Por Ronaldo Faria
-- Aí já é muita crocodilagem...
-- Será?
-- Claro que é. Se o cara é
bom da boca, respeito. Se é meia boca, pau nele...
-- Mas isso não é a lógica da tal
visão capitalista?
-- Com certeza.
-- Ou seja, é tudo um bando de
filho da puta?
-- Certamente. Jairão, traz
mais uma!
Fim de tarde. Carlos e Bernardo
discutem as relações que existem pra lá do fim do mundo. E eles estavam apenas
num subúrbio, que alguns chamam de periferia. Comunistas? Não. Apenas operários
da vida, desses que pegam trem, ônibus apinhado de sardinhas na lata rodante, moradores
de casa pequena, diminuta, abrupta no seu jogar entre uma rua sem terra e terra
de ninguém. Dois a mais, sem muita estatística oficial para delimitar em que
classe estariam. C, D, E ou algo assim? Falta um recenseador para lhes dar lugar
digno nas planilhas oficiais.
-- E aí, saiu o aumento?
-- De trabalho?
-- Claro que não, caralho! De
grana.
-- É óbvio que não. Você acha
que o patrão é candidato a vereador ou benfeitor?
-- Sei lá. Não trampo lá.
-- Então eu te respondo: tudo
na mesma. A merda continua igual.
Devagar uma ou outra lâmpada
acende no derredor. Sem muita pressa ou dor. Na porta da casa rosa, que se
mistura no verde das mangueiras cheias de frutos comidos pelos pássaros e meninos,
Maria espera por Feliciano (outros personagens em cena). Esse, feliz da vida
que logo voltará nos braços da amada dedicada e entregue aos delírios do
juntar, vem no passo devagar. Quer ver cada olhar distante que Maria entrega ao
vento silente que corre com sabor comida fervida para embriagar o mundo longe
do mar.
-- E a Verinha? Ainda está com
ela?
-- Melhor seria perguntar se
ela ainda está comigo.
-- Como assim?
-- Tivemos um arranca-rabo feio,
quase um entrevero. Nem sei se vale a pena voltar para casa.
-- Com certeza vale. Sempre
vale.
-- Acho que vou ouvir o teu
conselho, mas antes vai ter a saideira. Jairão, mais uma e a outra na faixa!
Devagar o bar vai enchendo de
mais Carlos e Bernardos. Marias e Verinhas. Vai conquistando seu espaço de
saudades tardias, reminiscências gerais, tristezas travestidas de bolhas que
sobem no líquido amarelo e gelado que escorre no copo e desce gargantas que estão
cansadas de tanto falar amém. Aos poucos, um ou outro negligencia o mundo torto
que corre perto e pranteia de toques, beijos e abraços o regaço onde o toque
faz tudo mudar. Mordaz, o tempo escreve nas suas linhas tortas e voláteis a
sordidez entre a sanidade e a loucura. A tal linha tênue que tanto descreve e escreve
o destino de cada um de nós. A sós, todos sabem que o agora é somente vida
ilusória e rápida como o som de uma voz. No fim, só nos resta esperar.
-- Jairão, pendura a conta no
cabide do Abreu!
(Em homenagem a este bar do Maranhão)
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