terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Izzy Gordon homenageia Dolores Duran

Por Edmilson Siqueira


Izzy Gordon gravou seu primeiro CD "Aos Mestres com Carinho" aos 42 anos, mas se dedicava à música desde os 21, quando, depois de estudar piano, resolveu ingressar de vez na carreira. 
Incentivos não lhe faltaram. Nem conhecimento. Filha do músico caribenho Dave Gordon e sobrinha de Dolores Duran, Izzy Gordon sempre teve interesse por música, e durante a infância via passar por sua casa grandes nomes da MPB como Jair Rodrigues, Tim Maia, César Camargo Mariano, Rita Lee, Wilson Simonal, Cassiano e muitos outros, que de repente apareciam em sua casa com seu pai, para conversas e jam sessions no piano que ela estudava. 
A carreira mesmo começa tímida, dando canjas em casas noturnas onde seu pai trabalhava. Mas confirmou seu talento como cantora no musical: “Emoções Baratas”, do diretor José Possi Neto. Com o musical viajou para Curitiba e Porto Alegre. Ainda com José Possi, fez o show da entrega do prêmio Sharp para o Teatro Brasileiro, ao lado de Beatriz Segal e Eva Wilma. Ou seja, já era uma cantora consagrada antes mesmo de gravar um disco. Isso porque, durante muitos anos recusou convites para gravar, pois a obra oferecida não ia ao encontro às suas convicções musicais.  
Izzy é cantora de timbre inconfundível, formação sólida e trajetória construída com rigor artístico. Canta samba e jazz com a mesma desenvoltura.  
"Aos Mestres com Carinho", com repertório cuidadosamente escolhido, não é apenas uma coleção de canções consagradas: é um ensaio musical sobre memória, herança cultural e identidade. Cada faixa funciona como uma carta aberta endereçada àqueles que moldaram o vocabulário do jazz e do samba e, por extensão, a todos que mantêm essa tradição viva. 
Mas foi no jazz, segundo suas biografias nas redes, que Izzy construiu sua moldura musical. Ela sempre demonstrou interesse especial pelo jazz vocal, dialogando com a tradição norte-americana sem abrir mão de sua identidade brasileira. Essa dupla filiação — o jazz como linguagem universal e o Brasil como território sensível — aparece de maneira clara em seus trabalhos, seja na escolha do repertório, seja na forma de interpretação. Izzy canta jazz com sotaque próprio, sem imitações reconhecíveis, mas também sem descaracterizar o gênero. 
O disco, embora seja oferecido aos "mestres", é, na verdade, uma homenagem explícita à tia Dolores Duran. Das 13 faixas, 12 são de Dolores, a maioria como letrista, mas quatro delas são só de Dolores.  
As parcerias de Dolores são de qualidade inquestionável, como Carlinhos Lyra e Tom Jobim. O disco todo tem ótimos arranjos, mas por uma falha incrível da produção, o autor dos arranjos não está registrado no encarte. E nem nas reportagens todas que pesquisei na internet. Há, na ficha técnica, dois nomes na "produção musical": Samuel Fraga e Erik Escobar. O primeiro é pianista e o segundo baterista. Talvez sejam deles os arranjos.  
A primeira faixa é "O Negócio É Amar" (Dolores Duran e Carlinhos Lyra), que fez sucesso na voz de Lyra é praticamente um clássico da bossa nova. É uma das primeiras músicas brasileira a usar um palavrão ('porrada') sem que a censura proibisse.  
A segunda faixa é "O Que É Que Eu Faço" (Dolores Duran e Ribamar). Nela, as qualidades vocais jazzísticas de Izzy já ficam evidente. O acompanhamento, sempre muito bom, já se desvia um pouco do samba tradicional para que a melodia, na voz de Izzy, possa passear um pouco mais livre. O solo de guitarra evidencia a tendência.  


O clássico "Estrada do Sol" (Dolores Duram e Tom Jobim) aparece na terceira faixa com um arranjo inusitado. E bonito. Sem sair da qualidade melódica do mestre Jobim, Izzy passeia pela letra de Dolores com desenvoltura e com a delicadeza que a canção merece. Uma das melhores faixa do disco.  
Na quinta faixa está outro clássico da bossa nova: "Tome Continha de Você" (Dolores Duran e Edson Borges). Aqui o arranjo é simples e a música soa como nos tempos em que foi gravada por vários cantores e cantoras nos anos 1960 e 70.  
Outra parceria com Edson Borges é a quinta faixa "Olhe o Tempo Passando". Novamente o arranjo jazzístico faz moldura para a bela melodia. Izzym com a qualidade de sempre, canta com tranquilidade dando à música a sonoridade perfeita. 
"Se É por Falta de Adeus" (Dolores Dura e Tom Jobim) popularizou de tal forma o ditado popular, que ele acabou sendo incorporado em muitas outras canções da MPB. Izzy acha o tom certo para esse verdadeiro bilhete azul de um caso de amor. 
Uma música só de Dolores Duran - "Castigo" - é a sétima faixa. Outro clássico, com muitas gravações anteriores e um dos maiores sucessos da compositora. Aqui, o arranjo moderno destoa das gravações anteriores que a música ganhou. Mas a "modernidade" não subverte a genialidade da canção, onde letra e música combinam de forma extraordinária. Outra grande intepretação de Izzy.  
"Não Me Culpe", também só de Dolores, preenche a oitava faixa do disco. Uma das obras menos conhecida da compositora, recebe interpretação correta de Izzy, num arranjo simples com quarteto de piano elétrico, guitarra, contrabaixo e bateria.  
Izzy escolheu a nona faixa para gravar o maior sucesso de sua tia Dolores Duran: "A Noite do Meu Bem". A música mais famosa da compositora, que, aliás, foi título também do magnífico livro de Ruy Castro que "biografou" o gênero samba-canção no Brasil. O arranjo da faixa dá à música um ritmo um pouco mais rápido, tirando dela um pouco da dramaticidade original, mas acrescentando-lhe um tom moderno e otimista.  
Outra parceria de Dolores com Ribamar - "Pela Rua" - é a décima faixa. Música também pouco conhecida do repertório de Dolores, é uma canção triste. Não sei como foi feita a parceria, mas tem todo jeito de um poema de Dolores musicado por Ribamar. A melodia serpenteia naturalmente pelo poema, acompanhada apenas de um violão.  
A décima-primeira faixa do disco traz a parceria com Jobim e o resultado foi outro clássico: "Por Causa de Você". Mais um samba-canção que ganha ares modernos no acompanhamento do piano elétrico de Erick Escobar e da guitarra de Fernando Baeta. 
"Noite de Paz" (Dolores Duran) encerra a homenagem a Dolores. É uma espécie de prece para a vida atribulada da compositora que, viciada no álcool e em barbitúricos e com muitas frustrações amorosas, acabou sofrendo um ataque cardíaco enquanto dormia.  
Por fim, uma faixa-bônus no CD, que foge da homenagem a Dolores em desembarca num clássico do jazz norte-americano. "My Funny Valentine", dando oportunidade a que conheçamos a parceria vocal de Izzy com seu irmão Tony Gordon, um excelente cantor. A música, como outras do disco, ganhou arranjo moderno o que a diferencia de muitas gravações lentas e pungentes. E ficou muito bonito.  
O disco, excelente em todos os seus aspectos, pode ser comprado por aí nos bons sites do ramo. Não encontrei a íntegra no Spotify nem no Youtube. 

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