segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reencontro sem ponto

Por Ronaldo Faria


A volta foi rápida, quase bucólica não estivesse ela com cólicas. Há muito não se viam. Feito viajantes ultramarinos, quase moribundos do último naufrágio tão frágil como tarde no sofá sem pipoca ou Doritos, bombom envolto em dourado, se tocaram e se entocaram na própria magia. Ele tinha feito gastronomia e ela filosofia. Estavam mais velhos. Um ou outro fio de cabelo se escabelava branco nas madeixas entregues à brisa frugal. Mas a luz curta e lúgubre parecia cena de Hollywood, com penumbra que esconde as profusas e difusas quirelas de amor que brilhavam entre os dentes.
-- Saudade...
-- Eu também, muita. Daqui até o sol.
-- Saudade do teu gosto.
Isso posto, na visita que não houve no novo morar, rostos se juntam postos em gostos antigos, cheiros de narizes a respirar aquilo que o outro trazia de seus pulmões em aflitos desejos de estrelas que buscam a negritude do universo irreal para brilhar. E tocaram a pele em pernas e orgias, sorriram em harmonia de Carnaval e redescobriram que o tempo viaja na contramão se assim se quiser. Amantes de anos muitos que correram décadas e lugares, nas terras e mares, sabiam que a ilusão percorre mundos e fundos para se fazer realidade, seja em qual idade for.
-- E aí, novidades?
-- Muitas e poucas, coisas preenchidas e outras ocas.
-- Eu também.
-- Garçom, outro chopp.
No derredor, a casa de pastel descansa de tanto fritar massas e sabores. Os odores sem as dores reminiscentes ficam pra depois. Na rua, em raios que chegam em profusão para qualquer confusão, mental ou real, a luz absorve o momento e se sorve de línguas e desejos como cata-ventos na tempestade de unguentos nunca práticos para fechar feridas tardias. Nalgum lugar, copos de cerveja transbordarão a borbulhar. Risos chegarão para rodear o lugar, mãos se entrelaçarão no insólito perguntar: “É aqui?” Na resposta trêmula e triste, a querer bis, “acho que é”. Logo mais, sem a certeza de saber se pé roça barriga ou umbigo serve de depositário de língua, ambos são corpo transeunte e pedinte por mais a bailar, desses que erram seu chegar. No luar que desabrocha do céu, algum rebelde querubim a tudo vê, se esbalda de alegria e diz que sim. A trama, refeita, chegou ao fim.
 
(Com Artur Verocai)

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