Por Ronaldo Faria
A noite cai redundantemente
noturna, taciturna e escondida no alto do céu. E traz faróis, mulheres
entregues aos seus perfumes e amores, homens redescobertos nas esquinas na
busca de corpos e cópulas, beijos maculados em sonhos acordados. Deitado no
sofá a tudo enxergar, Adauto relembra a boca de Solange, hoje só e longe. Ri
feito criança com a vida ancha e entregue ao irreal. Lá fora o resto de cores
reverbera no inverno que afugenta amantes em abraços rápidos no despedir.
Ao frigir dos ovos na panela que
espalha respingos pelo fogão, entregue à própria solidão, Adauto desautoriza a tristeza
de desfazer as malas e deitar ao seu lado. No som da vitrola rola um fado. Fetiche
de si mesmo, a esmo, toma outro gole de saudade e se entrega ao vagar das
divagações que fogem do passado para lhe remoer o presente. Ausente na presença
do silêncio, assimétrico nas rimas toscas, bebe a noite que se avizinha. No
apartamento defronte vê o despir das vestes da pudica vizinha.
Devagar, no vagar do espaço, a
lua brinca de trazer novas marés envoltas em espumas e lúdicos amores. Vira
serenata que José faz à Renata e o desejo de uivar àqueles que viram lobisomens.
Na harmonia da frágil nostalgia, perpetua-se num pratear que pranteia os olhos
da súbita amada. Do nada, traz a certeza de que logo mais irá brincar de
esconder do outro lado da Terra. Num lapso astronômico talvez decida, quem
sabe, não mais brilhar. Mas agora é somente amante do casal diante do mar.
Mas Adauto, sem sobressalto,
como de assalto, nada muda. Deitado a sentenciar a cena no inútil relógio que
toca em seus ponteiros a troca do tempo, somente quer ser alguma semente do
amanhã. Poder despertar em sinfonia de pássaros cansados de amar e dar bom dia
a qualquer um que cruzar pela vida. Sem catar pelo em ovo, forjar um cantar ao
som do realejo benfazejo, virar surgir e lumiar. Agora, porém, de pés ao alto,
ser apenas um corpo deitado e fadado a seu destino tardio esperar...
(Ao som do grande poeta das cordas Helio Delmiro)

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