terça-feira, 16 de setembro de 2025

Entre crocodilos

Por Ronaldo Faria


-- Aí já é muita crocodilagem...
-- Será?
-- Claro que é. Se o cara é bom da boca, respeito. Se é meia boca, pau nele...
-- Mas isso não é a lógica da tal visão capitalista?
-- Com certeza.
-- Ou seja, é tudo um bando de filho da puta?
-- Certamente. Jairão, traz mais uma!
Fim de tarde. Carlos e Bernardo discutem as relações que existem pra lá do fim do mundo. E eles estavam apenas num subúrbio, que alguns chamam de periferia. Comunistas? Não. Apenas operários da vida, desses que pegam trem, ônibus apinhado de sardinhas na lata rodante, moradores de casa pequena, diminuta, abrupta no seu jogar entre uma rua sem terra e terra de ninguém. Dois a mais, sem muita estatística oficial para delimitar em que classe estariam. C, D, E ou algo assim? Falta um recenseador para lhes dar lugar digno nas planilhas oficiais.
-- E aí, saiu o aumento?
-- De trabalho?
-- Claro que não, caralho! De grana.
-- É óbvio que não. Você acha que o patrão é candidato a vereador ou benfeitor?
-- Sei lá. Não trampo lá.
-- Então eu te respondo: tudo na mesma. A merda continua igual.
Devagar uma ou outra lâmpada acende no derredor. Sem muita pressa ou dor. Na porta da casa rosa, que se mistura no verde das mangueiras cheias de frutos comidos pelos pássaros e meninos, Maria espera por Feliciano (outros personagens em cena). Esse, feliz da vida que logo voltará nos braços da amada dedicada e entregue aos delírios do juntar, vem no passo devagar. Quer ver cada olhar distante que Maria entrega ao vento silente que corre com sabor comida fervida para embriagar o mundo longe do mar.
-- E a Verinha? Ainda está com ela?
-- Melhor seria perguntar se ela ainda está comigo.
-- Como assim?
-- Tivemos um arranca-rabo feio, quase um entrevero. Nem sei se vale a pena voltar para casa.
-- Com certeza vale. Sempre vale.
-- Acho que vou ouvir o teu conselho, mas antes vai ter a saideira. Jairão, mais uma e a outra na faixa!
Devagar o bar vai enchendo de mais Carlos e Bernardos. Marias e Verinhas. Vai conquistando seu espaço de saudades tardias, reminiscências gerais, tristezas travestidas de bolhas que sobem no líquido amarelo e gelado que escorre no copo e desce gargantas que estão cansadas de tanto falar amém. Aos poucos, um ou outro negligencia o mundo torto que corre perto e pranteia de toques, beijos e abraços o regaço onde o toque faz tudo mudar. Mordaz, o tempo escreve nas suas linhas tortas e voláteis a sordidez entre a sanidade e a loucura. A tal linha tênue que tanto descreve e escreve o destino de cada um de nós. A sós, todos sabem que o agora é somente vida ilusória e rápida como o som de uma voz. No fim, só nos resta esperar.
-- Jairão, pendura a conta no cabide do Abreu!
 
(Em homenagem a este bar do Maranhão)

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