segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Atrasou, atrasou...

Por Ronaldo Faria

 
Jeremias estava atazanado com sua realidade. O senhorio não tinha tido a compaixão de esperar mais uns dias. “Custava ter de aguentar até o fim do mês?” No furdúncio que a cabeça traz quando falta água de cheiro para a sonhada amada ou dinheiro até pra pedir nova pendura na venda do Agenor, ele sofre como bezerro que desmamou. “De que adiantou tanta honestidade? Ser o funcionário do mês nas vendas de rádio de válvula. Atrasa aqui e eu não posso postergar lá?”
-- Jeremias, tem cliente pra comprar! Custa acordar?
A voz do gerente, puxa-saco e lambe-bolas do dono, obriga que o pensar seja esquecido.
-- Pois não, senhor, quer um último tipo que pegue até emissora do mundo afora ou basta a Rádio Nacional?
Venda completa (“o senhor comprou um rádio pra virar o século”), deu a hora. Ponto batido, bonde no horário, motorneiro que se conhece há tempos, ao menos há espaço no banco pra sentar. Devagar, os trilhos trilham o itinerário num tempo que nada era temerário e podia até na madrugada se caminhar. Talvez um batedor de carteira se atrevesse a buscar bolso mais cheio ou guarda de quarteirão novo quisesse saber quem era aquele senhor de terno de caxemira que chegava em tal hora no lugar. Nada além.
-- Boa noite, Seu Jeremias. Que o seu dia tenha sido bom. Mas tenho que dizer que o senhor Carvalho esteve aqui e disse que só espera até depois de amanhã. Se o aluguel não for pago, ele vai pedir o imóvel de volta.
-- Tudo bem, Tazinho. Deixe tudo comigo.
O sono foi difícil de chegar. O recado do porteiro foi tácito, curto e grosso. Alguma saída haveria de ter. Quando a manhã raiou, ainda com olheiras no rosto, comeu o pão dormido de um dia atrás, colocou o terno de sempre, se penteou e saiu a caminhar. O bonde só pegaria se cansasse de andar. A cidade aos poucos acordava, admoestada de ter de viver milhares de vidas em si. Nas ruas, acolhidas de pés ligeiros e gente em constante lição na constelação da eternidade, corpos se cruzam num ir e vir como ovos de frigideira ainda fossem frigir. E eis que numa esquina estava lá o apontador da loteria popular.
-- E aí, Seu Jeremias, vai borboleta ou cachorro na cabeça?
-- Tem chance de dar macaco? Estou assim, pulando de galho em galho na incerteza de chegar nalgum lugar.
-- Se eu soubesse o bicho que daria na milhar, estaria morando em bairro grã-fino, não aqui nesse pasmar. Mas, nunca se sabe. Quanto e em que bicho quer apostar?
Jeremias olha os bolsos quase vazios e decide jogar o que tem. “Que se ferre o almoço. Se der o macaco, me salvo.” A rotina do seu dia foi como se o tempo parasse de vez. O relógio parecia não ajudar. “E a Federal, será que já saiu?” Meio trêmulo de fome, subiu no bonde e pediu pela primeira vez na vida que pudesse pegar carona. “Fazer o quê, Seu Jeremias, todo mundo tem seu dia de penúria. Sobe e senta” – disse o motorneiro. “Vou descer antes, mas obrigado de coração.” 
Desceu como prometido antes do normal. No canto onde o poste postava o resultado a se ver, tinha dado macaco na cabeça, milhar cravada. Um grito sai prosaico e redentor da sua garganta: “Seu Carvalho, vá chupar um caralho!” Com a alma lavada e enxaguada, quarada ao luar, ele soube que sua hora era chegada. No apartamento, abre a geladeira e se delicia do feijão de anteontem como fosse manjar. Bebe água como engolisse champanhe francês. Dorme a ressonar. Quando o sol solicita espaço à lua para brilhar, passa no apontador que o cumprimenta: “Seu Jeremias, deu macaco mesmo. Assim o senhor me quebra a banca!” Feliz a rir feito bobo, passa no senhorio, paga até dois meses adiantados e ainda tem tempo de depositar no Banco do Brasil o muito que restou. Agora, se chegar meia hora atrasado e o gerente reclamar, terá apenas um refrão: “Gastão, você já foi tomar no meio do seu cu? Então, vá!” Demitido até poderia ser, mas com os direitos atrasados garantidos, sairá a cantar o samba que diz que a Praça Onze vai acabar. Em volta, pendurada em galhos, a cidade brilha sem parar.
 
(Ainda com o Trio Macaíba)

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