sábado, 7 de fevereiro de 2026

A espirrar poemas e prosopopeias poéticas

  Por Ronaldo Faria


Espirro de destempero no nariz que sente o cheiro do tempero vindo da cozinha onde o alho se transforma em bugalhos de larica e bagaços de cana nos goles da cachaça dormida em umbuzeiro onde dorme o carcará.
Espirro soturno, em credo de quem um dia irá parar, oriundo das entranhas tamanhas e tacanhas que tentam gerir o tempo que resta em Terra. Esferas estrambólicas feito cólicas da Pachamama na sua vida a revoar.
Espirro catastrófico, homônimo do fim. Num soltar de vento em ventania sem cantoria atemporal, dessa que cada gota de chuva traz junto com o temporal. Metáfora de deixar o pulmão respirar em silêncio autoral.
 
II
 
No mar surge a brisa que emerge no colorido do Morro Dois Irmãos a derramar luzes sobre o escuro da pedra que espera o fim dos tempos para dormir em paz. Sem rajadas de balas, vozes em gritos estridentes, tridentes de tempos mortais. Nas ondas que suspiram espumas em cada se jogar sobre a areia fina e cristalina, um tanto de entretanto e talvez. Na brisa de odores que convergem de cigarros enrolados em sedas, o sedativo para a realidade de tantas e tantos pormenores menores que a madrugada nos traz.
Na luminosidade que a cidade agora dá, faróis tentam iluminar notas em mil bemóis. Nos atóis que ainda restam no mar, a quebrarem as ressacas do amanhã e depois, peixes e sereias brincam com Iemanjá sobre qual é o seu lugar. Na orla orgástica transbordando de prazeres e algozes do amor, casais transitam casualmente no calçadão. Nalguma fresta de janela presta em declarar realidade àquilo que a anuência da sobriedade dá, um olhar Na barraquinha de cachorro-quente o vira-lata caramelo baba de prazer.
No frio que as correntes marítimas trazem para o mar, onde até pinguins podem desaguar, um casal troca beijos que nem milênios próximos poderão decifrar. Assim, nas jusantes das marés, nos revés da vida que singra oceanos e lembranças anchas, um braço surge a navegar ao longe, translúcido e lúdico, a terminar e determinar a cena perene que flutua na lua encalacrada do céu. E assim, assintomática saudade que toda maldade traz, a vida se esvai na tormenta incrédula que nem a fécula mais comível sabe digerir.
 
III
 
Os dentes dementes e prementes estão com os dias contados para a boca voltar. Prontos para os beijos divididos pelas línguas que se encontram em cada esquina, anteveem promíscuas falácias benditas e retintas ao soluço que a negritude da noite deixa se derramar no planeta. Quem sabe aí algum cometa ou gameta se inclua na filipeta que o artista vende na porta do teatro vazio. Em fastio, amantes deixam goles de cerveja ou vinho se derramarem nos corpos e copos no vão que há entre o prazer e o tesão. Em todos, poesia a se criar. Notívagas saudades e um tanto de estrada a trilhar. A rir ou soluçar. Mas, afinal, no final, tanto faz. Nas destrancadas mancadas da vida sempre haverá o passado cansado e findo, como um fado a bailar solitário no seu próprio fim.
 
IV
 
Inverossímeis e críveis, nos percalços do infausto cadafalso que se abre aos nossos pés a cada dia, vamos a seguir mancos ou com o passar de passo em passo a trilha traçada em traços apagados por uma borracha qualquer. Na fé, em delírios que cada despedida e chegada dão, os casais percorrem a rota desvairada a que chamam de amor. Na flor que desabrocha ancha e já esturricada, o poema vira fonema que nem o coração perdoa em seu pulsar de descalabro. Assim, no assintomático e trágico bolero que a orquestra esqueceu de tocar, os casais se acasalam feito samba e jazz. Afinal, no final de dois olhos que brincam de ainda sobreviver, vale aquilo que se faz ou jaz. E o feito é refeito de amor e vida que sobreviverá às torrentes e tormentas que avisou que o tempo não é aquilo que queríamos que fosse. Nos prelúdios do fim, finitude e futuro se fazem um só, por fim.
 
V
 
Quem leu? Quem viu? Quem antecedeu o começo até o fim? Meia dúzia? Dois ou três? Ninguém? Se deu migué, seja aquilo que o deus da escrita soube fazer...

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