domingo, 15 de março de 2026

Coltrane para amantes

Por Edmilson Siqueira


  

Eu já citei esse disco pelo menos duas vezes aqui no blog ao comentar outros discos de John Coltrane. Mas hoje resolvi escrever sobre ele.  
"Coltrane For Lovers", esse o nome original, custou 10 pounds and 99 pence (ou "pi", como dizem os ingleses) e estava em oferta na Tower Records, uma enorme loja de discos que visitei em Londres, na única vez que estive por lá, em 2001. A loja era um sonho para qualquer amante de música: 4 andares só de CDs, divididos por todos os gêneros. No andar de Jazz, onde fiquei como barata tonta, havia um espaço bem grande só pra Bossa Nova e uma estante inteirinha só pra Milton Nascimento. Tinha 50 libras para gastar, acabei gastando 90. 
Todos os verbos em relação à Tower estão no passado porque a loja (que era norte-americana) - não existe mais.  Ou melhor, existe mas só como loja virtual e uma loja em Tóquio, independente do grupo que faliu em 2006, devido à concorrência da internet e mudanças no mercado musical. A rede encerrou 46 anos de operação. Em 2006, a marca retornou como uma loja online, focando em vinis e itens de colecionador. 
Bom, mas o que interessa aqui é John Coltrane tocando suavemente seu sax para enebriar amantes. E é isso mesmo. São onze baladas lindíssimas, algumas delas emolduradas pela voz perfeita de Johnny Hartman, o único cantor que Coltrane admitia "acompanhar" - ele achava que música deveria ser só tocada, jamais cantada, mas abria uma exceção para o também genial Johnny Hartman.  
O disco é, na verdade, uma coletânea que revela um lado mais lírico, introspectivo e emocional de Coltrane, ele que é mais conhecido por fazer uma música mais intensa com explorações revolucionárias. O álbum reúne gravações que destacam a sensibilidade melódica de Coltrane, especialmente em baladas e temas românticos, mostrando que sua arte não se limitava apenas à complexidade técnica ou à busca transcendental, mas também à expressão profunda do sentimento humano. 
Coltrane for Lovers permite ao ouvinte perceber a delicadeza de seu fraseado quando aplicado a standards românticos e composições de andamento mais lento. O acompanhamento do piano de McCoy Tyner, aliado à base segura de Jimmy Garrison no contrabaixo e Elvin Jones na bateria, cria uma atmosfera envolvente e sofisticada. 
A primeira faixa é um dos muitos clássicos que se espalham pelo disco: "My One and Only Love" (Guy Wood e Robert Mellin), grava em março de 1963, é daquelas músicas que te pegam nas primeiras notas. E depois melhora ainda mais quando Johnny Hartman introduz seu vozeirão suave. Para ouvir sonhando e amando. 



"To Young to Go Steady" (Harold Adamson e Jimy McHugh, a segunda faixa segue a mesma linha da primeira e mantém o ambiente estonteante. Gravada em setembro de 1962, a música, com sax, piano, bateria e contrabaixo, todos tocados delicadamente, aparece constantemente nas programações das rádios de jazz do mundo todo, 64 anos depois de lançada.  
A terceira faixa é outro clássico: "In a Sentimental Mood" (Duke Ellington), com o próprio autor ao piano. A gravação também virou um clássico e serve de tema de abertura a a centenas de programas de jazz por aí. A gravação é histórica e mostra o respeito mútuo entre dois gigantes do jazz. A elegância do piano de Ellington dialoga perfeitamente com o saxofone tenor de Coltrane, resultando em uma interpretação que se tornou referência na execução de baladas jazzísticas.  
Na quarta faixa temos "It's Easy to Remember (Richard Rodgers e Lorebz Hart). Nela, o contrabaixista Reggie Workman substitui Garrison. Grava em dezembro de 1961, é talvez a faixa mais curta do disco, mas nem por isso deixa de cativar com sua suave melodia. 
A quinta faixa, "Dedicated to You" (Sammy Cahn, Saud Chaplin e Hy Zaret) se abre com a voz de Johnny Hartman e, log em seguida, prossegue com o sax de Coltrane, complementando de forma perfeita o dueto. 
Mais um clássico, gravado por muita gente, aparece na sexta faixa: "Yoiu Don't Know What Love Is" (Gen DePaul e Don Raye). Gravado também em dezembro de 1962, a faixa contém alguns experimentos da bateria e do baixo que contornam o sax de Coltrane, criando um ambiente de expectativas, até se assentar na bela melodia. 
"After the Rain, a primeira música de autoria do John Coltrane é a sétima faixa. E, no clima do disco, a melodia, gravada em abril de 1963, é lenta e romântica também. 
Duke Ellington volta ao piano na oitava faixa para participar de My Little Brown Book (Billy Strayhorn), gravada em setembro de 1962, tendo Aaaron Bell no baixo e Sam Woodyard na bateria. 
A nona faixa é "Soul Eyes" (Mal Waldon), gravada em Junho de 1962. Com o time básico, a melodia mantém o clima sonhador, terminando com belos toques ao piano de Tyner. 
"They Say It's Wonderful" *(Irving Berlin) é mais um clássico do jazz que desliza pela décima faixa. E a voz de Johnny Hartman volta aqui para embelezar mais ainda a canção de Berlin. 
Por fim, "Nancy (With the Lauging Face), de Jimmy Van Heusen e Phil Sivers, encerra o tempo romântico que o conjunto do disco sugere. Acho que poucos discos no mundo cumpriram tão bem o prometido no título: "Coltrane For Lovers" é realmente um disco para quem está amando. 
O disco está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=gw6rZIWQgBY&list=OLAK5uy_nQ5OjKnUYcwR16mTpU1x1nRlf809lMVAI&index=2 .

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