Por Ronaldo Faria
-- E aí, Catarina, cadê a chuva torrencial?
-- Sei lá. Não veio.
-- Talvez esteja noutro lugar lendo uma revista sensual.
-- Pode ser, pode ser...
Amâncio questionava sua cara metade sobre as verdades do tempo. Afinal, não havia nem vento por lá do lugar ou acolá, pra depois do que há.
-- Temporal com posterior lamento é coisa dos Estados Unidos e amigos.
-- Acho que sim. Coisa de inglês: The rain will fall hard and rock block.
Na praça diante deles, onde a cidade pequena tem seu coreto e bancos pra se sentar e ver a vida passar, crianças correm a viver o dia de sol, mães conversam em versos e pipoqueiros pipocam seus sacos de pipoca com cheiro de sonhar. Um ou outro transeunte corre para pagar contas e conta seus centavos em meros avos. Pombos arrulham na impossibilidade de voar e em qualquer fio de luz mirar a cabeça dos desavisados.
-- Lembra que foi aqui o nosso primeiro beijo?
-- Lembro. E já faz tempo.
-- Faz. Coisa de velhas feridas e tantos unguentos.
-- Lamentos, coisas boas, madrugadas e contos tintim por tintim.
-- Afinal, como diria o poeta, “o que lava a gastura da mágoa é água”.
Sem que eles vejam, uma e outra nuvem se juntam noutra e se expandem em escuridão e melancolia. O Sol, antes dono do pedaço, sente que é hora de buscar um regaço para se esconder das águas que podem ele apagar. “Água e fogo não são amigos”, diz o corpo celeste e rei para Marte que a tudo olha de longe, no ar.
-- Acho que a chuva vem aí.
-- Será?
-- É só olhar pra cima e ver.
-- Tem razão. Vamos correr pra casa e tirar as roupas do varal.
De mãos dadas, Catarina e Amâncio correm nos primeiros pingos de chuva para resgatar calças, camisetas, vestidos, cuecas e calcinhas do inimigo que desce em gotas do céu. Riem da mudança do tempo, descobrem que há poesia no contratempo e redescobrem que o invisível aos olhos é risível ao sentimento.
(Ao som de Marco Vilane)

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