Por Edmilson Siqueira
Entre as diversas parcerias que o jazz gerou ao longo do século XX, poucas conseguiram unir sofisticação, lirismo e inventividade de maneira tão natural quanto a de Paul Desmond e Gerry Mulligan. O álbum "Two of a Mind", gravado em junho de 1962, em Nova York, é um exemplo raro de diálogo musical entre dois gigantes do cool jazz, que dispensam piano, recorrem a arranjos enxutos e fazem da interação o verdadeiro centro da obra.
Gerry Mulligan, por sua vez, havia construído uma reputação sólida com seu sax barítono e também como arranjador e líder de grupos que desafiavam convenções, inclusive no formato sem piano que consagrou no famoso quarteto com Chet Baker nos anos 50. E participou, entre 1968 e 1972, do Dave Brubeck Quartet.
O conceito de "Two of a Mind" partia justamente do espírito de conversação. Não há aqui disputas de ego ou demonstrações de virtuosismo em excesso. Ou seja, o "duelo" que cito no título é, claro, em sentido figurado, pois Mulligan e Desmond se encontram no meio do caminho: o sax baixo aveludado, mas cheio de corpo, e o alto cristalino, quase vocal, entrelaçam-se como dois contadores da mesma história, mas sob perspectivas diferentes. A ausência de piano abre espaço para que a textura dos sopros ganhe ainda mais destaque. As linhas se completam, criam contrapontos e se sustentam sobre bases de baixo e bateria discretas, mas essenciais.
A faixa-título, “Two of a Mind” (Paul Desmond) que fecha o lado A do LP e que, no CD é a terceira faixa, já deixa claro o espírito do álbum. O tema é simples, mas sua execução se desdobra em improvisos que parecem compassos de uma conversa espirituosa. Dá a sensação de estar diante de um diálogo íntimo.
Esse clima também está presente em “All the Things You Are” (Jerome Kern e Oscar Hammerstein II) que é a música que abre o disco e é um dos standards mais revisitados da tradição jazzística. Mulligan e Desmond exploram a harmonia conhecida de forma criativa, reinventando o tema sem jamais perder a leveza.
A segunda música é o clássico "Stardust" (Hoagy Carmichael e Motchel Parish) que, com seus 8 minutos e 20 segundos, é a faixa mais longa do disco. Nela, o diálogo entre os dois saxofonistas se estende maneira harmoniosa, com os papéis de solista passeando entre os dois, acompanhados de uma bateria discreta e um contrabaixo esperto, carregado de ritmo e harmonia.
Outro destaque é “Blight of the Fumble Bee” (Gerry Mulligan), a quarta faixa. É uma peça espirituosa, cheia de humor, em que a destreza técnica aparece sempre a serviço da musicalidade, nunca como exibição gratuita.
Já em “The Way You Look Tonight” (Dorothy Fields e Jerome Ker), a quinta faixa, os dois saxofonistas exploram a melodia de Jerome Kern com elegância, valorizando o lirismo do tema e permitindo que o ouvinte perceba a profunda sintonia que compartilhavam.
As sessões que originaram Two of a Mind foram feitas com formações variadas, incluindo músicos como Jim Hall na guitarra, John Beal e Joe Benjamin no contrabaixo, além de bateristas como Connie Kay e Mel Lewis. Cada combinação trouxe uma nuance diferente ao som do disco, mas a identidade central permaneceu: o encontro entre o saxofone alto e o barítono, dois instrumentos contrastantes que aqui se mostram complementares.
Vale lembrar também que "Two of a Mind", o disco, também é herdeiro direto do cool jazz, movimento que teve Mulligan como um de seus principais arquitetos desde os anos 50. A estética da suavidade, do balanço contido e da clareza melódica encontram em Desmond um intérprete natural e se harmoniza harmoniza-se com a capacidade de Mulligan de explorar contrapontos e improvisos.
Lançado originalmente pela RCA Victor, o álbum recebeu elogios da crítica e tornou-se um clássico cultuado por apreciadores do jazz mais contemplativo e sofisticado.
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=LDjTc8GzstQ&list=PLvxWibFr0wiJmG_PfoH_rWJrssctL7MOL .


Nenhum comentário:
Postar um comentário