quarta-feira, 2 de julho de 2025

À noite

 Por Ronaldo Faria

 

A noite cai redundantemente noturna, taciturna e escondida no alto do céu. E traz faróis, mulheres entregues aos seus perfumes e amores, homens redescobertos nas esquinas na busca de corpos e cópulas, beijos maculados em sonhos acordados. Deitado no sofá a tudo enxergar, Adauto relembra a boca de Solange, hoje só e longe. Ri feito criança com a vida ancha e entregue ao irreal. Lá fora o resto de cores reverbera no inverno que afugenta amantes em abraços rápidos no despedir.
Ao frigir dos ovos na panela que espalha respingos pelo fogão, entregue à própria solidão, Adauto desautoriza a tristeza de desfazer as malas e deitar ao seu lado. No som da vitrola rola um fado. Fetiche de si mesmo, a esmo, toma outro gole de saudade e se entrega ao vagar das divagações que fogem do passado para lhe remoer o presente. Ausente na presença do silêncio, assimétrico nas rimas toscas, bebe a noite que se avizinha. No apartamento defronte vê o despir das vestes da pudica vizinha.
Devagar, no vagar do espaço, a lua brinca de trazer novas marés envoltas em espumas e lúdicos amores. Vira serenata que José faz à Renata e o desejo de uivar àqueles que viram lobisomens. Na harmonia da frágil nostalgia, perpetua-se num pratear que pranteia os olhos da súbita amada. Do nada, traz a certeza de que logo mais irá brincar de esconder do outro lado da Terra. Num lapso astronômico talvez decida, quem sabe, não mais brilhar. Mas agora é somente amante do casal diante do mar.
Mas Adauto, sem sobressalto, como de assalto, nada muda. Deitado a sentenciar a cena no inútil relógio que toca em seus ponteiros a troca do tempo, somente quer ser alguma semente do amanhã. Poder despertar em sinfonia de pássaros cansados de amar e dar bom dia a qualquer um que cruzar pela vida. Sem catar pelo em ovo, forjar um cantar ao som do realejo benfazejo, virar surgir e lumiar. Agora, porém, de pés ao alto, ser apenas um corpo deitado e fadado a seu destino tardio esperar...
 
(Ao som do grande poeta das cordas Helio Delmiro)

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