte, vítima da Aids. Dos discos que homenagearam d...
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Por Ronaldo Faria -- E aí, vamos? -- Claro. Só se for agora... Carlos e Kelé, amigos de infância, suburbanos desde os primeiros panos de ...










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