quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Bossa Nova e Jazz

Por Ronaldo Faria

 

As bocas boquiabertas diante do erro do português em aramaico frugal se pedem e se despedem em sofreguidão, se despem de amores e versejam nas notas que emergem do piano no bar. Trocam línguas, trincam dentes e jogam sementes para quem souber catar flores perdidas a meia-luz. Respiram o cheiro que voa e revoa na brisa que vem da lagoa em homenagem a um Rodrigo que era deveras Freitas. Feito vela que veleja mundo afora, no balançar de marés e galés sem porto para atracar, os dois agora entremeados de velas que queimam a trazer um cenário quaternário e real são promessas de versos e dias futuros. Soturnos, os emaranhados tragados de gim com tônica e cuba libre se esmeram no sabor de pizzas com mostarda e ketchup.
Nas águas turvas da lagoa em questão, rolam o tesão e promessas em desvão. Na excitação do momento, tormento demasiado e vão, há o beijo benfazejo, o tocar de mãos desvairadas e trocadas em carícias e sevícias mil. Há ainda os olhares transversos e ternos, eternos naquela hora finda, performance romântica que beira o Atlântico Sul. Acima, no céu em frenesi, a lua cheia permeia as pernas que se tocam com os pés num frigir de óvulos nunca fecundados. “Mais uma dose de cada?” – pergunta o garçom na busca de mais 10%. “Sim, claro”, responde o homem e menino na certeza que a incerteza do amor dá. No relógio que marca horas em segundos, fecundos dissabores traduzem dores futuras. Da cozinha vem um cheiro de frituras. Dos lábios da amada convergem odores de desejo que se esquecem que um dia serão dores. Na solidão que converge ao redor, pouco resta nas carícias que, feito mantra, sorvem o último gole de paixão. Nalgum lugar, o destino esconde seu dilacerante dissabor.

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