quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

No blog em 31 de dezembro de 2025

Por Ronaldo Faria


 
É réveillon. Mais um, mesmo mais de um ano à frente no tempo. Para Marina e Fulgêncio, tanto fazia como tanto faz ou jaz. Estão em Copacabana, como fosse ali início e fim de um drama. Na trama, enfisema e muita cana.
-- Logo mais será 2026. Você imaginou que a gente ia chegar aqui?
-- De verdade?
-- Claro...
-- Sonhava há muito com esse momento, mas não achava que fosse rolar.
-- Como assim?
-- É que o tempo foge da gente como rato de gato ou chuva de capim.
-- Bobo...
De branco lívido, limpo e travestido de sânscrito, milhares de pessoas enchem de areia a noite à espera de nova sangria. Alguns provavelmente não chegarão ao fim dos próximos 365 dias, mas isso agora pouco importa. É hora de fechar a porta do passado e presente e sonhar com um futuro premente. Desses que Jorge Mautner canta como regente.
-- E o que prevemos para logo mais?
-- Fogos, show da virada?
-- Não tontinho, nosso juntar pra sempre.
Marina e Fulgêncio, extremos na ilusão e na realidade, rasgados de paixão e regados de canção que ecoa do coração, eram um casal que Cazuza já havia dito que se conheceram na maternidade. Daí para se juntarem à eternidade faltava só quizumba que não há santo que tire da macumba.
-- Foi difícil ficar tanto tempo sem você.
-- Difícil, foi foda. Sem poder foder.
-- Mas agora acabou esse espaço sem passo junto.
-- E já não era sem tempo...
No palco, a atração principal de quase 2026 canta em altos brados. Mas querer que saibamos como será depois da virada destrambelhada é reviver João Bidu ou Omar Cardoso. Ou seja, engodo. Seja quem for, que suprima a dor. Mas o cantor está nas paradas de sucessos e vai encher o bolso de grana na nova chegada de ano. Ao casal, o normal.
-- Me dá um beijo?
-- Só um?
-- Não. Muitos daqueles que só a gente sabe dar...
O barulho de fogos e rojões, taças de plástico de champanhe ou cidreiras baratas a se baterem, flashes de celulares e gritos de boas-vindas infindas parecem não existir mais. Marina e Fulgêncio estão entregues a outro mundo, profuso e confuso, que mistura juras e promessas. Em mesclas de luzes que fundem novo chegar astronômico e outro calendário a mandar, são um só interligados de orgia própria em que nada mais faz sintonia. No mundo deles, ligado por mares e rios, a correr no oceano que se diz de janeiro, apenas um par dança no terreiro. Em casa de ferreiro, enfim, o espeto une línguas e sal.

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