Por Ronaldo Faria
O aguaceiro despenca feito
banana madura em penca no sol. A cair de nuvens carregadas de água, lava até os
descarregos que os santos de esquina esqueceram de levar. E lava carros,
asfaltos, telhas, corpos desavisados, roupas no varal, árvores despetaladas,
beiras de rios e solidões. Refaz nuances de cores que o sol esqueceu de trazer
e traga de prazer o trago que as bocas em taças de vinho embriagam o momento em
desalento.
O aguaceiro, faceiro a São
Pedro, escorre nos poucos bueiros que as folhas mortas não entupiram. Constipado,
um velho já não lembra sequer se o prego ao relento está molhado ou ao vento. A
paisagem cinza e encoberta de nuvens só parece clara entre as cobertas que envolvem
João e Maria. Aos dois, na mais doidivanas realidade, o que respinga na janela
é só procela. Qualquer mistério que possa existir se extingue a voar.
O aguaceiro que parece
aquarela de pintor daltônico, atônito em não saber diferenciar mar de mata ou luar,
acende lamparinas nas raras estrelas que resolvem furar o dilema do porvir.
Entre ir e vir, visionários ressonam nos ônibus que jogam águas das poças em
transeuntes perplexos com a falta do guarda-chuva salvador e estão a sonhar
com o tanto que a chuva logo mais irá desaguar no mar. Talvez, mais tarde surja um efêmero luar.
Mas, abruptamente, como descer
da cortina no teatro do tempo, o aguaceiro se faz quase unguento da vida. Precavida,
porém, Dona Hemengarda desce pelas escadas dos onze andares do prédio. “Chega de
ficar presa no elevador”, diz a si mesma. Na rua, onde as luzes rebrilham poças
como pisca-pisca de Natal, já há até quem tente correr de uma marquise a outra,
nos 50 metros dignos de recordes. Do alto, altaneiro e com seu dever cumprido, São
Pedro resolve ir dormir, não sem antes clamar ao anjo aspone que o segue: “Fecha
essa bosta de torneira. Deus está puto com a conta d’água”. Logo abaixo o povo
agradece ao meteorologista que previu chuvas finas no período. Lavada, a vida ressurge do nada.
(Com Arthur Verocai)
