sábado, 23 de agosto de 2025

Dando o que tiver de sê-lo ou dá-lo

  Por Ronaldo Faria


-- Dar-te-á?
-- Dar-te-ei.
-- Deveras assim será?
-- Com a certeza do meu sim.
Ensandecidos, enlouquecidos pelo novo porvir, Benjamin e Consuelo trocam beijos e carícias sem fim. Encontraram-se há pouco mais de três dias, mas já trocavam juras e picardias. Nus, com suas peles a pelejarem descobertas em cada centímetro do quadrado corporal recém conquistado, emitiam palavras nas lavras que se espelhavam pelo quarto. No espelho de parede, quieto no seu canto, o encanto de anuviamento melancólico. Por sorte Consuelo não estava com cólicas. Eólicas, as emoções de ambos se espalham e se esvanecem nas preces de quem conhece a solidão.
-- Faremos tudo?
-- Como turbilhão?
-- Não, apenas como amantes.
-- Doravante, sim.
Suados, amassados feito lençol de cetim, cansados de tanto ir e voltar, descer e subir, penetrar e sair, Benjamin e Consuelo apenas se olham com juras de amor. Nas cortinas que descortinam a janela esquecida na praça da cidade que se desmancha em quirelas, o reflexo do sexo que se faz magia e procela. Escancarado no telhado, tendo de fundo um fado enfastiado, o resto de sol espera bater o cartão para o luar que deve ter se perdido no trânsito da constelação. No meio de tudo, taciturno, existe um imenso coração em solidão. Na amplitude de toda a atitude resta a tardia e decrépita ilusão.
 
(Ao som da Casa Ramil)

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