Por Ronaldo Faria
A feira fervia com sanfoneiro,
zabumbeiro e carneiro estrebuchado, o homem a vender sua farinha branquinha e um
cachorro deitado na espera do naco de sebo chegar. As barracas, cobertas com um
toldo carcomido pelo sol inclemente, tinham desde querosene pra lampião a
vestido de corte bonito para aquele que quisesse sua amada presentear. Beiju,
bolacha meia lua, tapioca da melhor. Chapéu e sandália de couro, bolo de milho, artesanato de barro. Na praça diante da igreja que todos juravam de pé junto ter sido
parada de Padrinho Cícero Romão Batista, o povo se misturava e achegava juntinho pra ver o
cará, a jerimum, pitomba e cana cortada no palito. No ar, o cheiro gostoso de
carne de sol se misturava com a água de colônia que as mulheres mais lindas
faziam soprar ao vento no ar. Foi ali, nesse mundo de cores e louvores, que
Zé Longuinho, vaqueiro de costão, viu Filomena, derradeira filha do comerciante
de terras João da Inês. Pele esturricada do sol, com olhos que lembravam os
melhores dias da mata verde, sorriso de dentes a brilhar nas estradas atrás de
boi fugido, foi ver a donzela e logo decidiu: “É ali que vou chegar depois de
toda vaquejada poder achegar”.
-- Desculpe a ousadia, mas posso acompanhar a senhorita nessa feira?
A chegada tinha sido rápida e assustou Filomena. De beleza que nem o melhor escultor grego saberia descrever ou em mármore fazer, quem há pouco deixara de ser menina a brincar com bonecas de pano, ela mal soube responder. Mas, com um sorriso de orvalho na rosa, pôde murmurar “pode ser”. No meio de brocados, bocados de castanha de caju, bandejas de jaca, mangaba e umbu, os dois trocaram olhares, pouco falaram e outro menos disseram na pisada pelo chão de pedras calçadas.
-- Meu nome é José Ramalho, mas me conhecem como Zé Longuinho. Sou vaqueiro da fazenda Murta Velha.
-- Prazer. Sou Filomena. Estudo magistério e vou dar aula no grupo escolar pra alfabetizar os pequenos.
-- Nossa, uma professora! Coisa linda. Alguém que sabe os outros ensinar a soletrar.
-- É verdade. É bom poder abrir os caminhos do futuro através de uma cartilha.
-- Tenho a certeza de que se tivesse uma professora como você na minha infância, saberia agora ler e escrever de tudo. Até cordel iria fazer...
Filomena riu com o jeito simplório do vaqueiro, quase feito seu avô Tenório. Mas, ao menos, ele era verdadeiro. "Mas minha vontade mesmo é me mudar para a capital, fazer faculdade de Letras".
Aquela frase mexeu com Zé Longuinho. “Como assim, nem aprumei nossa vida e ela já vai me deixar?” - pensou com tristeza no peito.
-- Quem bom. Mas vai assim, sozinha? A capital é lugar perigoso pra moças como você.
-- Qual nada. Tenho parente lá. Depois, quem sabe, viro diretora escolar.
O pobre boiadeiro, que trocara as cadeiras do grupo escolar pela roça de milho e depois pelo cavalgar na caatinga num alazão, sabia que nenhum oitão iria trazer sombra para aquele amor.
-- Filomena, lembrei agora que tenho uns bezerros para apartar das mães. Te vejo depois?
-- Pode ser, quase todo o domingo eu estou aqui, para comprar e, como vê, prosear.
-- Então está tudo bom. Até mais ver qualquer hora. E desculpe o atrevimento, mas a senhorita é formosa.
-- Desculpe a ousadia, mas posso acompanhar a senhorita nessa feira?
A chegada tinha sido rápida e assustou Filomena. De beleza que nem o melhor escultor grego saberia descrever ou em mármore fazer, quem há pouco deixara de ser menina a brincar com bonecas de pano, ela mal soube responder. Mas, com um sorriso de orvalho na rosa, pôde murmurar “pode ser”. No meio de brocados, bocados de castanha de caju, bandejas de jaca, mangaba e umbu, os dois trocaram olhares, pouco falaram e outro menos disseram na pisada pelo chão de pedras calçadas.
-- Meu nome é José Ramalho, mas me conhecem como Zé Longuinho. Sou vaqueiro da fazenda Murta Velha.
-- Prazer. Sou Filomena. Estudo magistério e vou dar aula no grupo escolar pra alfabetizar os pequenos.
-- Nossa, uma professora! Coisa linda. Alguém que sabe os outros ensinar a soletrar.
-- É verdade. É bom poder abrir os caminhos do futuro através de uma cartilha.
-- Tenho a certeza de que se tivesse uma professora como você na minha infância, saberia agora ler e escrever de tudo. Até cordel iria fazer...
Filomena riu com o jeito simplório do vaqueiro, quase feito seu avô Tenório. Mas, ao menos, ele era verdadeiro. "Mas minha vontade mesmo é me mudar para a capital, fazer faculdade de Letras".
Aquela frase mexeu com Zé Longuinho. “Como assim, nem aprumei nossa vida e ela já vai me deixar?” - pensou com tristeza no peito.
-- Quem bom. Mas vai assim, sozinha? A capital é lugar perigoso pra moças como você.
-- Qual nada. Tenho parente lá. Depois, quem sabe, viro diretora escolar.
O pobre boiadeiro, que trocara as cadeiras do grupo escolar pela roça de milho e depois pelo cavalgar na caatinga num alazão, sabia que nenhum oitão iria trazer sombra para aquele amor.
-- Filomena, lembrei agora que tenho uns bezerros para apartar das mães. Te vejo depois?
-- Pode ser, quase todo o domingo eu estou aqui, para comprar e, como vê, prosear.
-- Então está tudo bom. Até mais ver qualquer hora. E desculpe o atrevimento, mas a senhorita é formosa.
Filomena se despediu dele com
um sorriso de pasta de dente e aceno tímido. Quando dobrou a esquina que dava
para o rumo e prumo do estradão, ele deu de chorar feito menino que perde seu
primeiro dente. Excomungou a pobreza que o deixou ser o que é, pensou que se
fosse doutor, desses de bata ou canudo, poderia Filomena conquistar. Mas, como
amar uma professora que ainda por cima iria fazer a tal de faculdade. Com o
cavalo arfando e suando em meio à poeira e o tempo que jogava calor ao
derredor, sua dor plantava raízes de nostalgia num terreno que há muito nem
coaxava jia.
Quando a lua já brilhava branca no céu limpo de nuvem de chuva,
chegou ao casebre que acreditou pudesse ter Filomena. Mas, hora vejam só, o
lugar estava vazio. Sentou no tamborete, bebeu algumas doses de pinga e deitou
na rede pra dormir. No cochilo gostoso que o cansaço dá ao corpo torpe e
entregue a um deus romano que nunca saberá sequer o nome, Zé Longuinho
sonhou com a amada que nunca viria a entrar pela porta de tramela e vela na
sala de pau a pique a queimar. No seu sonho bisonho a quem não sabe o que deve sonhar,
lá estava ela: linda, lívida, da cor de um branco igual ao vestido, a dizer que,
na capelinha da fazenda, seria sua mulher na vida e na pobreza. Num sorriso que
no negrume da noite ninguém vê e só a coruja sabe despertar ao piar, ele por
fim é feliz em viver.
(Com Trio Macaíba)

















