Por Ronaldo Faria
Estradas de Minas Gerais (leia-se
minúsculo Sergipe) entre pós e poeiras mil. Montanhas verdejantes e um galo que
teima em cantar para contar às galinhas que está na hora de botar os ovos que
devem na tarde/noite madrigal ter ovulado. Quem sabe, até, acordar um ou mais
humanos que, de forma desumana, se mantém a contar as horas da vida quando essas
horas se fazem realidade no mais barato celular. Nos pés de frutas logo ali
perto, limões e tangerinas a brotarem em cores virginais.
Numa estradinha, dessas que
fica perdida entre o próximo respirar e a angina derradeira, a capela pede ao
Deus que ninguém sabe se existe ou não a benção de crer em histórias que
alguém, meio louco ou doidão, escreveu. Mas, afinal, de que serve o passado se
não for pra reescrever a sina da efêmera solidão? No seu cavalo rocinante, tracejante
no seu trotar entre um vilarejo volátil e outro, João segue incólume e crente
de que o próximo passo das patas do animal irá um dia virar verso no reverso da
raspa do tacho.
Nas estradas de Minas Gerais (leia-se
minúsculo Sergipe) monásticas e esotéricas, na vontade voraz de que se façam
trilhas de santos do pau oco ou ocasiões efêmeras e telúricas, os passos passam
feito Pasárgada que vive na ilusão do aprendiz de poeta e esteta de si mesmo, a
esmo. Nos augúrios que se volatizam vis e sem termos, ensejos mil e desejos a se
perderem na tela branca que se abre na incerteza do ser em ser. E personagens malucos
e nunca pensados a viver em pesadelos e desmazelos que nem o verso mais escrito
perpetua infinito. A saber, a mente que cria vidas se vê refém de personagens
nunca pensados ou em fôrmas untados. Em tudo, a loucura de neurônios tragicômicos
e entregues a polígrafos etílicos infames.
Mas João segue o caminho, com
um revólver na cinta a mirar a sentença próxima da vida. No bico do corvo,
mesmo que tal pássaro por essas bandas não existam e persistam às incertezas de
um viajante do senão do sertão, seu filho é somente um ser a mais. Fugaz, inerte e em
blasfêmia daquilo que a ilusão da visão da vida sabe se fazer e dar. Na próxima
comarca, a farsa de crer que há justiça na imagem da mulher vendada a segurar
pratos e espada irá receber João. Entre galináceos e patos, verdades e fatos. Nos
pastos vastos que verdejam graças as chuvas despejadas ao lado, casas de farinha,
canas esmagadas a virar suco de futuro açúcar ou pinga, um ou outro casebre que
nem mesa tem recebe o sobrinho do dono das terras (seu filho) como fosse mais
do que apenas um menino. A revoarem, abelhas africanas sobrevoam o destino logo
ali na frente. No som dos ouvidos, agora, Flavio Tris. Na verdade, a própria
sanidade do escritor/cavalo de santo está por um triz.
Nas estradas de Minas Gerais (leia-se
minúsculo Sergipe), canções serpenteiam a criação. No derradeiro semeio de
espera e trégua final, naufrágios etéreos jogam os salva-vidas que a vida nunca
soube prever e dar no firmamento. Na saudade premente, a sala imensa com cheiro
de lampião de gás a ver apenas um neto no colo do avô coronel a tirar com todo
o carinho do mundo bichos de pé que o menino da capital federal não sabia existirem. A partir dali, a loucura de um tempo em que sequer luz elétrica havia.
Na insanidade do lembrar, um tempo que no agora só existe em memórias ou
canção.
(Nesse texto há duas histórias de dois caçulas do signo de escorpião que
parecem ser um só nas letras que a gente acredita ter vivido)