Por Ronaldo Faria
Jeremias estava atazanado com sua realidade. O senhorio não tinha tido a compaixão de esperar mais uns
dias. “Custava ter de aguentar até o fim do mês?” No furdúncio que a cabeça
traz quando falta água de cheiro para a sonhada amada ou dinheiro até pra pedir
nova pendura na venda do Agenor, ele sofre como bezerro que desmamou. “De que
adiantou tanta honestidade? Ser o funcionário do mês nas vendas de rádio de válvula.
Atrasa aqui e eu não posso postergar lá?”
-- Jeremias, tem cliente pra
comprar! Custa acordar?
A voz do gerente, puxa-saco e
lambe-bolas do dono, obriga que o pensar seja esquecido.
-- Pois não, senhor, quer um
último tipo que pegue até emissora do mundo afora ou basta a Rádio Nacional?
Venda completa (“o senhor
comprou um rádio pra virar o século”), deu a hora. Ponto batido, bonde no
horário, motorneiro que se conhece há tempos, ao menos há espaço no banco
pra sentar. Devagar, os trilhos trilham o itinerário num tempo que nada era
temerário e podia até na madrugada se caminhar. Talvez um batedor de carteira
se atrevesse a buscar bolso mais cheio ou guarda de quarteirão novo quisesse
saber quem era aquele senhor de terno de caxemira que chegava em tal hora no
lugar. Nada além.
-- Boa noite, Seu Jeremias.
Que o seu dia tenha sido bom. Mas tenho que dizer que o senhor Carvalho esteve
aqui e disse que só espera até depois de amanhã. Se o aluguel não for pago, ele
vai pedir o imóvel de volta.
-- Tudo bem, Tazinho. Deixe
tudo comigo.
O sono foi difícil de chegar.
O recado do porteiro foi tácito, curto e grosso. Alguma saída haveria de ter.
Quando a manhã raiou, ainda com olheiras no rosto, comeu o pão dormido de
um dia atrás, colocou o terno de sempre, se penteou e saiu a caminhar. O bonde
só pegaria se cansasse de andar. A cidade aos poucos acordava, admoestada de
ter de viver milhares de vidas em si. Nas ruas, acolhidas de pés ligeiros e
gente em constante lição na constelação da eternidade, corpos se cruzam num ir
e vir como ovos de frigideira ainda fossem frigir. E eis que numa esquina estava lá o
apontador da loteria popular.
-- E aí, Seu Jeremias, vai borboleta
ou cachorro na cabeça?
-- Tem chance de dar macaco?
Estou assim, pulando de galho em galho na incerteza de chegar nalgum lugar.
-- Se eu soubesse o bicho que daria na milhar, estaria morando em bairro grã-fino, não aqui nesse
pasmar. Mas, nunca se sabe. Quanto e em que bicho quer apostar?
Jeremias olha os bolsos quase
vazios e decide jogar o que tem. “Que se ferre o almoço. Se der o macaco, me
salvo.” A rotina do seu dia foi como se o tempo parasse de vez. O relógio
parecia não ajudar. “E a Federal, será que já saiu?” Meio trêmulo de fome,
subiu no bonde e pediu pela primeira vez na vida que pudesse pegar carona. “Fazer
o quê, Seu Jeremias, todo mundo tem seu dia de penúria. Sobe e senta” – disse o
motorneiro. “Vou descer antes, mas obrigado de coração.”
Desceu como prometido antes do normal. No canto onde o poste
postava o resultado a se ver, tinha dado macaco na cabeça, milhar cravada. Um
grito sai prosaico e redentor da sua garganta: “Seu Carvalho, vá chupar um
caralho!” Com a alma lavada e enxaguada, quarada ao luar, ele soube que sua
hora era chegada. No apartamento, abre a geladeira e se delicia do feijão de anteontem como fosse manjar. Bebe água como engolisse champanhe francês. Dorme a ressonar.
Quando o sol solicita espaço à lua para brilhar, passa no apontador que o cumprimenta:
“Seu Jeremias, deu macaco mesmo. Assim o senhor me quebra a banca!” Feliz a rir feito bobo, passa no
senhorio, paga até dois meses adiantados e ainda tem tempo de depositar no
Banco do Brasil o muito que restou. Agora, se chegar meia hora atrasado e o gerente reclamar, terá apenas um refrão: “Gastão, você já foi tomar no meio do seu cu? Então, vá!”
Demitido até poderia ser, mas com os direitos atrasados garantidos, sairá a cantar o samba que
diz que a Praça Onze vai acabar. Em volta, pendurada em galhos, a cidade brilha sem parar.
(Ainda com o Trio Macaíba)

Nenhum comentário:
Postar um comentário