segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Tempo errado no errôneo tempo

 Por Ronaldo Faria


Nos olhos que se interrompem e irrompem no final da tarde, um restante de pássaros ainda tenta voar. Daqui a pouco a briga será por um lugar nos galhos sem folhas e flores do final de inverno. Do asfalto, abaixo das árvores, sentado num banco de praça, o senhor decrépito e modesto ainda segura o saco de milho moído que alimentou andorinhas arengueiras e pintassilgos fortuitos e famintos. Para sua sorte, nenhum nunca lhe cagou a cabeça. “Os passarinhos reconhecem quem os ama”, repete a todos transeuntes que passam ligeiro para pegar o metrô.
-- E ela, como está?
-- Sei lá. Se eu não me faço presente, viro um ausente vítreo. Sumo no sumo do limão da caipirinha...
Cântaros de saudades nos cânticos antigos rolam ladeira abaixo nas lágrimas a correrem dos olhos. Na rua, escura e brilhante sob a lua, mãos se entrelaçam entre largos abraços. Nos olhares, tardios e velozes, sombras de pernas. Ao redor, luzes em matizes mil. No ar, cheiro de jasmim. No capim molhado da chuva que brotou das nuvens a cobrirem o vento de pingos pequenos, formigas cortam folhas para comerem mais tarde. O tempo se esvazia em pocilgas escondidas no destino. Nele, há corações partidos e um adeus cretino.
-- Quer dizer que é assim: via de mão única?
-- Acho que sempre foi. Eu é que não enxergava além de nós...
Aos poucos, espocam estrelas brancas e sânscritas. A cidade em grande parte já dorme insone. Mas um ou outro louco ainda percorre o lugar. Moradores de rua se acotovelam e se roçam em poucos e rotos cobertores para escapar do frio. Brisa serpenteia esquinas e brechas de concreto para fazer o mundo parar. Casais cantarolam o último refrão já embriagados e chapados. Quem não for dormir e amar na mesma cama irá descerrar os panos da trama envolta no drama da solidão. Sem pernas cruzadas, lábios colados, suores trocados. Em soluços, alguns buscarão soluções em diásporas e fugas finais. Outros traçarão monocórdicas poesias bêbadas de unções do tempo errado no errôneo tempo.
-- E o que fazer, diante de tudo dito e redito, escrito e crível?
-- Nada a fazer. Agora é apenas e somente esperar. Mesmo que tal espera seja um fel agridoce. 

(A ouvir PC Silva)

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