Por Ronaldo Faria
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Quando o cadê a gente não vê
sábado, 7 de fevereiro de 2026
A espirrar poemas e prosopopeias poéticas
Por Ronaldo Faria
Espirro soturno, em credo de quem um dia irá parar, oriundo das entranhas tamanhas e tacanhas que tentam gerir o tempo que resta em Terra. Esferas estrambólicas feito cólicas da Pachamama na sua vida a revoar.
Espirro catastrófico, homônimo do fim. Num soltar de vento em ventania sem cantoria atemporal, dessa que cada gota de chuva traz junto com o temporal. Metáfora de deixar o pulmão respirar em silêncio autoral.
Na luminosidade que a cidade agora dá, faróis tentam iluminar notas em mil bemóis. Nos atóis que ainda restam no mar, a quebrarem as ressacas do amanhã e depois, peixes e sereias brincam com Iemanjá sobre qual é o seu lugar. Na orla orgástica transbordando de prazeres e algozes do amor, casais transitam casualmente no calçadão. Nalguma fresta de janela presta em declarar realidade àquilo que a anuência da sobriedade dá, um olhar Na barraquinha de cachorro-quente o vira-lata caramelo baba de prazer.
No frio que as correntes marítimas trazem para o mar, onde até pinguins podem desaguar, um casal troca beijos que nem milênios próximos poderão decifrar. Assim, nas jusantes das marés, nos revés da vida que singra oceanos e lembranças anchas, um braço surge a navegar ao longe, translúcido e lúdico, a terminar e determinar a cena perene que flutua na lua encalacrada do céu. E assim, assintomática saudade que toda maldade traz, a vida se esvai na tormenta incrédula que nem a fécula mais comível sabe digerir.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Anuário planetário
Por Ronaldo Faria
-- E aí, janeiro? Foi bom pra Januário na seca da terra?
-- Cê tá de sacanagem... Claro que não. Não tenho como fazer chover por lá e nem sequer nas vidas secas. Sou janeiro, não São Pedro.
-- E você, fevereiro, deixou o frevo cair na ladeira?
-- Sabe que sim. Também, mesmo que eu não existisse o povo sairia para dançar de qualquer jeito. Como esperar o restante dos dias à frente se não houver um pouco de orgia?
-- Março, você então foi um marco, não?
-- Marco de quê? Só se for do narco. Eu fiz começar de verdade o ano sendo xingado por uma metade e execrado pela outra fatia. Acho que Deus só me criou para sofrer.
-- Mas, abril, esse foi de foder, não?
-- Com certeza, fui sim. Fui do caralho. Bom pra cacete, além da conta. Insuperável. Secular. Inesquecível. Inexequível. Tudo isso e mais um pouco, não fosse meu o dia primeiro.
-- Mas, junho, você arrasou quarteirão?
-- Quarteirão, florestas mil transformadas em gravetos de fogueiras, sanfonas e rodas que terminaram em final que se não dá saudade, dá dor na gente de ser gente.
-- Caralho, mas você, julho, tem que ter sido bom...
-- Pra quem? Só se for pra dizer que a segunda metade já está quase no fim do começo. Sempre ao avesso.
-- Caramba, vocês estão muito deprês. Mas tenho a certeza de que setembro está pra cima.
-- Troque o “i” pelo “o” da sua última palavra e eu estou respondido.
-- Mas, me salva outubro. Você esteve no modo turbo?
-- Acho que você andou fumando um do bom há mês mais ou menos uns meses. Mas larica de tanto tempo eu estou pra ver...
-- Novembro, posso te colocar em destaque? Que barulho foi esse?
-- Tua resposta: um traque...
-- Só me restou você, dezembro. Vê se não me fode geral.
(Silêncio total)
-- Dezembro, dezembro do cacete cadê você? Onde foi parar essa porra de mês? Alguém o viu? Não posso, como calendário, ficar de onze meses. Vocês querem me foder?
Sem resposta posta, o calendário tardiamente descobriu que nem tudo na vida é numeral. Visceral, o tempo escorre no fio tênue que separa o começo do fim. Na sala o prego que segura o tanto de papel rasgado enferruja com a goteira da chuva que brinca de lavar o que ainda restar. No lixo alguém viu o calendário de mês só faltando chorar.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Ao gênio de Irará
Por Ronaldo Faria
Só pra homenagear e desejar vida
mais do que longa, mais do que eterna, longeva além do tempo. Que a Mama Água mumifique sua música.
Para o sempre na eternidade que a maternidade desde a criação nos dá. Assim,
apelo ao apelo (leiam com entonações diferentes que essa língua maluca do
português nos dá) que qualquer santo diz ter e ser de que os quase 90 virem mais tantos e vários oitos em coitos com a criação que a loucura nos (lhe) dá. Hosana, Tom Zé...
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Chick Corea e Lionel Hamptom: encontro histórico
O disco se chama, mui propriamente, Chick Corea and Friends =Lionel Hamptom- e, além de ser um encontro especial entre gerações do jazz, registra um espírito de celebração e profundo respeito pela tradição. Gravado em 1978, mas lançado somente no fim dos anos 1980, o álbum reúne Corea à frente de um time de grandes músicos para homenagear Lionel Hampton, que ajudou a moldar a linguagem do jazz desde a era do swing.
Lionel Hampton não foi apenas um virtuose do vibrafone. Foi também um elo fundamental entre o jazz das big bands e a modernidade do bebop. Sua energia explosiva, senso rítmico contagiante e carisma como líder influenciaram músicos de diferentes épocas. Chick Corea, sempre atento à história do jazz, propõe neste disco uma releitura viva e atual dessa herança, evitando qualquer tom meramente reverencial ou museológico.
A formação reúne nomes de peso da cena jazzística norte-americana, músicos capazes de transitar com naturalidade entre o vocabulário clássico e a linguagem moderna. Essa combinação dá ao disco um caráter híbrido: ao mesmo tempo festivo, elegante e intelectualmente sofisticado.
Além de Corea e Hamptom (piano e vibrafone, respectivamente), o grupo foi formado também por Dave Holland, no contrabaixo, Jack DeJohnette na bateria, Hubert Laws na flauta e Woody Shaw no trompete.
Chick Corea atua como curador do projeto. Sem protagonismo excessivo, ele funciona como eixo de diálogo entre os solistas. Em vez de impor uma performance pessoal, Corea prefere abrir espaço para a interação coletiva, respeitando o espírito expansivo que sempre marcou a música de Lionel Hampton. O resultado é um som vibrante, com solos cheios de swing e arranjos que respiram espontaneidade.
O vibrafone ocupa papel central. Seu timbre metálico remete diretamente às grandes orquestras do jazz clássico, mas aqui ele está integrado a uma abordagem mais contemporânea, com harmonias sofisticadas e improvisações abertas. Essa convivência entre passado e presente é um dos grandes méritos do álbum.
O álbum também destaca o aspecto comunitário do jazz. A noção de “and Friends” não é decorativa: trata-se de músicos ouvindo uns aos outros, reagindo em tempo real e compartilhando a alegria do fazer musical. Essa sensação de camaradagem atravessa todas as faixas e aproxima o ouvinte da experiência de uma jam session de alto nível.
Tanto assim é que, no conjunto da obra de Chick Corea, este disco ocupa um lugar especial como um gesto de reconhecimento da obra e da importância de Lionel Hampton.
Assim, o disco se afirma como caloroso, capaz de agradar tanto aos amantes do jazz clássico quanto aos ouvintes interessados na leitura moderna dessa tradição. É uma celebração da memória, do swing e da amizade — valores centrais na história do jazz.
O repertório, todo com espaço para grandes improvisos, é composto de apenas cinco faixas, mas a menor tem quase 4 minutos e meio e a maior mais de dez minutos:
- Seabressze (Chick Corea)
- I Ain't Mad At You (Chick Corea e Lionel Hamptom)
- Moment's Notice (John Coltrane)
- Blues for Oliver (Lionel Hamptom)
- It Don't Mean a Thing If It Ain't Got That Swing (Duke Ellington e Irving Mills)
O CD pode ser encontrados nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=OnpsExv3hZA .
*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Devaneios do meio...
Por Ronaldo Faria
-- Claro que vale. Sem ela não existiria a criação.
O papo, diáspora da vida, segue na mesa regada de copos que descem gargantas a dentro. E segue em insolvências vestais, carências letais, saudades mortais. Rompe métricas e rimas, se absorve de sordidez ou amores límpidos, desses que a gente ama até o fim da vida. E não importa se a amada não abrirá a porta, se a vida estiver ávida e torta ou o prenúncio da coisa finda irá vingar. Nos goles que parecem gaitas de foles a contar passado e presente, a cantar presságios e hediondos clamores, o importante é singrar mares e voltar aos portos rotos e impróprios que cada amanhecer nos dá.
-- Uma boa noite a todos nós, sem nós futuros no destino.
-- Coisa bonita. Pensou agora?
-- Rolou João Bosco e o Bêbado e o Equilibrista. Afinal somos isso mesmo...
-- Aí sim, com certeza. Sobremaneira.
No invólucro envolto da cena, que podia ser em Londres ou Barbacena, a pena do escritor se derrama para o alvorecer em que ele nem devia se meter. No imbróglio que vidas se espremem e viram tragédias, comédias ou roteiros para tangos, o tempo temporiza entre a orgia e a coriza. Gosto de incenso indiano na boca, sem saber se engolir masala dá barato, vão os dois em ambos num só a seguir na loucura que a transitória rima dá.
-- Cacete, precisava segurar o incenso na boca pra fechar a caixa?
-- Não, mas não me peça lucidez na fluidez da criação. Se der merda, deu. Logo, oremos a Deus...
O som agora traz Chico Buarque como baluarte daquilo que pode vir a rolar. Na singularidade do lugar, um louco se põe a declamar. Para o mundo, o tempo está apenas, sob a pena, a declinar. O momento, fugaz, traz ao nada a solidão do lugar. E eis que em decúbito o súbito espera a incerteza da ilusão chegar. Nesse quadro, o súdito do destino dorme em desatino na esperança da felicidade poder cantar.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Entre um gole e outro
Por Ronaldo Faria
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Izzy Gordon homenageia Dolores Duran
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Em Olinda e histórias mil
Por Ronaldo Faria
-- Na verdade, minha poesia só existe porque música há. Se ela não existisse, tudo seria um chiste ao luar.
Ladeiras brejeiras, carcomidas de suores e goles atávicos e mágicos, inclusos num espaço de pedras que se desdobram para fazer o acalanto, cândido e calado, chegar. No caminho de aninhos e descaminhos, a preguiça de subir metros desafetos. Mas, no alto, lato para aqueles que amam o vocabulário, o ver e enxergar de quadriláteros em quadrantes retos e oblíquos à vida que abrange passado, presente e futuro. E um sentar nas pedras seculares daqueles que se tornam história e histrionismo nos goles que descem gargantas em sorver desigual. Logo mais, no atroz fervilhar de toques e troças, dois corpos irão se encontrar e reencontrar na saciedade que nem a saudade sabe aplacar.
Ps.: Não consigo mais escrever “não” sem errar a caligrafia. Por que será?
Ladeiras em espreita de novos amores e dissabores, na sequência que a orgia do passado não traz. Nos corpos vermelhos de sol e solicitudes que só quem ama sabe dar, num viajar e ensejar intrínsecos e solares dos céus que trazem vida e doar, os dois se entregam sem tréguas ao frigir de ovos nos paralelepípedos que professam a volúpia do se deixar. E assim, como simulacro do amor em torpor, seguirão em lânguido entregar certos de que aqui ou em algum lugar seus corpos se farão um só. No subir de metros vários, desvario de querer apenas dormir e poder sonhar. Do alto, Olinda viceja Recife, casarios centenários e o mar.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Os Cariocas
Por Ronaldo Faria
A música se faz parte do aparte entre a lucidez e a loucura bêbada que chega em mansidão no canto efêmero do luar que habita recôndito lugar do que chamam coração. E brinca de brincar feito criança que crê, ancha, que futuro há. Se traveste de felicidade e, na inequidade que faz parte da vida, vira sequência sem idade. E baila num salão escuro e obscuro, desses que só o amor sabe iluminar. Depois, a pedir gim, batatas fritas e guardanapos novos, trompas de falópios serão mero lugar. Em desejos e ensejos, praguejo e beijos onde as línguas são centro e limiar, o casal se acasala feito mandala descrita e proscrita por uma fada. A foda fica no seu depois pra depois. Na imensidão que a mansidão traz e traduz há uma luz etérea e perdida nalgum canto do universo que se debulha em verso feito sabugo de milho que torra na fogueira da paixão. E assim, por fim, no fim que tudo tem, resta a certeza de que, presta, a lua adormecerá solene ao sol que desperta no além.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Bossa Nova e Jazz
Por Ronaldo Faria
Nas águas turvas da lagoa em questão, rolam o tesão e promessas em desvão. Na excitação do momento, tormento demasiado e vão, há o beijo benfazejo, o tocar de mãos desvairadas e trocadas em carícias e sevícias mil. Há ainda os olhares transversos e ternos, eternos naquela hora finda, performance romântica que beira o Atlântico Sul. Acima, no céu em frenesi, a lua cheia permeia as pernas que se tocam com os pés num frigir de óvulos nunca fecundados. “Mais uma dose de cada?” – pergunta o garçom na busca de mais 10%. “Sim, claro”, responde o homem e menino na certeza que a incerteza do amor dá. No relógio que marca horas em segundos, fecundos dissabores traduzem dores futuras. Da cozinha vem um cheiro de frituras. Dos lábios da amada convergem odores de desejo que se esquecem que um dia serão dores. Na solidão que converge ao redor, pouco resta nas carícias que, feito mantra, sorvem o último gole de paixão. Nalgum lugar, o destino esconde seu dilacerante dissabor.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Prosopopeia de esquinas e quinas
De terno branco, manco, o indigente indigno com a sua vida passa na avenida que percorre a lua acima como resto de breu. Entre um passo torpe e torto e outro na mira para não rolar ladeira abaixo, segue a ver o pouco que a vista ainda descobre em vultos vetustos e inverossímeis. Não sabe, decerto, o que ainda é certo. Mas continua na sua reta cheia de perpendiculares e chegadas ovais. Para piorar, logo terá de subir um morro. Ao ver a cena, a beata se benze e pensa na máxima de que Deus protege crianças e ébrios.
No tédio da realidade, na chegança de santos e seres fugazes, desses que a gente crê que existe só por crer, meia dúzia na metade de doze homens vestidos de branco fazem uma entrega a Exu Caveira. Em gamelas e pratos de barro, frangos mortos, farofas fartas e velas que brilham no escuro profícuo e profundo eles professam a fé que muda o curso do mundo. Em cânticos que vêm de outros cantos além de um mar de emaranhados desgarrados em galés e golfadas, emanam das manhãs que virão à esperança do porvir. Ao redor, uma nota evocada em dó termina o ritual.
Um ônibus em correria para cumprir o horário derradeiro, como se tivesse chegado atrasado num enterro, segue a passar por semáforos e faróis que piscam verde e vermelho. Nele, a faxineira que largou o emprego faz poucas horas, o estudante metafórico, o vigilante atrasado para trampar e o velho gagá que nem sabe em que ponto descerá. Na direção, o motorista que está com o salário atrasado e cheio de contas pra pagar. “Culpa do salafrário do dono da empresa”. Se dependesse dele, melhor seria o veículo bater em perda total. Mas logo mais tem Marina para encontrar na cama e beijar. “Melhor não”. O sinal toca e desce o velho desmemoriado e sobe mais um notívago que, notadamente, esqueceu que o tempo não consegue parar.
Assim, na prosopopeia de esquinas e quinas, feito epopeia de crisântemos que surgem no meio do asfalto na seca esturricada da cidade calada, a Terra faz um novo giro total. Saber-se-á se para o depois ou no tributo do agora. Mas, tanto faz. No piano de um bar rola jazz. Aliás, esse texto sem pretexto anterior, talvez fosse apenas e tão somente para cantar o amor. Mas surgiram personagens e sagazes saudades, efemérides fugazes, convescotes vorazes. Tudo num imbróglio que vira e mexe bole na embolada de notas e rimas que a voz de Leny Andrade traz a soar. Longe, o mar se debulha em lágrimas feito gotas de ondas a desmanchar.
domingo, 18 de janeiro de 2026
Leila Pinheiro e Eduardo Gudin iluminando a MPB*
Eduardo Gudin é um desses compositores que não abrem mão de botar o samba em tudo que criam e com um detalhe luxuoso: sempre tem qualidade, seja sozinho ou com um de seus inúmeros e ótimos parceiros. Sua trajetória (hoje ele está com 75 anos) não tem altos e baixos. Se não é um compositor de grandes sucessos, tem permanecido à frente de sua música, fazendo shows e lotando teatros. E continua sendo respeitado por todos aqueles que fazem música e que gostam de música bem-feita.
O encontro entre Leila Pinheiro e Eduardo Gudin no disco "Pra Iluminar" é, por consequência, um daqueles acontecimentos raros da música popular brasileira que dispensam excessos e apostam na essência.
Lançado como um trabalho que encontrou os dois em plena maturidade, em 2007, o álbum - gravado ao vivo no Teatro Fecap em São Paulo - reuniu duas trajetórias sólidas que se cruzam em nome da canção bem escrita, da interpretação precisa e de uma estética que valoriza o silêncio, a nuance e a emoção contida. Mais do que um simples disco de cantora e compositor, "Pra Iluminar" se afirma como um exercício de respeito absoluto à música.
Eduardo Gudin está na parada desde os anos 1970, pertencendo a uma espécie de segunda safra preciosa da MPPB, logo após os festivais que alavancaram a carreira de tanta gente boa.
Compositor de melodias sofisticadas e harmonias refinadas, sempre teve na parceria com letristas como Paulo César Pinheiro um de seus maiores trunfos. Sua obra carrega influências do samba, da música urbana paulistana e de um lirismo que foge do lugar-comum. Já Leila Pinheiro construiu uma carreira marcada pela elegância interpretativa, pelo domínio técnico e pela capacidade rara de dar nova vida a repertórios consagrados, transitando com naturalidade entre o samba, a MPB e a canção romântica.
Em "Pra Iluminar", Leila se coloca a serviço das composições de Gudin com a mesma e qualificada entrega que resultou na homenagem aos 30 anos da bossa nova. Sua voz é simples, sem artifícios, limpa, precisa, explorando dinâmicas sutis e respeitando a arquitetura melódica das canções. Não há aqui espaço para exageros interpretativos: cada palavra é dita no tempo exato, cada frase musical respira com naturalidade, reforçando a força poética das letras.
Os arranjos seguem a mesma linha de sobriedade. Predominam o violão, o piano e intervenções discretas de outros instrumentos, sempre a favor da canção, destacando o diálogo entre voz e harmonia, permitindo que as composições se revelem em sua plenitude. Detalhe: o disco foge dos modismos e se ancora numa tradição da MPB que valoriza mais a qualidade que fica que a urgência do mercado que desparece no ano seguinte.
A bela capa do CD, com um folheto muito bem feito, guarda uma surpresa: ao tirar o CD do encaixe, atrás do plástico, há dois textos, ambos falando de Leila. Um é assinado pelo próprio Gudin e, entre outros elogios diz que conheceu Leila no Festival dos Festivais da TV Globo: "Cesar Camargo Mariano, o diretor musical chamou a mim e a Costa Neto para conhecermos a intérprete que defenderia nossa música "Verde", se concordássemos. Colocou uma gravação de "Noturna", de Guinga e Paulo César Pinheiro, canção difícil de cantar. Fiquei absolutamente encantado com a voz que vinha da gravação e tomava conta da sala. Assim conheci o canto de Leila Pinheiro. Perguntei ao Cesar: 'E ela canta samba?' - Aí é com ela mesmo, sabe tudo!'.
O outro exto é assinado por ninguém menos que Guinga: "Leila: você cantou essa música como a mulher que dá o telefone escrito com baton num guardanapo de papel pois esse era o único meio. Sou amigo e parceiro dessa rapaz franzino e de olhos tão azuis: foi assim que o conheci há 40 anos. Hoje ele usa uma barba de sal e pimenta, ou melhor, de garoa e fumaça. A vida nos colocou sempre muito próximos e íntimos, sendo Leila um elo fortíssimo por ser a principal intérprete das nossas músicas. O farol já vai abrir e apenas uma estrela veio hoje pra invadir, enfim PRA ILUMINAR!!! Gudin, leva ela em casa!!!"
Por essas e outras, ouvir hoje esse disco traz a mesma sensação de conforto e alegria que ele espalhou no seu lançamento. São sambas que dizem muito do universo brasileiro em geral e paulistano em particular.
E para completar, Leila Pinheiro canta como quem conversa, e Gudin compõe como quem observa o mundo com lucidez e sensibilidade. O resultado é um álbum que convida à escuta atenta, recompensando o ouvinte disposto a desacelerar.
As músicas do show e do disco são as seguintes:
"Pra Iluminar" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto)
"O Amor E Eu" (Eduardo Gudin)
"Chorei" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin)
"Mente" (Paulo Vanzolini e Eduardo Gudin)
"Ainda Mais" (Paulinho da Viola e Eduardo Gudin)
"Sempre Se Pode Sonhar" (Paulinho da Viola e Eduardo Gudin)
"Luzes Da Mesma Luz" (Eduardo Gudin e Sérgio Natureza)
"O Amor Veio Me Visitar" (Eduardo Gudin e Roberto Riberti)
"Obrigado" (Eduardo Gudin)
"Paulista" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto)
"Praça 14 Bis" (Eduardo Gudin)
"Mordaça" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin)
"Verde" (Eduardo Gudin e José Carlos Costa Netto)
"Neo-Brasil" (Eduardo Gudin)
"Boa Maré" (Paulo César Pinheiro e Eduardo Gudin)
"Vida Dá" (Eduardo Gudin)
"Velho Ateu" (Eduardo Gudin e Roberto Riberti)
O CD está à venda nos bons sites do ramo a um preço um tanto salgado, mas vale a pena. E pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=rvVOyZdtREI&list=PLrt7VbxNS8rd66UyF_TpEYmeBbGqzYhWx .
*A pesquisa para este artigo teve auxílio da IA do ChatGPT
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Sem demora
Por Ronaldo Faria
Arnaldo Antunes rola no Xbox: “A casa é sua, porque não chega logo.”
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Parafuso difuso
O amigo da madrugada
Por Edmilson Siqueira Quem gosta de samba do bom, já deve ter ouvido falar de Adelzon Alves. Trata-se de um radialista que teve um program...
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