quinta-feira, 5 de março de 2026

Nas ervas benvindas e benfazejas

Por Ronaldo Faria


A chuva miúda amiúde traz flamboyants vermelhos a juntarem o casal que viaja em ervas mil onde o senhor mais senil pensaria estar numa terra de céu de brigadeiro em azul sempre anil. Ao redor, a dó da dor dolorida e insensível que faz da separação previsível a imprevisível orgia de um Carnaval fora de época na epopeia do viver. Os copos a subir e descer entre as mãos e gargantas, todas e tantas delas anchas, surgem e urgem no solilóquio utópico de trançar pernas, beijar sem poder, amar sem redescobrir, fazer e ter.
A chuva em tempestade passageira, ligeira e que se esgueira entre carros raros e rarefeitos tropeços, faz esquecer o calor e o torpor que a vida dá. Mortos-vivos convergem nos versos dispersos que voam pelo ar. Vivem em devaneios e fazem da prosa uma pétala de rosa a desabrochar debochando da feiura que a ternura dá. Infinda ou finda não detalha ou entalha em pedaços de tronco que deixaram de ser árvore para apenas ser. A arvorar a felicidade de segundos fecundos, os minutos onde pouco há que durar e sequer chegar. À frente, o mar.
A chuva que apela aos céus que a prolixa orgia um dia ressurja em véus descortinados e atávicos se faz rolar nos ralos e esgotos que as ruas desdobram em jusantes para o mar e o rio que se encontram em tântricas melodias nalgum lugar. Ao meio de tudo, feito o mudo desejar que talvez morra sem ao menos falar e gritar, a ausência da premência que a finitude faz calar. Assim, taciturno e macambuzio, o planeta irá girar volátil e tátil nos poucos toques e retoques que cada poema faz de um simples fonema a saudade da morte no drama sem tema.
 
(Com Toquinho)

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