sábado, 7 de março de 2026

Na rua

Por Ronaldo Faria


A rua taciturna e ainda diurna, complexa para o amplexo similar entre a dor e o torpor, abre caminhos e esquinas, todos em sina simbiótica sob a ótica do bêbado que margeia as paredes crispadas de chapiscos e fazem corpos sangrar. A rua, enluarada vista por cima e escura sob os olhos dos que a olham debaixo, faz-se faceta e retreta desmesurada ou largada. Estivesse em Lisboa, seria um fado. Estivesse aqui e agora seria uma foda. Mas nesse momento é apenas crua rua, encalacrada nos cimentos e concretos da cidade azulada por neons que brilham dos prédios afora E tudo vira rotina e pseudo rima para o poeta chorar bem de mansinho, sem ninguém saber por quê.
Na cidade caleidoscópica e utópica, entre o pecado e a hóstia, a cidade se faz tragédia e tramoia, colóquio e ópio dos poetas tristonhos ou bisonhos. Na realidade arcaica e tragicômica, atônita em redescobrir seu inicio e fim, o desterro que antepõe o enterro do corpo em vida e o anacrônico padecer. Nos faróis, destemperados de poder chegar e ir, ir e chegar, vidas transitam e enxergam em polígrafos ágrafos e gramaticais, bestiais ou fatais. Num momento ou outro, trôpegos, os vestais que se dizem amantes e tardios, voam na vida como sibilantes ventos. Em tormentos e tormentas, nas ventas de qualquer nariz que queira cheirar o ar, faz-se parcimônia na amônia do despertar.
No estado que tem camas cheias de molas ortopédicas e estrados de madeira barata a dividirem quase o mesmo espaço, vivem o esperto, o normal e o cabaço. No silêncio de sirenes estridentes, perseguidos a pedir clemência antes dos disparos, os filhos do nada jogam escarros e catarros que se atiraram ao chão. No incrédulo verbo de tentar saber escrever e subscrever o que ainda há de se ver, o velório do invólucro que alguns chamam de corpo. No vendaval que surge antes de qualquer Carnaval, o aval para que o sol não vire pó. Afinal, no final de tudo, soturno e a cumprir seu turno de lucidez, o homem faz do tempo presente o amor ausente que sorri quando apenas se quer chorar.
 
(Ao som de Edu Lobo, a devorar a sua poesia como fosse um corvo)

Na rua

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