terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Samba outra vez

 Por Ronaldo Faria


-- De novo uma roda de samba?
-- Também, o que você ia querer?
-- Sei lá: rock doidão, funk putão, rap pirocão...
-- Podia ser, mas fazer o que posso fazer se nasci aqui no meio do Morro da Promissão...
Clemêncio e Clementina, casal próspero e etéreo da vida, dessas coisas que juntam água e óleo na mesma melodia, até curtiram juntos uns rejuntes de reboco no barraco que a chuva levaria e brincaram de fazer filhos aflitos de comer prato de comida. Simplórios, catárticos e com carcinomas que mais tarde se fariam verdade, viviam suas ausências e premências tardias. Nas manhãs bebiam um café rarefeito em copos de cerveja de bar, nas tardes se enfiavam em suas vidas nas orações ou biritas, nas noites falavam quase nada e nas madrugadas tinham sonhos e pesadelos a brotar nas mentes e fantasias. Eram, pois, casal singular. Desses que se vê todo dia na diuturna trilha de se trilhar.
-- Vamos orar a Ogum ou Oxalá?
-- Oremos aos dois. Para que nossa vida em paralelas se junte numa esquina sem encontrar as mãos.
No tempo atemporal que junta Melhoral e Dipirona num coquetel de querer continuar, ninguém se atrevia a por a colher. Entre brigas e rusgas, rugas surgiam em cada olhar no espelho. No reboco da casa inacabada chegavam contas e boletos, se achegavam duetos de parceria mal feita, afeita àquilo que o quilo de coxão duro pesava na balança da transa final. No espanto quântico da fantasia liquefeita, cegos de visão e impropérios dos impérios notívagos e atávicos, ambos ambicionavam a felicidade. Só erravam na receita que foi sobescrita inaudita e finita. Na porciúncula letal, farrapos de inerente poesia. Talvez, como diria o poeta, um caco de telha ou caco de vidro.
-- Lapa ou Estácio?
-- Tanto faz. É tudo caminho pra logo mais. Corridas entre estações de trem, solilóquios tardios e escassos descasos. Beijos dados, lambidos e entre línguas lavadas, desovadas de dentro do peito cravado de amor.
Na rua que se arruma e se apruma para viver a madrugada tragada de bêbados apaixonados entre tragos e benvindas vivências, os dois felicitam a madrugada que permeia o juntar. E se fazem falácias, volteiam passos, brincam de florear o compasso que o periquito preso a revelar destinos pega com o bico no crivo letal. No coração harmônico e afônico, que nem o melhor exame médico faz surgir, a poesia se faz fria e tardia a debulhar prosa e pressa em ser gratidão ao amor que se esvai ao desvanecer.
 
(Com o eterno e terno Luiz Melodia)

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