sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Estradeiro de Minas Gerais (leia-se minúsculo Sergipe)

 Por Ronaldo Faria


Estradas de Minas Gerais (leia-se minúsculo Sergipe) entre pós e poeiras mil. Montanhas verdejantes e um galo que teima em cantar para contar às galinhas que está na hora de botar os ovos que devem na tarde/noite madrigal ter ovulado. Quem sabe, até, acordar um ou mais humanos que, de forma desumana, se mantém a contar as horas da vida quando essas horas se fazem realidade no mais barato celular. Nos pés de frutas logo ali perto, limões e tangerinas a brotarem em cores virginais.
Numa estradinha, dessas que fica perdida entre o próximo respirar e a angina derradeira, a capela pede ao Deus que ninguém sabe se existe ou não a benção de crer em histórias que alguém, meio louco ou doidão, escreveu. Mas, afinal, de que serve o passado se não for pra reescrever a sina da efêmera solidão? No seu cavalo rocinante, tracejante no seu trotar entre um vilarejo volátil e outro, João segue incólume e crente de que o próximo passo das patas do animal irá um dia virar verso no reverso da raspa do tacho.
Nas estradas de Minas Gerais (leia-se minúsculo Sergipe) monásticas e esotéricas, na vontade voraz de que se façam trilhas de santos do pau oco ou ocasiões efêmeras e telúricas, os passos passam feito Pasárgada que vive na ilusão do aprendiz de poeta e esteta de si mesmo, a esmo. Nos augúrios que se volatizam vis e sem termos, ensejos mil e desejos a se perderem na tela branca que se abre na incerteza do ser em ser. E personagens malucos e nunca pensados a viver em pesadelos e desmazelos que nem o verso mais escrito perpetua infinito. A saber, a mente que cria vidas se vê refém de personagens nunca pensados ou em fôrmas untados. Em tudo, a loucura de neurônios tragicômicos e entregues a polígrafos etílicos infames.
Mas João segue o caminho, com um revólver na cinta a mirar a sentença próxima da vida. No bico do corvo, mesmo que tal pássaro por essas bandas não existam e persistam às incertezas de um viajante do senão do sertão, seu filho é somente um ser a mais. Fugaz, inerte e em blasfêmia daquilo que a ilusão da visão da vida sabe se fazer e dar. Na próxima comarca, a farsa de crer que há justiça na imagem da mulher vendada a segurar pratos e espada irá receber João. Entre galináceos e patos, verdades e fatos. Nos pastos vastos que verdejam graças as chuvas despejadas ao lado, casas de farinha, canas esmagadas a virar suco de futuro açúcar ou pinga, um ou outro casebre que nem mesa tem recebe o sobrinho do dono das terras (seu filho) como fosse mais do que apenas um menino. A revoarem, abelhas africanas sobrevoam o destino logo ali na frente. No som dos ouvidos, agora, Flavio Tris. Na verdade, a própria sanidade do escritor/cavalo de santo está por um triz.
Nas estradas de Minas Gerais (leia-se minúsculo Sergipe), canções serpenteiam a criação. No derradeiro semeio de espera e trégua final, naufrágios etéreos jogam os salva-vidas que a vida nunca soube prever e dar no firmamento. Na saudade premente, a sala imensa com cheiro de lampião de gás a ver apenas um neto no colo do avô coronel a tirar com todo o carinho do mundo bichos de pé que o menino da capital federal não sabia existirem. A partir dali, a loucura de um tempo em que sequer luz elétrica havia. Na insanidade do lembrar, um tempo que no agora só existe em memórias ou canção.
 
(Nesse texto há duas histórias de dois caçulas do signo de escorpião que parecem ser um só nas letras que a gente acredita ter vivido)

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