sexta-feira, 3 de março de 2023

Ao João Bosco

 Por Ronaldo Faria


 Página branca, pintada de luzes e branco, feito neve que vem sobre o olhar esbranquiçado do tempo deletério e etéreo. Coisa de tocaias no meio da avenida escura e toques inertes de doçura e verve. De laje com as suas lajotas a derrearem a dor da separação. De onde se vê a vida que já foi, a que é e aquela que não virá. Alvissaras a quem assim quiser ou puder. Que viajam nos céus que enegrecem e clareiam a cada girar de uma bola azul no infinito. Talvez um invés que foge pelas mãos e percorre longínquas esquinas onde sinas e sonhos se enternecem de tanto beber e acreditar que a lucidez um dia chegará.

Página com algumas letras estapafúrdias que brotam sem saber porque e nem sequer se ali deviam estar. Mas, estão. Fixas, claras, negras, deitadas sobre o fundo branco e sob os dedos do poeta que nunca foi. Como um corpo estirado no estrado a fazer amor, entre orgia e dor. Do alto, santos mil, negros e pretos, cheios de força e luz, jogam pétalas de flores vermelhas e molhadas de gozo e ilusão. Senão, quem sabe a inócua incerteza que a vela que agora veleja traz benfazeja a paz. Coisa de corpo e alma, tragédia disseminada e livre só por ser. Brinquedo de cores que buscam o inexistente e perplexo mar.

Página completa, transversa e musical, dicotômica e atônita apenas por sê-la e ser. Algo próprio e perverso no verso que vai e vem num vaivém. E notas trocam o traste do violão para vestir de prazer e gozo que cada velho e cada moço se joga às vísceras abertas da vida para apenas viver sem sangrar. Mas há amor sem sangue e sofrer? No desvanecer da hora que dorme entremeada de lua e escuridão, as pedras no asfalto rebrilham no chão. E vem e vão os minúsculos lábios que se tornam abertos para o impossível que existe no real. E chega o fim, o derradeiro fingir e o saber que a solidão estará sempre aqui.

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