Por Edmilson Siqueira
Quando Dizzy Gillespie idealizou a United Nations Orchestra, no fim dos anos 1980, ele não estava apenas montando mais um grupo: estava formalizando, em escala global, uma visão que sempre guiou sua obra. Desde os tempos do bebop, Gillespie via o jazz como uma linguagem aberta, permeável, capaz de dialogar com culturas diversas sem perder identidade. A United Nations Orchestra foi a materialização mais ambiciosa dessa filosofia.
Criada em 1988, a orquestra reunia músicos de diferentes países: artistas da América Latina, do Caribe, da África, da Europa e dos Estados Unidos dividiam o palco sob a liderança carismática e musicalmente generosa de Dizzy. O grupo não tinha uma formação fixa, mas mantinha como princípio básico a convivência entre o jazz moderno e ritmos tradicionais — samba, rumba, calipso, afro-cubano, baião, entre outros.
O repertório refletia essa proposta multicultural. Clássicos do próprio Gillespie, como “A Night in Tunisia”, surgiam reinventados por novas camadas rítmicas e tímbricas, enquanto composições originais de membros da orquestra ganhavam espaço ao lado de temas tradicionais rearranjados. A música não era uma simples fusão superficial, mas um diálogo profundo, construído a partir do respeito às especificidades de cada tradição.
Do ponto de vista estético, a United Nations Orchestra representou um estágio avançado do jazz como música global. Diferente das experiências afro-cubanas das décadas de 1940 e 1950 — das quais o próprio Dizzy foi pioneiro —, aqui o escopo era mais amplo e menos centrado em um único eixo cultural. A improvisação jazzística funcionava como elo comum, enquanto as estruturas rítmicas e melódicas variavam de acordo com a origem de cada peça.
Politicamente, o projeto também carregava significado. Em plena transição do mundo pós-Guerra Fria, Gillespie propunha uma metáfora sonora de convivência internacional. O nome “United Nations Orchestra” não era retórico: a banda encarnava a ideia de cooperação entre povos por meio da arte, sem barreiras culturais impostas.
Os registros ao vivo do grupo revelam uma música vibrante, festiva, mas também sofisticada. O virtuosismo nunca se impõe como exibicionismo; ele serve à coletividade. Dizzy, já veterano, atua mais como maestro e catalisador do que como solista dominante, abrindo espaço para que novas vozes se afirmem.
Assim, a United Nations Orchestra pode ser vista como o testamento artístico de Dizzy Gillespie. Mais do que um projeto musical, foi uma afirmação ética e estética: o jazz como território de encontro, troca e celebração da diversidade humana.
O disco foi gravado ao vivo no Royal Festival Hall, em Londres, um local que tive prazer de conhecer em 2001, quando eu e o local estávamos comemorando 50 anos. Comprei até uma blusa polo com o escudo do Royal e sua data de fundação.
Criada em 1988, a orquestra reunia músicos de diferentes países: artistas da América Latina, do Caribe, da África, da Europa e dos Estados Unidos dividiam o palco sob a liderança carismática e musicalmente generosa de Dizzy. O grupo não tinha uma formação fixa, mas mantinha como princípio básico a convivência entre o jazz moderno e ritmos tradicionais — samba, rumba, calipso, afro-cubano, baião, entre outros.
O repertório refletia essa proposta multicultural. Clássicos do próprio Gillespie, como “A Night in Tunisia”, surgiam reinventados por novas camadas rítmicas e tímbricas, enquanto composições originais de membros da orquestra ganhavam espaço ao lado de temas tradicionais rearranjados. A música não era uma simples fusão superficial, mas um diálogo profundo, construído a partir do respeito às especificidades de cada tradição.
Do ponto de vista estético, a United Nations Orchestra representou um estágio avançado do jazz como música global. Diferente das experiências afro-cubanas das décadas de 1940 e 1950 — das quais o próprio Dizzy foi pioneiro —, aqui o escopo era mais amplo e menos centrado em um único eixo cultural. A improvisação jazzística funcionava como elo comum, enquanto as estruturas rítmicas e melódicas variavam de acordo com a origem de cada peça.
Politicamente, o projeto também carregava significado. Em plena transição do mundo pós-Guerra Fria, Gillespie propunha uma metáfora sonora de convivência internacional. O nome “United Nations Orchestra” não era retórico: a banda encarnava a ideia de cooperação entre povos por meio da arte, sem barreiras culturais impostas.
Os registros ao vivo do grupo revelam uma música vibrante, festiva, mas também sofisticada. O virtuosismo nunca se impõe como exibicionismo; ele serve à coletividade. Dizzy, já veterano, atua mais como maestro e catalisador do que como solista dominante, abrindo espaço para que novas vozes se afirmem.
Assim, a United Nations Orchestra pode ser vista como o testamento artístico de Dizzy Gillespie. Mais do que um projeto musical, foi uma afirmação ética e estética: o jazz como território de encontro, troca e celebração da diversidade humana.
O disco foi gravado ao vivo no Royal Festival Hall, em Londres, um local que tive prazer de conhecer em 2001, quando eu e o local estávamos comemorando 50 anos. Comprei até uma blusa polo com o escudo do Royal e sua data de fundação.
A abertura se dá com "Tin Tin Deo" (Dizzy Gillespie, Gil Fuller e Chano Pozo), uma mistura do som das grandes orquestras de jazz norte-americanas com o ritmo latino. Muito metal e percussão completam o ambiente.
A faixa seguinte traz "Seresta", de Paquito D’Rivera, nosso velho conhecido por aqui, introduzido pelo próprio Dizzy. Com seu clarinete ele inicia o que se parece mais uma valsa, bem ao estilo das antigas serestas brasileiras. A música encanta a plateia que aplaude no meio dela, logo após os primeiros solos de Paquito.
Apesar do nome, "Samba for Carmen" (Paquito D’Rivera e Hank Levy), a terceira faixa mais se assemelha a uma rumba ou algo parecido. É bonita, bem interpretada - e possivelmente uma homenagem à nossa Carmem Miranda - mas não é o que conhecemos aqui por samba.
A quarta faixa, "And Then She Stopped" (Dizzy Gillespie), se inicia com forte solo de bateria e nos introduz o talento e a qualidade de Flora Purim, num scat sensacional. É a melhor- e a mais longa - faixa do disco.
A seguir, Dizzy apresenta sua própria música, "Tanga". Com uma introdução mais lenta, a flauta prepara o ambiente para Dizzy entrar com seu trompete dando o tom e o ritmo que a música assume a partir dali. Destaque para os grandes rompantes da turma do sopro.
"Kush" (Dizzy Gillespie), se inicia com um soturno solo de trombone, com alguma percussão, dialogando com o trompete por longos 3 minutos e 20 segundos. Só então a orquestra toda adere e o que se tem é um som típico das noites cubanas.
O clássico "A Night in Tunisia" (Dizzy Gillespie & Frank Paparelli) encerra o disco, com orquestra toda mostrando seus vários talentos. Talentos esses listado abaixo para que se perceba a razão da orquestra ter o nome de Nações Unidas.
Dizzy Gillespie—trompete
Claudio Roditi – trompete, percussão
Arturo Sandoval – trompete, flugelhorn, piccolo trumpet
Slide Hampton – trombone, arranjador
Steve Turre – trombone, bass trombone, shells
Paquito D'Rivera – alto saxofone, clarinete, percussão
James Moody – alto saxofone, tenor saxofone, flauta, percussão
Mario Rivera – tenor saxofone, soprano saxofone, percussão
John Lee – contrabaixo
Ed Cherry – guitarra
Danilo Pérez – piano
Flora Purim – vocal
Ignacio Berroa – bateria, percussão
Airto Moreira – percussão, bateria
Giovanni Hidalgo – percussão, congas
O CD está à venda nos bons sites do ramo e há vídeos no YouTube da apresentação em Londres, maiores até que o disco comentado aqui. Um deles é esse: https://www.youtube.com/watch?v=M9ZCgC81kII
A faixa seguinte traz "Seresta", de Paquito D’Rivera, nosso velho conhecido por aqui, introduzido pelo próprio Dizzy. Com seu clarinete ele inicia o que se parece mais uma valsa, bem ao estilo das antigas serestas brasileiras. A música encanta a plateia que aplaude no meio dela, logo após os primeiros solos de Paquito.
Apesar do nome, "Samba for Carmen" (Paquito D’Rivera e Hank Levy), a terceira faixa mais se assemelha a uma rumba ou algo parecido. É bonita, bem interpretada - e possivelmente uma homenagem à nossa Carmem Miranda - mas não é o que conhecemos aqui por samba.
A quarta faixa, "And Then She Stopped" (Dizzy Gillespie), se inicia com forte solo de bateria e nos introduz o talento e a qualidade de Flora Purim, num scat sensacional. É a melhor- e a mais longa - faixa do disco.
A seguir, Dizzy apresenta sua própria música, "Tanga". Com uma introdução mais lenta, a flauta prepara o ambiente para Dizzy entrar com seu trompete dando o tom e o ritmo que a música assume a partir dali. Destaque para os grandes rompantes da turma do sopro.
"Kush" (Dizzy Gillespie), se inicia com um soturno solo de trombone, com alguma percussão, dialogando com o trompete por longos 3 minutos e 20 segundos. Só então a orquestra toda adere e o que se tem é um som típico das noites cubanas.
O clássico "A Night in Tunisia" (Dizzy Gillespie & Frank Paparelli) encerra o disco, com orquestra toda mostrando seus vários talentos. Talentos esses listado abaixo para que se perceba a razão da orquestra ter o nome de Nações Unidas.
Dizzy Gillespie—trompete
Claudio Roditi – trompete, percussão
Arturo Sandoval – trompete, flugelhorn, piccolo trumpet
Slide Hampton – trombone, arranjador
Steve Turre – trombone, bass trombone, shells
Paquito D'Rivera – alto saxofone, clarinete, percussão
James Moody – alto saxofone, tenor saxofone, flauta, percussão
Mario Rivera – tenor saxofone, soprano saxofone, percussão
John Lee – contrabaixo
Ed Cherry – guitarra
Danilo Pérez – piano
Flora Purim – vocal
Ignacio Berroa – bateria, percussão
Airto Moreira – percussão, bateria
Giovanni Hidalgo – percussão, congas
O CD está à venda nos bons sites do ramo e há vídeos no YouTube da apresentação em Londres, maiores até que o disco comentado aqui. Um deles é esse: https://www.youtube.com/watch?v=M9ZCgC81kII
*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.


Nenhum comentário:
Postar um comentário