terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Prosopopeia de esquinas e quinas

 Por Ronaldo Faria



Peripécia famélica no ranger de dentes, entrementes as luzes perdidas nas esquinas que se dispersam com o passar dos carros que nem sabem se em algum lugar vão chegar. Nos esgotos soturnos e escondidos sob o asfalto negro de piche, um e outro rato rastejam e praguejam o mundo de fora. “Logo a madrugada fará tudo parar”, pensa um deles à espera dos latões de lixo que ficaram abertos na escuridão que se impregna.
De terno branco, manco, o indigente indigno com a sua vida passa na avenida que percorre a lua acima como resto de breu. Entre um passo torpe e torto e outro na mira para não rolar ladeira abaixo, segue a ver o pouco que a vista ainda descobre em vultos vetustos e inverossímeis. Não sabe, decerto, o que ainda é certo. Mas continua na sua reta cheia de perpendiculares e chegadas ovais. Para piorar, logo terá de subir um morro. Ao ver a cena, a beata se benze e pensa na máxima de que Deus protege crianças e ébrios.
No tédio da realidade, na chegança de santos e seres fugazes, desses que a gente crê que existe só por crer, meia dúzia na metade de doze homens vestidos de branco fazem uma entrega a Exu Caveira. Em gamelas e pratos de barro, frangos mortos, farofas fartas e velas que brilham no escuro profícuo e profundo eles professam a fé que muda o curso do mundo. Em cânticos que vêm de outros cantos além de um mar de emaranhados desgarrados em galés e golfadas, emanam das manhãs que virão à esperança do porvir. Ao redor, uma nota evocada em dó termina o ritual.
Um ônibus em correria para cumprir o horário derradeiro, como se tivesse chegado atrasado num enterro, segue a passar por semáforos e faróis que piscam verde e vermelho. Nele, a faxineira que largou o emprego faz poucas horas, o estudante metafórico, o vigilante atrasado para trampar e o velho gagá que nem sabe em que ponto descerá. Na direção, o motorista que está com o salário atrasado e cheio de contas pra pagar. “Culpa do salafrário do dono da empresa”. Se dependesse dele, melhor seria o veículo bater em perda total. Mas logo mais tem Marina para encontrar na cama e beijar. “Melhor não”. O sinal toca e desce o velho desmemoriado e sobe mais um notívago que, notadamente, esqueceu que o tempo não consegue parar.
Assim, na prosopopeia de esquinas e quinas, feito epopeia de crisântemos que surgem no meio do asfalto na seca esturricada da cidade calada, a Terra faz um novo giro total. Saber-se-á se para o depois ou no tributo do agora. Mas, tanto faz. No piano de um bar rola jazz. Aliás, esse texto sem pretexto anterior, talvez fosse apenas e tão somente para cantar o amor. Mas surgiram personagens e sagazes saudades, efemérides fugazes, convescotes vorazes. Tudo num imbróglio que vira e mexe bole na embolada de notas e rimas que a voz de Leny Andrade traz a soar. Longe, o mar se debulha em lágrimas feito gotas de ondas a desmanchar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...