sábado, 27 de dezembro de 2025

Dúvidas em dívidas dadivosas

Por Ronaldo Faria


Dúvida. Quem entrará pela porta feito amante sedenta de beijos ou o agiota a cobrar seu espaço no lar? O que sairá do plantio da horta? Quem dançará a derradeira dança em mi bemol num semitom abaixo de mi e um semitom acima de ré? De onde sairá o grito derradeiro do sorriso brejeiro que não está aqui? O vento valsará entre as frestas da janela ou se largará nas festas que rolam na madrugada do amanhã? Nas ruas boiarão almas rumo às sarjetas que correm no asfalto infausto ou pássaros se aninharão na árvore que desabrocha a primavera? Na dúvida dadivosa que divide dramas e dogmas, o pó ao pó.
Marcelo caminhava no asfalto como andasse nas estrelas. Centelhas de fuligem desciam na avenida. Fria, quase frígida de si mesma, a madrugada se trajava de história e the end, num quase fim. No vento que volteia silencioso e cioso de atrapalhar o destino, há espaço que junta pés descalços e cadarço desatado. Há ainda a frágil monotonia que a diáspora faz levar - leve e iluminada de olhares fugazes. Em tudo isso, ele atravessa em versos o tempo que corre nos ponteiros do relógio em quiproquó desde que a humanidade deixou de viver sob a umidade de não ter um telhado pra dormir.
À frente, na infausta história que nem Fausto escreveria igual, Marcelo se pergunta agora se vale a pena viver. Na manhã de ontem, já outrora para o nada eterno, ele acreditava que sim. Afinal, se era para estar aqui, que fosse da forma que fosse. Mas, nesse momento, na avenida premida e espremida entre calçadas e concubinas, a resposta já era dúvida encravada de vozes ao longe e latidos feito grunhidos. Na sentença que se escrevia na junção de íris e lunares pesadelos, ele seguia a beirar a guia da calçada. Bem melhor do que aqueles que descansavam à eternidade nos campos santos cheios de ateus e seres bestiais, ao menos Marcelo conseguia seguir sem cão de guia. Ainda. “Senhor, quer comprar um churros de chocolate?” Ele não ouve o vendedor que parece vendilhão de açúcar e dor. Segue rumo ao prumo que visualizou. Na sua cabeça, torrentes de saudades correm nos dormentes do trem da felicidade que descarrilhou na última esquina. Entre mortos e feridos, corroem feito gritos ardidos nos poucos toscos que se salvaram...
 
(A ouvir João Cavalcanti e Marcelo Caldi)

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