domingo, 15 de fevereiro de 2026

Nuno Mindelis & The Cream Crackers: o melhor do blues brasileiro*

 Por Edmilson Siqueira


Ele nasceu em Angola, então colônia portuguesa, morou um tempo no Canadá e depois veio para o Brasil, onde se naturalizou. Pois luso-brasileiro é o maior nome do blues no Brasil e reconhecido mundialmente, inclusive na terra do blues, os Estados Unidos. E é branco, o que é raro no gênero.  
Pois quando se fala em blues no Brasil, poucos nomes alcançam o respeito quase unânime que Nuno Mindelis conquistou ao longo de sua trajetória. Guitarrista de técnica refinada, compositor com identidade própria e intérprete profundamente conectado à tradição afro-americana do blues, Mindelis construiu uma carreira singular, distante de modismos e profundamente comprometida com a essência do gênero. O álbum Nuno Mindelis & The Cream Crackers, lançado em 1998, ocupa um lugar central nessa história, funcionando como uma síntese estética, musical e conceitual de sua visão artística naquele momento. 
Na verdade, esse disco é mais velho do que isso. Ele foi gravado entre maio e junho de 1992 e lançado nesse mesmo anco com o nome de "Long Distance Blues". E, segundo a Wikipédia, foi relançado em 1998 com o nome mudado para "Nuno Mindelis & The Cream Cracker" sem consulta ou conhecimento do autor.  
E o disco é bom, muito bom. Claro que o blues é um gênero que pode não agradar todo mundo, mas Nuno Mindelis é cantor dos bons e seu blues tem muito a ver, como nas melhores famílias, com o rock.  
É um blues urbano, sofisticado, com raízes claras na tradição norte-americana, mas filtrado por uma vida que atravessa Angola, Europa e Brasil. Ao lado da banda The Cream Crackers, Mindelis entrega um trabalho coeso, vibrante e tecnicamente irretocável, que se tornaria referência não apenas em sua discografia, mas também no cenário do blues brasileiro como um todo. 
Os músicos que formam a banda são todos do primeiro time e ainda conta com algumas participações especiais todas ótimas. 
Além de Nuno na guitarra e vocais, temos Paulo Fernandes na bateria; Jefferson Bergamini no baixo e José Roberto Bohn nos teclados. Fabio Colombini toca guitarra e violão em duas faixas; Larry McCray toca guitarra numa faixa e faz vocal em outra e J. J. Milteau toca harmônica em três faixas.   
No encarte do disco de 1992 (o que eu tenho é de 98 e o encarte não traz esse texto), Nuno escreveu: “Não há dúvida de que os opostos, longe de se afastarem definitivamente, acabam por se encontrar, como a vida e a morte. Prova disso é a aparente oposição entre a poesia de um Robert Johnson, pela sua extrema simplicidade, e a de um Fernando Pessoa, por exemplo. A primeira, de tão simples, é de extrema profundidade; a segunda, de tão profunda, é de extrema simplicidade. O mesmo ocorre em relação ao blues, enquanto gênero musical. É simples, mas por isso mesmo, profundo e nada fácil.” 
Antes do lançamento de Nuno Mindelis & The Cream Crackers, o guitarrista já havia se destacado com trabalhos que chamaram a atenção pela qualidade técnica e pela autenticidade de sua interpretação. Mas, segundo a crítica, foi nesse álbum que sua estética ganhou contornos mais definidos, especialmente no diálogo intenso com afiada banda, capaz de responder com precisão às suas ideias musicais. 


A influência de mestres como B.B. King, Albert King, Freddie King e Buddy Guy é perceptível.  Mindelis absorve essas referências e as devolve transformadas, com sotaque próprio, com dinâmica extremamente controlada, permitindo que a guitarra soe ora agressiva, ora delicada, conforme a necessidade emocional da canção. 
O repertório do álbum tem Nuno com principal participante. Das onze faixas, ele assina dez, duas com parceiros. A única que não é de Nuno, é simplesmente de B. B. King.  
Há várias músicas cantadas, mas há também espaço para momentos mais instrumentais, nos quais a banda explora grooves e atmosferas com liberdade, sem perder o foco narrativo. Esses trechos reforçam a dimensão musical do blues como linguagem expressiva, não apenas como veículo para letras confessionais. 
Um dos aspectos mais importantes do disco é sua contribuição para a afirmação de um blues brasileiro livre de caricaturas. Mindelis nunca tentou “tropicalizar” o blues de forma artificial, nem mascarar suas raízes afro-americanas. Ela se insere de maneira natural, dialogando com um público que reconhece ali algo autêntico, mesmo que estrangeiro em origem. 
Tanto que à época de seu lançamento, o álbum foi recebido com entusiasmo por críticos e músicos, consolidando Nuno Mindelis como uma das maiores referências do blues no Brasil. Mais do que sucesso imediato, o disco construiu um legado duradouro, influenciando gerações de guitarristas e bandas que passaram a enxergar o blues como um campo fértil para expressão artística sofisticada. 
Mais de duas décadas após seu lançamento, Nuno Mindelis & The Cream Crackers permanece como um marco do blues no Brasil. Uma audição obrigatório para se compreender a obra de Nuno e também o início da trajetória do blues no Brasil que tem esse registro como uma espécie de marco inicial do amadurecimento do gênero por aqui.  
As onze faixas são as seguinte: 
- Talk About The Blues (Nuno Fidelis, Valeur e Jefferson Bergamini) 
- Don't Hide Away (Nuno Mindelis) 
- Pay The Cost To Be The Boss (B. B. King) 
- Three Days StraightNuno Mindelis e Valeur) 
- It's Your Fault (Nuno Mindelis) 
- Dog's Day Night ((Nuno Mindelis) 
- Answer To Ronnie (Nuno Mindelis) 
- Talk About Somebody(Nuno Mindelis) 
- It's My Turn(Nuno Mindelis) 
- Blues Time (Nuno Mindelis) 
- Iberic Blues (Nuno Mindelis) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=HAD0TxqEGF8&list=PLkGQAKgRh6aprYmn9yfLO2xwOlK5zTE2H . 

*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT. 

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