Por Edmilson Siqueira
As sessões desse disco foram realizadas entre 1949 e 1950 e, 75 anos depois, ainda servem de referência a novos músicos além, é claro, de ter influenciado mais de uma geração de músicos e compositores de jazz.
Sem contar que se trata aqui praticamente do nascimento de uma nova escola no jazz, o chamado "cool jazz" que ia além de um estilo musical e introduzia uma mudança profunda de atitude estética dentro do jazz moderno.
Era um contraste com o virtuosismo explosivo e a densidade rítmica do bebop, que fazia muito amante da música torcer o nariz para aquela profusão de notas e um aparente desespero melódico.
O cool jazz propôs uma música mais contida, de timbres refinados, arranjos sofisticados e uma expressividade baseada na sutileza, ou seja, tudo que o amante contido de jazz queria.
E o disco frequentemente associado a esse movimento — muitas vezes chamado genericamente de Cool Jazz — tem como núcleo histórico as gravações reunidas em Birth of the Cool, lideradas por Miles Davis, e conta com a colaboração de figuras fundamentais como Gerry Mulligan, Chet Baker, Lee Konitz, John Lewis e Gil Evans.
Em 2007, a Verve reuniu num CD, 16 gravações das realizadas entre 1949 e 1950 e lançou com o nome de Coll Jazz. "The Birth of Cool", que foi o disco que fez sucesso, na verdade, é uma compilação, das sessões de 49/50 e foi lançado em 1957. E 34 anos depois desse lançamento, Gerry Mulligan resolveu revisitar as músicas, reunindo o mesmo pessoal anterior, com exceção de Miles Davis, que cheogu a ser convidado, topou, mas morreu antes. Esse disco, Mulligan chamou de "Re-birth of Cool", já comentado aqui por mim (https://osmusicoolatras.blogspot.com/search?q=gerry).
As sessões originais representaram um verdadeiro laboratório sonoro como se percebeu depois. Miles Davis, então um jovem trompetista recém-saído da banda de Charlie Parker, buscava uma alternativa ao frenesi do bebop. Sua visão era clara: reduzir a agressividade sonora, explorar novas cores instrumentais e valorizar o espaço entre as notas. Para isso, reuniu um noneto incomum, que incluía instrumentos pouco usuais no jazz da época, como trompa, tuba e sax barítono, criando um conjunto próximo à música de câmara.
Os arranjos, assinados principalmente por Gil Evans, Gerry Mulligan e John Lewis, foram decisivos. Eles introduziram uma escrita elaborada, inspirada tanto na música erudita europeia quanto nas big bands de Claude Thornhill. O resultado foi um som arejado, equilibrado e profundamente moderno, no qual improvisação e composição coexistem de forma pacífica.
Ouvir hoje as 16 músicas do disco original (que foram lanças apenas em discos 78 rotações, com uma de cada lado, e não causaram impacto algum), não é, por incrível que pareça, voltar a um passado musical, como aconteceria com qualquer gravação dos anos 1950. É ouvir um som atual que é facilmente encontrado em qualquer lugar do mundo que preze um bom jazz, inclusive nas rádios todas dedicadas ao gênero que proliferam no mundo da internet. Só no meu celular e no computador, devo ter links para mais de 20 rádios de jazz de várias partes do mundo, que, com a tecnologia do bluetooth posso ouvir num equipamento estéreo ou em incríveis fones de ouvido sem fio.
Voltando ao disco, há que se dizer que Gerry Mulligan teve papel central nesse trabalho. Seu sax barítono, tocado com leveza incomum para o instrumento, ajudou a redefinir seu papel no jazz moderno. Mulligan também se destacou como arranjador, criando estruturas simples, mas engenhosas, que deixavam espaço para a respiração musical. Anos depois, sua parceria com Chet Baker consolidaria ainda mais o espírito cool, especialmente na Costa Oeste dos Estados Unidos.
Chet Baker, embora não tenha participado das sessões originais do noneto de Miles, tornou-se um dos rostos mais emblemáticos do cool jazz. Seu trompete lírico, de timbre suave e fraseado quase vocal, representava com perfeição o ideal de introspecção e delicadeza do estilo. Baker levou essa estética a um público mais amplo, especialmente ao unir sua música a uma imagem de vulnerabilidade romântica que dialogava com o clima da década de 1950.
Outro nome fundamental é Lee Konitz, cujo sax alto se afastava deliberadamente da influência de Charlie Parker. Konitz privilegiava linhas melódicas longas, menos ornamentadas e com forte senso de lógica interna. Seu som frio e cerebral tornou-se um dos pilares do cool jazz, demonstrando que a intensidade emocional não dependia do volume ou da velocidade.
O impacto dessas gravações foi inicialmente discreto. Lançadas originalmente em compactos de 78 rotações, elas não causaram sensação imediata. Foi apenas em 1957, quando a Capitol reuniu o material no LP "Birth of the Cool", que a importância histórica do projeto ficou evidente. O disco passou a ser reconhecido como um marco fundador, influenciando gerações de músicos e abrindo caminho para o desenvolvimento do jazz da Costa Oeste e para abordagens mais híbridas entre jazz e música clássica. Décadas depois, essas gravações continuam soando surpreendentemente atuais.
As faixas são as seguintes:
- The Cool One (Benny Golson)
- Au Bar du Petit Bas (Miles Davis)
- Harper (Ed Thigpen)
- I Wish You Love (Chet Baker)
- What's New (Wes Montgmoery
- Crackie Hut (Max Roach)
- Coolie (Dizzy Gilespie)
- Angel Eyes (Al Cohn-Zoot Sim Quintet)
- Cleo's Asp (Paul Gonsalves)
- Serenade in Blue (Stan Getz)
- The Easy Way (Jimmy Giufree)
- Snap Crackie (Hoy Haynes Quartet)
- Foolin' Myself (Lee Konitz)
- The Gentle Art of Love (Jans Koller)
- Wintersong (Gerry Mulligan e Paul Desmond)
- Nuages (Barney Wilen)
O CD está a venda no Mercado Livre (um só exemplar) e na Amazon. Não encontrei onde ouvi-lo na íntegra. No YouTube há várias gravações, mas do disco lançado em 57 com o título "The Birth of Cool Jazz".
*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT.


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