sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Na viola que chora

Por Ronaldo Faria


A viola rola solta no drama e na trama. Sebastião tinha perdido o amor de Sebastiana. Numa quermesse da igreja que buscava recuperar as imagens cagadas pelos morcegos pagãos, os dois tinham esquecido tanto amor premido e sem prêmios na pescaria que resolveram terminar. Quer dizer, ela quis acabar. Dependesse do homem criado no mais recôndito quinhão, eles teriam uma ruma de oito filhos, fora os paridos e entregues nascituros às covas rasas do sertão. Mas Sebastião, sem querer, tinha dado os olhos à prenda que a moça de vestido de chita acabara de receber. Morena, de cabelos cor de carvão, seios fartos e olhar que brilhava mais do que o lampião a gás de seu avô, ela chamava a atenção do lugar. Sebastiana era seu amor primeiro e derradeiro, como a menina estradeira que sorri no trote escaldante da boiada levar.
-- Gostou dela? Tá livre pra ficar! Nem precisa mais me procurar...
-- Meu amor, só estava a olhar a barraca pra poder jogar e te dar um presente.
-- Bastião, você nunca soube mentir. Deixa que o caminho da minha casa eu sei seguir.
Largado no meio de tanta gente, o homem que tanto aboiou gado nos pastos e antepastos da vida estava solitário como fosse padre sem sacrário ou ofício. Olhou as poucas luzes que brilhavam nos postes, promessa do coronel e prefeito às hostes, e viu apenas negror infindo. Sem Sebastiana ele era nada ou, como diria o poeta, um só doidivanas. A morena que tinha perpetrado a cena já sumira entre a barraca de pamonha e a de bolas na boca do palhaço pintado sem verniz.
-- Como assim? Amor se derrama ao léu sob o céu de fim de dia?
Ainda sem todos os dentes que o protético ficou de arrumar, perdidos no coice de um boi que fugiu mata a dentro, ele tinha medo de se entregar. Para Sebastião, Bastião aos íntimos que podia ver falar no sangue, decide largar a feira e seguir no adiante que o desencontro lhe deu. Solitário, acabrunhado e sem tradução que nem o tempo ajeita, pega a trilha cercada de mato vivo e coruja piando sua senda. Passa por casebres onde uma vela revela que há gente a viver ou amar, pisa pedriscos e areia, serpenteia para não pisar na serpente que atravessa o lumiar. E assim, entre o não e o sim que a história dá, brinca de fugir de si e voltar aos abraços de Sebastiana. A colocar seu corpo sedento de amor a encher cacimbas na espera de chegar. E depois, no após da póstuma tristeza morta de ver os lábios molhados de amar, poder dormir no acalanto calado de se recriar.
-- Boa noite, compadre Bastião. Vai tomar a saideira aqui na venda antes de fechar?
-- Com certeza, Esmeraldo. Manda logo duas pingas que é pra emborcar.
Em volta, no revoar de revolta das abelhas africanas que buscam novo canto pra fugir do fogo que o agregado das terras do senhor coloca, o barulho de asas contrasta com o silêncio que nem o vento pífio vai fazer ir embora. Agora, refeito feito pinto que sai do ovo para poder viver, Sebastião olha em volta e tem vontade só de chorar. Mas relembra da morena que passa feito cadenas que aprisionaram seu olhar. Fora apenas penduricalho, desses que se larga logo depois de colocado no peito.
-- Esmeraldo, pendura pra mim. Até o final do mês recebo o vale do patrão.
Mais um pouco e chega sua casa. Cansado, consternado, rasgado de coração, dorme logo, quando o sapo ainda coaxava sem ninguém a lhe jogar sal. Quando o galo que desperta ao sol primeiro canta ligeiro, numa sinfonia vadia, Sebastião acorda. Lava o rosto, põe o gibão e toma o rumo do curral. Sela o cavalo que tinha dormido sem ir à festa do santo, cai na estrada e busca esquecer a dor que incha sua cabeça de resto de álcool como passaporte. Na praça que antes era somente juntado de gente, dois bêbados dormem nos bancos de cimento. No derredor não há, porém, lamento. Na frente da casa, Sebastiana abre a janela. Num sorriso de talvez arrependida dá esperanças ao amor eterno. Sebastião depressa desce do alazão. A beata que seguia para missa primeira do dia preferiu esconder os olhos no guarda-chuva preto a ver dois corpos copulando na rua como fossem animais no cio que nem espelho d’água sabe mirar. No realejo, o periquito despenado tira a sorte que diz que a felicidade terá, por fim, seu lugar.
 
(Com Almir Sater)

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