terça-feira, 23 de setembro de 2025

Renato Braz e Roberto Leão: dois sotaques na canção brasileira *

Por Edmilson Siqueira



O disco "Mar Aberto", parceria entre o cantor Renato Braz e o violonista Roberto Leão, é um desses trabalhos que surgem como um sopro de frescor e sensibilidade dentro da música brasileira contemporânea. Lançado no início dos anos 2000, o álbum sintetiza duas trajetórias que se cruzam em torno de um repertório sofisticado, no qual tradição e modernidade convivem tranquilamente.  
Ao unir a voz límpida de Braz ao toque delicado e preciso de Leão, o disco conquista pelo equilíbrio entre simplicidade e refinamento. O resultado é uma experiência musical marcante. 
Renato Braz já é reconhecido como um dos grandes intérpretes da nova geração da música brasileira. Dono de um timbre suave, de uma emissão clara e de uma técnica a serviço da emoção, ele se destacou pela habilidade de construir leituras de clássicos e contemporâneos sem recorrer a exageros ou firulas. Sua voz passeia entre o popular e o erudito, aproximando-se do canto camerístico, mas sem perder o calor da tradição da canção.  
Roberto Leão, por sua vez, é cantor português de trajetória sólida que se entrega às canções com a mesma seriedade de Renato, formando uma parceria que, diferente nos sotaques, se encontram na emoção da palavra cantada.  
A música "Mar Aberto" (Breno Ruiz e Cristina Saraiva), que dá título ao disco, traduz bem o espírito do disco abrindo horizontes sonoros que serão explorados por ambos.  
O repertório escolhido passeia por diferentes tempos e estilos da canção brasileira. Estão presentes compositores de diferentes gerações, evidenciando a preocupação em criar uma ponte entre o passado e o presente. Da riqueza melódica de Dorival Caymmi à modernidade de Edu Lobo e Dori Caymmi, passando por parceiros mais recentes, o disco reflete a pluralidade da música brasileira que, sem parecer contraditório, não soa dispersa: é justamente a unidade estética entre as vozes que confere coerência ao conjunto. 
Um detalhe interessante, que aprofunda a proximidade entre artista e ouvinte é que Renato Braz e Roberto Leão optaram por reduzir a formação ao essencial: voz, violão e piano de modo que ficam aparentes a força e a beleza musical. Cada acorde, cada frase vocal, cada silêncio ganha relevo. A ausência de excessos torna-se uma virtude, permitindo que a canção se apresente em estado quase puro. 
Outro aspecto que merece destaque é a dimensão poética do repertório. As letras escolhidas falam de amor, de mar, de tempo, de memória. São temas caros à canção brasileira, mas tratados com a delicadeza que marca a obra de Braz e Leão. O ouvinte é convidado a se deixar levar por imagens que evocam a natureza, o cotidiano, a saudade e o afeto. O mar, em particular, aparece não apenas no título, mas como metáfora recorrente ao longo do disco, associando-se à ideia de travessia, de vastidão e de profundidade. 


A economia de recursos confere ao álbum uma atmosfera quase camerística, que o diferencia das grandes produções e o aproxima do universo da música de câmara popular. Essa estética intimista encontra eco em trabalhos de artistas como Dori Caymmi, Mônica Salmaso e Guinga, todos herdeiros de uma linhagem que valoriza a sofisticação melódica e a delicadeza da interpretação. 
Outro aspecto que pode chamar a atenção do ouvinte mais atento, trata-se de um trabalho que exige tempo e silêncio para ser apreciado. E o ouvinte que se dispuser a embarcar nessa viagem sonora será recompensado com um repertório que se revela aos poucos, como camadas de significado que emergem a cada nova audição. 
É isso ái: em tempos de pressa e ruído, "Mar Aberto" se oferece como um convite ao recolhimento e à contemplação. Mais do que um disco, é uma experiência sensorial, um mar no qual vale a pena se lançar, sem medo do horizonte infinito. 
São as seguintes as nove faixas no disco: 
- Canção de Embalar (José Afonso) 
- Elogio (Mario Gil) 
- Milagres (Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro) 
- Francisca Santos das Flores (Dorival Caymmi) 
- Saveiros (Dori Caymmi e Nelson Motta) 
= No Coração das Procelas (Dori Caymmi e Paulo Frederico) 
- Nevoeiro (Mario Gil e Breno Ruiz) 
- Marinheiro do Mar (Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro) 
- Mar Aberto (Breno Ruiz e Cristina Saraiva) 
O CD pode ser adquirido nos bons sites do ramo. Não encontrei o disco inteiro no Youtube, mas há um show "Mar Aberto" com o elenco todo gravado em Portugal, com imagens em https://www.youtube.com/watch?v=P0m6I2t-VJA

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

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