segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Santos na chuva

 Por Ronaldo Faria


Os santos se entreolham durante a chuva mansa que cai fora da pequena capela perdida na estradinha de terra que ri de felicidade e louvor por ser alisada nas gotas que água. Os santos e santas, além até de um santinho menino e outro flechado e morto, também riem de tudo. Mas, na verdade, gostariam é de sair correndo dos altares para brincar de prosa e deixar seus corpos estáticos se banharem do líquido que cai do céu, lugar onde são sagrados e de todos ouvem amém.
Mas a vida não é o que desejam os santos esculpidos e feitos pela mão de um cristão qualquer, seja esse homem ou mulher. Quietos, veem os corpos surgirem em suas cores e vestimentas. Recebem terços, crucifixos, companhia de outrem que nunca viram antes da criação. Por fim, seguem aos templos que o tempo fez. Senão, acabarão num canto de sala ou quarto onde um familiar ou outro famélico de desejos mil pedirá novo dia a renascer. Crentes de sua missão, serão apenas santa ou santo. Nada mais.
Todavia, a chuva que cai mansa e perene fora do telhado que escorre em barulhos do gotejar não para. E desce pelas folhas que ainda vivem nos galhos secos. Dá seu preço à felicidade dos bezerros que mugem a brincar de beber das poças onde surgem feridas benditas do sertão. Até um pássaro abre suas asas para receber os soluços que a natureza derruba das nuvens negras. Talvez em algum casebre dois corpos recebam com carícias plenas o chegar da esperança de se plantar. Repleta em si, sonhando de aguaceiro virar, a vida crê que pode em si reviver naquilo que há de ser ou será.
 
(A ouvir Paulo Matricó)

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