Por Ronaldo Faria
-- E aí, Seu Ângelo, como vai
a Dona Elisinha?
-- Indo, indo. Encruada na
rede ou na cama. Não consegue nem mais levantar. Só carregada agora. Mas, como
jurei diante do padre, na alegria e na doença eu tenho que estar.
-- Tem razão. Palavra dada ao
nosso Deus tem que ser cumprida.
-- Certamente, mesmo que a dor
de um lado seja comprida.
-- É, mas a vida é assim:
complicada.
-- Feito estrada de mão única nunca duplicada.
Um rápido aperto de mão e os
amigos que há muito dobraram cabos de boas esperanças e anos se despedem. Belarmino,
conhecido como Belisário Menino, desce a rua em direção ao curtume. Ângelo
segue o rumo da sua vida sempre no prumo, depois da casa de costumes onde uma mais
nova, com o corpo à prova, dá um tchau ao avô imaginário. Ele dá outro até logo
de longe, desses que a gente retribui por educação ou encanto às damas de
branco.
-- Quem dera o passado ressurgisse feito quebranto. Ou
que pudéssemos reviver a vida feito o pássaro que vai e volta ao velho ninho
onde foi chocado, longe das árvores e do prado.
Na rua um poste pisca com a
lâmpada fraca que implora por queimar. Os olhos e ouvidos de Ângelo, porém, estão
distantes até do Angelus que as beatas cantam em oráculos sagrados. Sua cabeça
viaja trôpega e frágil pelo sacrário do sagrado. Recai no pecado final de
saber que o doce tem seu gosto de amargo. E tudo volta nas lembranças anchas e transversas
que os versos trovaram em cartas amareladas. No céu, trovoadas gritam que a
chuva logo vai chegar. No fim da vila, relâmpago troncho e brilhante traceja
a escuridão. À espera da felicidade extinta, Ângelo abre a porta do lar e sorri
por ter enganado o temporal. Do quarto, Dona Elisinha, num instante de lucidez,
diz baixinho que o amor é fruto de muita dor. Uma lágrima escorre no rosto do
homem. Pingos e mais pingos e outros tantos vindos do céu deixam no barulho das telhas a
sinfonia derradeira do lugar...
(Com Almir Sater)
