Por Ronaldo Faria
Na rinha de galos que disputam em
bicadas a vida ou a panela como canja, Josenildo aposta errado e perde os
últimos reais que tinha conseguido num bico de ajudante de pedreiro. “Puta que pariu! Como eu pude ver nesse
despenado o galo da sorte?” Sai bravo do lugar, a chutar sofá velho descartado
na beira do córrego assoreado e pede para o seu santo de cabeça que lhe dê
melhor sorte da próxima vez. Segue na rua meio sem rumo. Sem prumo, sua vida
era inconstante trilha suicida. O silêncio seria total se não fosse um
ronco de cuíca. “Já que estou mesmo na merda, vamos lá.”
No terreiro que se abria sob a
mangueira cheia de flores, a roda de samba rolava entre mistérios da noite depois
do dia cinzento. Como unguento, uma garrafa de pinga que pingava de copo em copo
para limpar as gargantas no cantar. Entre tamborins, pandeiros e ganzá, cavaquinho,
caixas de fósforos e rimas soltas a noite se madrugava. “E aí, posso chegar?” A pergunta de Josenildo, feita com tanta vontade, tem resposta pronta: “Claro,
aqui qualquer um é sempre bem chegado.” Foi o que bastou para ele se juntar ao
grupo, se aboletar debaixo da laje mais próxima e deixar o tempo passar. “Amanhã
eu consigo outra obra pra trabalhar. Meu Ogum não vai me abandonar.”
Logo abaixo a cidade borbulha de cervejas,
champanhes e uísques abertos de bar em bar. De copos em copos e cálices, risos
e cartões que creditam ao amanhã a ressaca de logo mais darão o tom. Ali não tem
espaço para perfume da Avon. Permínio, perpétuo desafeto da vida desde que foi
gerado em feto, chama o garçom e pede outra gelada até fazer gelo no corpo. “Manda
que eu pago e ainda dou os dez por cento sem chorar.” Na sua mesa, cheia de
donos de Porsche, Ferrari e Lamborghini, com suas amadas de Prada e Fendi, a noite
parecia conto de fadas a anteciparem boas fodas. “Decidi que não aplico mais na
Bolsa. O negócio é mesmo criptomoedas.”
Na calçada,
flanelinhas disputam o espaço pelas gorjetas que virão. No vão entre destinos e
realidades, casuais e discrepantes verídicas verdades, vidas escorrem e se entornam
na chuva fria e fina que decide cair. “Que bosta, logo amanhã que estava pensando em
ir para o Guarujá.” A execrar os meteorologistas que não sabem prever nem o
próximo minuto, Permínio pensa em comprar seu próprio satélite para antecipar
os fins de semana. “Agora vou pagar o piloto do helicóptero sem precisar. Podia
ter dado folga para aquele bosta.” Ao longe, uma sirene de Patamo rompe a quietude
que as línguas simplificam em beijos e silêncios do depois.
Na roda de samba em
que Josenildo joga seus dramas para o alto, a hora é de recolher instrumentos,
chorar resto de lamentos e pedir pra acordar como der pro batente que logo vai
chegar. No bar em que Permínio fecha a conta com cartão internacional pago em euro,
salamaleques e fricotes das damas que não podem sujar os sapatos de salto alto de tanzanite, a hora também chegou. No meio
de tudo, entre periferias e jardins, o mundo respira e transpira histórias
histriônicas e lendas catatônicas. Do alto, em algum percalço daqueles que
acreditam em santidades, o Criador (seja ele qual for) diz que no mundo há
equidade. A quem quiser, descrente ou a favor, faça-se a própria verdade.
(Ao som de João Bosco)

Nenhum comentário:
Postar um comentário