Por Ronaldo Faria
Era uma vez...
O sonho de Claudionor
era começar um texto assim: "Era uma vez". Mas, no redor em derredor a roda de samba rodeava sem
parar. Tudo era restrito a sorrisos, balanços, remelexos, paixões desvariadas,
veleidades. O importante, nesse instante, era o tanto entre a realidade e a
instantaneidade. Enfim, no fim da perfídia inaudita e a desdita, a dor de
Claudionor era mistura de repenique, reco-reco, cuíca. Desfile sem avenida.
Mas era uma vez. Outra vez. Nas
oitivas que nenhum carteiro leva mais, letras se misturam nas vozes que cantam
e decantam mililitros em mil pesares. Saudades e amores bastardos, passado repassado,
transpassado de histórias e memórias. Nas góticas e utópicas, quiçá eufóricas transitórias
glórias, as volúpias se volatizam em borbulhas que sobem nos copos em goles de
cerveja e prosaica mansidão. Feito um Zé do Caroço.
Para Claudionor, DJ de mesa de
bar, com músicas que remontam o tempo em que o tempo montava casais em beijos abraçados
num mela-cueca sem parar, o importante era o momento do porvir que ainda
estava por vir. Senão, o aplauso de boêmios sedentos de falar enquanto houver
algo a dizer. Na estrada fatídica sem volta ou ida, desalinho de vidas em trôpegas
desandanças do par que há muito ficou no topo.
Mas, como para tudo há uma
vez, seja no colar da tez à amada declarada ou não, importante para Claudionor
era relembrar Madalena, sua flor de açucena. Linda, imemorável, flor de um
jardim que nem precisa se plantar para colher. “Traz outra gelada que nem essa
aqui.” Na mesa, ensimesmado de viver, ele vê o tempo passar rápido com mosquito
no copo, palito no prato e o mundo acelerar feito louco para entregar a pizza
fria. Afinal, era uma vez.
(Com Samba de Raiz)

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