terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

O exílio dos Stones*

Por Edmilson Siqueira


O disco tem mais de meio século, mais precisamente 54 anos, mas dá pra dizer que ele não perdeu nada de sua vitalidade. Quando os Stones se "exilaram" na Main Street, o resultado foi um vigoroso disco, tão vigoroso que hoje pode ser ouvido por um público jovem que, se gosta de rock, vai agradar em cheio.  
Eu me lembro mais ou menos de ouvi-lo, lá nos anos 1070, na casa de um amigo (só fui comprar mesmo o disco muitos anos depois). Eram "sessões" num toca-discos Sonata, mono, obviamente, mas que cumpria razoavelmente bem a missão, separando mais ou menos os graves e agudos da parafernália de sons produzidos pelo grupo.  
O "exílio" do nome não era apenas retórico. No início daquela década os Stones estavam pressionados pelos altos impostos, que podiam chegar a 80% de altos rendimentos, e a banda inteira se mandou para o sul da França, especialmente para a Côte d'Azur. Keith Richards alugou a famosa Villa Nellcôte, em Villefranche-sur-Mer, que se tornaria o centro informal das gravações. 
O resultado daquele "exílio" foi mais que um disco de rock: hoje "Exile On Main St." ocupa um lugar singular na história do rock. Gravado em condições pouco convencionais, marcado por excessos e liberdade criativa radical, o disco, que no vinil da época era duplo, tornou-se, ao longo das décadas, um dos álbuns de rock mais celebrados do século XX. Mais do que uma coleção de canções, trata-se de um documento sonoro de uma banda no auge artístico, experimentando os limites entre o caos e a genialidade. 
O período coincidiu com transformações internas na banda. Mick Taylor, que substituíra Brian Jones em 1969, já estava plenamente integrado. Jones foi "saído" do grupo por suas instabilidades e morreu logo em seguida, afogado, na piscina de sua casa, em circunstâncias que até hoje não foram totalmente esclarecidas.  Charlie Watts mantinha a solidez rítmica característica, enquanto Bill Wyman contribuía com linhas de baixo econômicas e precisas. À frente, Mick Jagger dividia a liderança criativa com Richards, naquele equilíbrio tenso e produtivo que sempre permeou as relações artísticas e pessoais dos dois. 
  

E o disco anterior dos Stones havia sido "Stick Fingers", cuja capa, com um zíper de verdade abrindo uma calça jeans, ficou famosíssima e hoje é vendido por aí a preços elevados. Claro que era um grande disco também, mas o exílio na rua principal o superou tranquilamente, pois em vez de buscar um refinamento natural após o amadurecimento perceptível no disco anterior, a banda mergulhou na crueza do rhythm and blues, do gospel, do country, do boogie-woogie e do rock’n’roll primitivo. 
Grande parte do material foi registrada no porão úmido da Villa Nellcôte, utilizando a unidade móvel de gravação da banda. O ambiente era caótico: fios espalhados, calor sufocante, horários irregulares, músicos entrando e saindo a qualquer momento. O produtor Jimmy Miller, peça-chave nos trabalhos anteriores, participou das sessões, embora sua influência tenha sido menor do que em discos como Beggars Banquet e Let It Bleed. 
As gravações noturnas eram frequentes, em parte devido ao estilo de vida de Richards naquele período, marcado pelo uso intenso de heroína. Ainda assim, o resultado final não soa desleixado: a “bagunça” é organizada por uma intuição coletiva impressionante. 
Posteriormente, vocais e overdubs foram finalizados em Los Angeles, onde Jagger assumiu maior controle da pós-produção. Esse contraste entre o porão francês e os estúdios californianos contribuiu para a textura do álbum. 
Quase todas a músicas são oficialmente de autoria da dupla Jagger e Richards. As exceções estão assinadas após os títulos nas linhas seguinte. 
O disco abre com “Rocks Off”, um turbilhão de guitarras e sopros. A música estabelece o tom: energia crua, groove irresistível e uma certa sensação de descontrole calculado. Em seguida, “Rip This Joint” acelera ainda mais, remetendo ao rockabilly frenético dos anos 1950. 
Mas Exile não é apenas explosão. “Tumbling Dice”, talvez a faixa mais conhecida do álbum, mistura swing, gospel e ambiguidade lírica. Os backing vocals femininos — com destaque para Clydie King e outras cantoras convidadas — ampliam a dimensão da canção. 
O álbum revela o profundo mergulho dos Rolling Stones na tradição musical norte-americana. Desde o início da carreira, a banda britânica cultivava admiração por artistas como Muddy Waters e Robert Johnson. Em Exile, essa influência fica explicita. 
“Shake Your Hips” ((James Moore e Slim Harpo) é uma homenagem direta ao blues de Slim Harpo. “Stop Breaking Down” revisita Robert Johnson com intensidade elétrica. Já “Let It Loose” aproxima-se do gospel, com arranjos emocionais e vocais expansivos. 


Essa diversidade não soa artificial. Ao contrário, demonstra como os Stones absorveram e reinterpretaram essas tradições, filtrando-as por sua própria identidade. 
Faixas como “Sweet Virginia” e “Torn and Frayed” incorporam elementos de country, com violões acústicos e atmosfera quase campestre. A abordagem relaxada mostra o quanto a banda transitava entre estilos com naturalidade. 
“Happy”, cantada por Keith Richards, é outro destaque. Gravada quase por acaso, com Richards assumindo os vocais principais, a música tornou-se um dos momentos mais celebrados do disco. Seu riff contagiante e o clima descontraído contrastam com a densidade de outras faixas. 
Já “Casino Boogie” e “Ventilator Blues” (Jagger, Richard e Taylo)  aprofundam a textura suja e urbana, reforçando o que poderia ser chamado de "caráter experimental" do projeto. 
Embora frequentemente associado a excessos, Exile on Main St. contém momentos de introspecção. “Shine a Light”, originalmente iniciada em sessões anteriores, transforma-se numa espécie de oração rock, com piano marcante e clima solene. 
“Let It Loose” também sugere redenção e fragilidade emocional. Esses momentos oferecem equilíbrio à agressividade predominante. 
A arte do álbum, concebida pelo fotógrafo Robert Frank, utiliza colagens de imagens em preto e branco que remetem a freak shows, artistas de circo e figuras marginais. O conceito visual dialoga com o título, "Exílio na Rua Principal”.  
No lançamento, a recepção foi mista. Alguns críticos consideraram o álbum confuso e excessivamente longo. Outros perceberam imediatamente sua força inovadora. Com o passar do tempo, o consenso crítico mudou drasticamente. 
Hoje, Exile on Main St. figura em listas de “maiores álbuns de todos os tempos”, frequentemente ao lado de obras como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles e Highway 61 Revisited de Bob Dylan. A reavaliação consolidou sua reputação como obra-prima. 
O disco influenciou gerações de músicos. Bandas de rock alternativo, artistas de americana e grupos de garage rock citam "Exile" como referência estética. Além disso, o álbum cristalizou a imagem dos Rolling Stones como a antítese rebelde dos Beatles: enquanto estes representavam experimentação psicodélica sofisticada, os Stones encarnavam o blues elétrico e a sujeira urbana. 
O disco (tanto o CD quanto o LP duplo) está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Youtube em https://www.youtube.com/watch?v=w5HP2Xcy_eQ&list=PL1PFeUii2egfXG5XH-gg0UW62RAccqdSg&index=1 
*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

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