Por Ronaldo Faria
Arnaldo Antunes rola no Xbox: “A casa é sua, porque não chega logo.”
Maria sonha com o passado, revive
o presente, espera o futuro noutro lugar só seu entre o cheiro de shopping e
pastel num distrito qualquer. Ela, mulher, filha de Iemanjá, com olhos de
caramelo, desses que outros olhos quaisquer querem olhar e se entregar, era a
vida que nascia e partia a cada dia para brincar de amor e orgia. Com as pernas
para a mão do amor amargo ou de afagos tocar e pegar, dirige a recordar cada
canto de encanto que o som da brisa traz. “A nossa casa é onde a gente está.”
Linda, com sorriso que ri de
tudo como o tempo fosse o intermédio entre o raiar e escurecer, viaja entre
areias que recebem das ondas as carícias do mar e um rio que se joga com cores
mil a se doar em resplandecer. Assim, em casarios coloridos, mosquiteiros
cheios de trançados e luminosidade de sol que se desdobra para a janela
adentrar, caminha nas ruas de pequenos cristais brancos a brilharem entre as
sombras de coqueirais. Num gole e noutro, uma reza se espraia no outeiro que
dorme na praça calada. “A nossa casa é em todo o lugar.”
Na noite que se brinda de
beijos e tocar impregnado de aninhos e amor, o lugar prefere o coaxar de rãs e
talvez um ou outro ovo a trincar no ninho que habita a árvore defronte. Nas estrelas
que se espalham e estraçalham o negror da madrugada, uma ou outra cadente
decide se jogar na Terra para ver o casal que se mistura e se envolve e se faz um
só. Na solidão inócua e iníqua que ronda o que não rola do lado de fora, o
aforismo diz que é hora de parar o mundo. "Chega de tanto girar e passar," pensa.
No estanque que enche de saliva qualquer copo antes cheio de qualquer coisa que
encha a cabeça, a vida perpetua que ela é somente mulher, nua de nada descrer. “Se
assim quiser, quando quiser.” E por fim, consternado, saciado de amor, o relógio do tempo decide
quebrar no segundo próximo e se entrega à trégua que a luta contra a saudade
traz. No ar, a poesia traz a paz.
“Se a gente não sabe se ama
Se a gente não sabe se quer
Não vai saciar essa chama
Se não decifrar o que é
Se algo entre nós se insinua
E doce tontura nos traz
O que delicia tortura
E não dá descanso nem paz
É que o amor não se dissolve assim
Sem dor
Se não for
Até o fim
Se a gente não sabe se ama
E não se decide que quer
A dúvida não desinflama
Enquanto a gente não se der
Se algo entre nós se insinua
E não se disfarça sequer
Não dá pra deixar pra outro dia
De outra semana qualquer
É que o amor não se dissolve assim
Sem dor
Se não for
Até o fim”
(Até o fim – Arnaldo Antunes)

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