sábado, 10 de janeiro de 2026

Feira do Nordeste

 Por Ronaldo Faria


A feira fervia com sanfoneiro, zabumbeiro e carneiro estrebuchado, o homem a vender sua farinha branquinha e um cachorro deitado na espera do naco de sebo chegar. As barracas, cobertas com um toldo carcomido pelo sol inclemente, tinham desde querosene pra lampião a vestido de corte bonito para aquele que quisesse sua amada presentear. Beiju, bolacha meia lua, tapioca da melhor. Chapéu e sandália de couro, bolo de milho, artesanato de barro. Na praça diante da igreja que todos juravam de pé junto ter sido parada de Padrinho Cícero Romão Batista, o povo se misturava e achegava juntinho pra ver o cará, a jerimum, pitomba e cana cortada no palito. No ar, o cheiro gostoso de carne de sol se misturava com a água de colônia que as mulheres mais lindas faziam soprar ao vento no ar. Foi ali, nesse mundo de cores e louvores, que Zé Longuinho, vaqueiro de costão, viu Filomena, derradeira filha do comerciante de terras João da Inês. Pele esturricada do sol, com olhos que lembravam os melhores dias da mata verde, sorriso de dentes a brilhar nas estradas atrás de boi fugido, foi ver a donzela e logo decidiu: “É ali que vou chegar depois de toda vaquejada poder achegar”.
-- Desculpe a ousadia, mas posso acompanhar a senhorita nessa feira?
A chegada tinha sido rápida e assustou Filomena. De beleza que nem o melhor escultor grego saberia descrever ou em mármore fazer, quem há pouco deixara de ser menina a brincar com bonecas de pano, ela mal soube responder. Mas, com um sorriso de orvalho na rosa, pôde murmurar “pode ser”. No meio de brocados, bocados de castanha de caju, bandejas de jaca, mangaba e umbu, os dois trocaram olhares, pouco falaram e outro menos disseram na pisada pelo chão de pedras calçadas.
-- Meu nome é José Ramalho, mas me conhecem como Zé Longuinho. Sou vaqueiro da fazenda Murta Velha.
-- Prazer. Sou Filomena. Estudo magistério e vou dar aula no grupo escolar pra alfabetizar os pequenos.
-- Nossa, uma professora! Coisa linda. Alguém que sabe os outros ensinar a soletrar.
-- É verdade. É bom poder abrir os caminhos do futuro através de uma cartilha.
-- Tenho a certeza de que se tivesse uma professora como você na minha infância, saberia agora ler e escrever de tudo. Até cordel iria fazer...
Filomena riu com o jeito simplório do vaqueiro, quase feito seu avô Tenório. Mas, ao menos, ele era verdadeiro. "Mas minha vontade mesmo é me mudar para a capital, fazer faculdade de Letras".
Aquela frase mexeu com Zé Longuinho. “Como assim, nem aprumei nossa vida e ela já vai me deixar?” - pensou com tristeza no peito.
-- Quem bom. Mas vai assim, sozinha? A capital é lugar perigoso pra moças como você.
-- Qual nada. Tenho parente lá. Depois, quem sabe, viro diretora escolar.
O pobre boiadeiro, que trocara as cadeiras do grupo escolar pela roça de milho e depois pelo cavalgar na caatinga num alazão, sabia que nenhum oitão iria trazer sombra para aquele amor.
-- Filomena, lembrei agora que tenho uns bezerros para apartar das mães. Te vejo depois?
-- Pode ser, quase todo o domingo eu estou aqui, para comprar e, como vê, prosear.
-- Então está tudo bom. Até mais ver qualquer hora. E desculpe o atrevimento, mas a senhorita é formosa.
Filomena se despediu dele com um sorriso de pasta de dente e aceno tímido. Quando dobrou a esquina que dava para o rumo e prumo do estradão, ele deu de chorar feito menino que perde seu primeiro dente. Excomungou a pobreza que o deixou ser o que é, pensou que se fosse doutor, desses de bata ou canudo, poderia Filomena conquistar. Mas, como amar uma professora que ainda por cima iria fazer a tal de faculdade. Com o cavalo arfando e suando em meio à poeira e o tempo que jogava calor ao derredor, sua dor plantava raízes de nostalgia num terreno que há muito nem coaxava jia. 
Quando a lua já brilhava branca no céu limpo de nuvem de chuva, chegou ao casebre que acreditou pudesse ter Filomena. Mas, hora vejam só, o lugar estava vazio. Sentou no tamborete, bebeu algumas doses de pinga e deitou na rede pra dormir. No cochilo gostoso que o cansaço dá ao corpo torpe e entregue a um deus romano que nunca saberá sequer o nome, Zé Longuinho sonhou com a amada que nunca viria a entrar pela porta de tramela e vela na sala de pau a pique a queimar. No seu sonho bisonho a quem não sabe o que deve sonhar, lá estava ela: linda, lívida, da cor de um branco igual ao vestido, a dizer que, na capelinha da fazenda, seria sua mulher na vida e na pobreza. Num sorriso que no negrume da noite ninguém vê e só a coruja sabe despertar ao piar, ele por fim é feliz em viver.
 
(Com Trio Macaíba)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Cartaz diz tudo

 Por Ronaldo Faria


O cartaz era bem claro: se for mijar, mire; se for cagar, não tem papel. Pra bom entendedor, mesmo bêbado ou diarreico, estava bem mais do que claro. Era só cumprir o dito. Afinal, como diz o ditado, combinado não é caro. Mas Beraldo, bebum de tradição, estava naqueles dias em que o corpo do umbigo pra baixo não atendia os ditames do cérebro para dentro. “E agora eu faço o quê? Me limpar como, se nem guardanapo trouxe?” (Ps.: guardanapo nas mesas não existia por lá). No boteco, de fora do quadrado em questão, a fila nunca tardia da bexiga esvaziar aumentava cada minuto mais. O mais carente ou apertado da vez, diante da porta do banheiro fechada, batia nela frenético. “Caralho, vai dormir aí?” Beraldo, na sina que determina se a vontade morre naquela hora ou faz logo tudo de vez, sua em cântaros. No termômetro do celular faz, porém, 15 frios graus.
-- Já vai, cacete! Calma! Aqui não é fila do INSS. Dá pra esperar um pouco mais...
Do lado de fora do pequeno cubículo de excrementos, os urros aumentam a cada apertar de pernas dos que esperam para não desandar calças e bermudas a vazar. No interior do 1x1, Beraldo beirava o cúmulo de fazer voltar ao estômago o que queria simplesmente sair e descer. Da cozinha, o cheiro desmedido de torresmo só fazia a vontade de evacuar aumentar. “Meu Oxalá, não se esquece de mim. Se a merda descer, só se for com a camisa para me limpar.” No cume da espada que corta pra que lado tiver de cair, ele desaba mesmo a contragosto no esgoto que tem logo depois da descarga ativar. “E agora, saio daqui borrado ou não?” No limite entre um pedaço de folha de madeira e o que há depois da porta, os clientes vociferam tresloucados: “Seu cuzão, vai sair ou não?”
Sem ter como fazer a cera de goleiro em jogo zero a zero no campo do adversário, Beraldo decide sair, só de bermuda. A camiseta agora estava “guardada” em algum lugar na descarga do lado, depois e abaixo da privada. “Que calor do cacete está fazendo. Sem camisa já está foda. Assim a humanidade vai morrer no inferno a queimar”, proferiu exultante.
Pediu a conta ao Gervásio, gerente do bar, e saiu rapidinho do lugar. “Ainda bem que aqui é raiz e não tem câmera de vídeo”, sentenciou na rara esperança vulgar. Mas, ledo engano, o prefeito que buscava reeleição tinha enchido a cidade de espiões da vida alheia para melhor arrecadar. Ele foi pego no flagra atrasado e filmado quando a companhia municipal responsável foi chamada para desentupir a rede de esgoto e descobriu uma camisa branca "pintada" de marrom. Identificado e multado, só então Beraldo decidiu que era hora de escolher finalmente: ou iria beber num lugar que incluía papel higiênico no cardápio ou virava ermitão sem direito a mesas mais transitar. A resposta, como diria o caipira, nem por bosta qualquer um saberia responder...

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Era uma vez

Por Ronaldo Faria


Era uma vez... 
O sonho de Claudionor era começar um texto assim: "Era uma vez". Mas, no redor em derredor a roda de samba rodeava sem parar. Tudo era restrito a sorrisos, balanços, remelexos, paixões desvariadas, veleidades. O importante, nesse instante, era o tanto entre a realidade e a instantaneidade. Enfim, no fim da perfídia inaudita e a desdita, a dor de Claudionor era mistura de repenique, reco-reco, cuíca. Desfile sem avenida.
Mas era uma vez. Outra vez. Nas oitivas que nenhum carteiro leva mais, letras se misturam nas vozes que cantam e decantam mililitros em mil pesares. Saudades e amores bastardos, passado repassado, transpassado de histórias e memórias. Nas góticas e utópicas, quiçá eufóricas transitórias glórias, as volúpias se volatizam em borbulhas que sobem nos copos em goles de cerveja e prosaica mansidão. Feito um Zé do Caroço.
Para Claudionor, DJ de mesa de bar, com músicas que remontam o tempo em que o tempo montava casais em beijos abraçados num mela-cueca sem parar, o importante era o momento do porvir que ainda estava por vir. Senão, o aplauso de boêmios sedentos de falar enquanto houver algo a dizer. Na estrada fatídica sem volta ou ida, desalinho de vidas em trôpegas desandanças do par que há muito ficou no topo.
Mas, como para tudo há uma vez, seja no colar da tez à amada declarada ou não, importante para Claudionor era relembrar Madalena, sua flor de açucena. Linda, imemorável, flor de um jardim que nem precisa se plantar para colher. “Traz outra gelada que nem essa aqui.” Na mesa, ensimesmado de viver, ele vê o tempo passar rápido com mosquito no copo, palito no prato e o mundo acelerar feito louco para entregar a pizza fria. Afinal, era uma vez.
 
(Com Samba de Raiz)

domingo, 4 de janeiro de 2026

Dizzy e a UNO*

Por Edmilson Siqueira


Quando Dizzy Gillespie idealizou a United Nations Orchestra, no fim dos anos 1980, ele não estava apenas montando mais um grupo: estava formalizando, em escala global, uma visão que sempre guiou sua obra. Desde os tempos do bebop, Gillespie via o jazz como uma linguagem aberta, permeável, capaz de dialogar com culturas diversas sem perder identidade. A United Nations Orchestra foi a materialização mais ambiciosa dessa filosofia. 
Criada em 1988, a orquestra reunia músicos de diferentes países: artistas da América Latina, do Caribe, da África, da Europa e dos Estados Unidos dividiam o palco sob a liderança carismática e musicalmente generosa de Dizzy. O grupo não tinha uma formação fixa, mas mantinha como princípio básico a convivência entre o jazz moderno e ritmos tradicionais — samba, rumba, calipso, afro-cubano, baião, entre outros. 
O repertório refletia essa proposta multicultural. Clássicos do próprio Gillespie, como “A Night in Tunisia”, surgiam reinventados por novas camadas rítmicas e tímbricas, enquanto composições originais de membros da orquestra ganhavam espaço ao lado de temas tradicionais rearranjados. A música não era uma simples fusão superficial, mas um diálogo profundo, construído a partir do respeito às especificidades de cada tradição. 
Do ponto de vista estético, a United Nations Orchestra representou um estágio avançado do jazz como música global. Diferente das experiências afro-cubanas das décadas de 1940 e 1950 — das quais o próprio Dizzy foi pioneiro —, aqui o escopo era mais amplo e menos centrado em um único eixo cultural. A improvisação jazzística funcionava como elo comum, enquanto as estruturas rítmicas e melódicas variavam de acordo com a origem de cada peça. 
Politicamente, o projeto também carregava significado. Em plena transição do mundo pós-Guerra Fria, Gillespie propunha uma metáfora sonora de convivência internacional. O nome “United Nations Orchestra” não era retórico: a banda encarnava a ideia de cooperação entre povos por meio da arte, sem barreiras culturais impostas. 
Os registros ao vivo do grupo revelam uma música vibrante, festiva, mas também sofisticada. O virtuosismo nunca se impõe como exibicionismo; ele serve à coletividade. Dizzy, já veterano, atua mais como maestro e catalisador do que como solista dominante, abrindo espaço para que novas vozes se afirmem. 
Assim, a United Nations Orchestra pode ser vista como o testamento artístico de Dizzy Gillespie. Mais do que um projeto musical, foi uma afirmação ética e estética: o jazz como território de encontro, troca e celebração da diversidade humana. 
O disco foi gravado ao vivo no Royal Festival Hall, em Londres, um local que tive prazer de conhecer em 2001, quando eu e o local estávamos comemorando 50 anos. Comprei até uma blusa polo com o escudo do Royal e sua data de fundação.  


A abertura se dá com "Tin Tin Deo" (Dizzy Gillespie, Gil Fuller e Chano Pozo), uma mistura do som das grandes orquestras de jazz norte-americanas com o ritmo latino. Muito metal e percussão completam o ambiente. 
A faixa seguinte traz "Seresta", de Paquito D’Rivera, nosso velho conhecido por aqui, introduzido pelo próprio Dizzy. Com seu clarinete ele inicia o que se parece mais uma valsa, bem ao estilo das antigas serestas brasileiras. A música encanta a plateia que aplaude no meio dela, logo após os primeiros solos de Paquito. 
Apesar do nome, "Samba for Carmen" (Paquito D’Rivera e Hank Levy), a terceira faixa mais se assemelha a uma rumba ou algo parecido. É bonita, bem interpretada - e possivelmente uma homenagem à nossa Carmem Miranda - mas não é o que conhecemos aqui por samba.  
A quarta faixa, "And Then She Stopped" (Dizzy Gillespie), se inicia com forte solo de bateria e nos introduz o talento e a qualidade de Flora Purim, num scat sensacional. É a melhor- e a mais longa - faixa do disco. 
A seguir, Dizzy apresenta sua própria música, "Tanga". Com uma introdução mais lenta, a flauta prepara o ambiente para Dizzy entrar com seu trompete dando o tom e o ritmo que a música assume a partir dali. Destaque para os grandes rompantes da turma do sopro.  
"Kush" (Dizzy Gillespie), se inicia com um soturno solo de trombone, com alguma percussão, dialogando com o trompete por longos 3 minutos e 20 segundos. Só então a orquestra toda adere e o que se tem é um som típico das noites cubanas. 
O clássico "A Night in Tunisia" (Dizzy Gillespie & Frank Paparelli) encerra o disco, com orquestra toda mostrando seus vários talentos. Talentos esses listado abaixo para que se perceba a razão da orquestra ter o nome de Nações Unidas. 
Dizzy Gillespie—trompete 
Claudio Roditi – trompete, percussão 
Arturo Sandoval – trompete, flugelhorn, piccolo trumpet 
Slide Hampton – trombone, arranjador 
Steve Turre – trombone, bass trombone, shells 
Paquito D'Rivera – alto saxofone, clarinete, percussão 
James Moody – alto saxofone, tenor saxofone, flauta, percussão 
Mario Rivera – tenor saxofone, soprano saxofone, percussão 
John Lee – contrabaixo 
Ed Cherry – guitarra 
Danilo Pérez – piano 
Flora Purim – vocal 
Ignacio Berroa – bateria, percussão 
Airto Moreira – percussão, bateria 
Giovanni Hidalgo – percussão, congas 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e há vídeos no YouTube da apresentação em Londres, maiores até que o disco comentado aqui. Um deles é esse: https://www.youtube.com/watch?v=M9ZCgC81kII 

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Na viola que chora

Por Ronaldo Faria


A viola rola solta no drama e na trama. Sebastião tinha perdido o amor de Sebastiana. Numa quermesse da igreja que buscava recuperar as imagens cagadas pelos morcegos pagãos, os dois tinham esquecido tanto amor premido e sem prêmios na pescaria que resolveram terminar. Quer dizer, ela quis acabar. Dependesse do homem criado no mais recôndito quinhão, eles teriam uma ruma de oito filhos, fora os paridos e entregues nascituros às covas rasas do sertão. Mas Sebastião, sem querer, tinha dado os olhos à prenda que a moça de vestido de chita acabara de receber. Morena, de cabelos cor de carvão, seios fartos e olhar que brilhava mais do que o lampião a gás de seu avô, ela chamava a atenção do lugar. Sebastiana era seu amor primeiro e derradeiro, como a menina estradeira que sorri no trote escaldante da boiada levar.
-- Gostou dela? Tá livre pra ficar! Nem precisa mais me procurar...
-- Meu amor, só estava a olhar a barraca pra poder jogar e te dar um presente.
-- Bastião, você nunca soube mentir. Deixa que o caminho da minha casa eu sei seguir.
Largado no meio de tanta gente, o homem que tanto aboiou gado nos pastos e antepastos da vida estava solitário como fosse padre sem sacrário ou ofício. Olhou as poucas luzes que brilhavam nos postes, promessa do coronel e prefeito às hostes, e viu apenas negror infindo. Sem Sebastiana ele era nada ou, como diria o poeta, um só doidivanas. A morena que tinha perpetrado a cena já sumira entre a barraca de pamonha e a de bolas na boca do palhaço pintado sem verniz.
-- Como assim? Amor se derrama ao léu sob o céu de fim de dia?
Ainda sem todos os dentes que o protético ficou de arrumar, perdidos no coice de um boi que fugiu mata a dentro, ele tinha medo de se entregar. Para Sebastião, Bastião aos íntimos que podia ver falar no sangue, decide largar a feira e seguir no adiante que o desencontro lhe deu. Solitário, acabrunhado e sem tradução que nem o tempo ajeita, pega a trilha cercada de mato vivo e coruja piando sua senda. Passa por casebres onde uma vela revela que há gente a viver ou amar, pisa pedriscos e areia, serpenteia para não pisar na serpente que atravessa o lumiar. E assim, entre o não e o sim que a história dá, brinca de fugir de si e voltar aos abraços de Sebastiana. A colocar seu corpo sedento de amor a encher cacimbas na espera de chegar. E depois, no após da póstuma tristeza morta de ver os lábios molhados de amar, poder dormir no acalanto calado de se recriar.
-- Boa noite, compadre Bastião. Vai tomar a saideira aqui na venda antes de fechar?
-- Com certeza, Esmeraldo. Manda logo duas pingas que é pra emborcar.
Em volta, no revoar de revolta das abelhas africanas que buscam novo canto pra fugir do fogo que o agregado das terras do senhor coloca, o barulho de asas contrasta com o silêncio que nem o vento pífio vai fazer ir embora. Agora, refeito feito pinto que sai do ovo para poder viver, Sebastião olha em volta e tem vontade só de chorar. Mas relembra da morena que passa feito cadenas que aprisionaram seu olhar. Fora apenas penduricalho, desses que se larga logo depois de colocado no peito.
-- Esmeraldo, pendura pra mim. Até o final do mês recebo o vale do patrão.
Mais um pouco e chega sua casa. Cansado, consternado, rasgado de coração, dorme logo, quando o sapo ainda coaxava sem ninguém a lhe jogar sal. Quando o galo que desperta ao sol primeiro canta ligeiro, numa sinfonia vadia, Sebastião acorda. Lava o rosto, põe o gibão e toma o rumo do curral. Sela o cavalo que tinha dormido sem ir à festa do santo, cai na estrada e busca esquecer a dor que incha sua cabeça de resto de álcool como passaporte. Na praça que antes era somente juntado de gente, dois bêbados dormem nos bancos de cimento. No derredor não há, porém, lamento. Na frente da casa, Sebastiana abre a janela. Num sorriso de talvez arrependida dá esperanças ao amor eterno. Sebastião depressa desce do alazão. A beata que seguia para missa primeira do dia preferiu esconder os olhos no guarda-chuva preto a ver dois corpos copulando na rua como fossem animais no cio que nem espelho d’água sabe mirar. No realejo, o periquito despenado tira a sorte que diz que a felicidade terá, por fim, seu lugar.
 
(Com Almir Sater)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

No blog em 31 de dezembro de 2025

Por Ronaldo Faria


 
É réveillon. Mais um, mesmo mais de um ano à frente no tempo. Para Marina e Fulgêncio, tanto fazia como tanto faz ou jaz. Estão em Copacabana, como fosse ali início e fim de um drama. Na trama, enfisema e muita cana.
-- Logo mais será 2026. Você imaginou que a gente ia chegar aqui?
-- De verdade?
-- Claro...
-- Sonhava há muito com esse momento, mas não achava que fosse rolar.
-- Como assim?
-- É que o tempo foge da gente como rato de gato ou chuva de capim.
-- Bobo...
De branco lívido, limpo e travestido de sânscrito, milhares de pessoas enchem de areia a noite à espera de nova sangria. Alguns provavelmente não chegarão ao fim dos próximos 365 dias, mas isso agora pouco importa. É hora de fechar a porta do passado e presente e sonhar com um futuro premente. Desses que Jorge Mautner canta como regente.
-- E o que prevemos para logo mais?
-- Fogos, show da virada?
-- Não tontinho, nosso juntar pra sempre.
Marina e Fulgêncio, extremos na ilusão e na realidade, rasgados de paixão e regados de canção que ecoa do coração, eram um casal que Cazuza já havia dito que se conheceram na maternidade. Daí para se juntarem à eternidade faltava só quizumba que não há santo que tire da macumba.
-- Foi difícil ficar tanto tempo sem você.
-- Difícil, foi foda. Sem poder foder.
-- Mas agora acabou esse espaço sem passo junto.
-- E já não era sem tempo...
No palco, a atração principal de quase 2026 canta em altos brados. Mas querer que saibamos como será depois da virada destrambelhada é reviver João Bidu ou Omar Cardoso. Ou seja, engodo. Seja quem for, que suprima a dor. Mas o cantor está nas paradas de sucessos e vai encher o bolso de grana na nova chegada de ano. Ao casal, o normal.
-- Me dá um beijo?
-- Só um?
-- Não. Muitos daqueles que só a gente sabe dar...
O barulho de fogos e rojões, taças de plástico de champanhe ou cidreiras baratas a se baterem, flashes de celulares e gritos de boas-vindas infindas parecem não existir mais. Marina e Fulgêncio estão entregues a outro mundo, profuso e confuso, que mistura juras e promessas. Em mesclas de luzes que fundem novo chegar astronômico e outro calendário a mandar, são um só interligados de orgia própria em que nada mais faz sintonia. No mundo deles, ligado por mares e rios, a correr no oceano que se diz de janeiro, apenas um par dança no terreiro. Em casa de ferreiro, enfim, o espeto une línguas e sal.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Sinatra–Basie: o primeiro encontro*

 Por Edmilson Siqueira


Juntar dois gênios da música num estúdio, como aconteceu em 1963 com Frank Sinatra e Count Basie não foi apenas uma boa ideia. Mesmo que fossem duas boas ideias (eles gravaram 20 músicas que resultaram em dois LPs) ainda assim, seria muito mais. 
Pois a parceria entre dois pilares absolutos da música popular norte-americana resultou em um de seus momentos mais luminosos.  Lançado no auge da maturidade artística de ambos, o disco revela a confluência entre a sofisticação das grandes orquestras de jazz e a precisão interpretativa de um dos maiores cantores populares que o mundo já ouviu.  
Em 1964, Sinatra e Basie gravaram um último álbum de estúdio, "It Might as Well Be Swing", com orquestração de Quincy Jones, e o primeiro álbum ao vivo de Sinatra, Sinatra at the Sands (1966), contou com a banda de Basie. Na verdade, então, foram três os encontros entre o cantor e o maestro, sendo o último deles ao vivo. 
Mas este artigo é sobre o primeiro disco, reproduzido em 2011 em CD com as dez músicas do primeiro LP. 
Gravado pela Reprise Records, a produção encontrou Sinatra em um momento particularmente fértil. Já tinha seu próprio estúdio, com liberdade criativa e cercado de colaboradores da mais alta estatura. Assim, ele pode explorar um repertório que combina standards consagrados e canções menos gravadas. 
Já a orquestra de Basie vive, no início da década de 1960, um renascimento artístico: rejuvenescida, compacta, com precisão rítmica quase metronômica, mas jamais burocrática, ela oferece o tipo de base ideal para um vocalista que dependia tanto da respiração do swing quanto da expressividade textual. 
Os arranjos são de Neal Hefti, cuja contribuição é também decisiva para a qualidade do disco. Admirado como trompetista e compositor no círculo do jazz moderno, ele se revelara também um arranjador de rara inteligência orquestral, dono de uma escrita que favorece a clareza, o balanço e a conversação musical entre seções. Em Sinatra-Basie, Hefti evita grandiloquências e abraça a vitalidade da big band, construindo arranjos que evidenciam tanto a qualidade e o talento vocal de Sinatra quanto a inspirada participação da orquestra de Basie.  
Logo na abertura, “Pennies from Heaven”, ouve-se a síntese dessa estética: a leveza dançante, o fraseado impecável e uma sonoridade ampla, mas nunca pesada. Sinatra canta como se flutuasse sobre a orquestra, encontrando espaços entre os sopros e linhas de contrabaixo, moldando cada verso como um diálogo entre a voz e os sons orquestrais. 

 
Um dos aspectos mais notáveis do álbum é a contenção expressiva. Diferentemente de gravações mais dramáticas de Sinatra, como aquelas que realizou com Nelson Riddle, aqui o foco é o swing, a conversa musical, a leveza do gesto. Isso não significa superficialidade: ao contrário, a interpretação do cantor é profundamente madura, construída com economia de recursos, pequenas inflexões e a famosa dicção cristalina que transformava cada palavra em gesto emocional. 
Segundo a crítica especializada, o álbum também representa um encontro simbólico entre duas escolas da música americana. Sinatra vinha do universo das canções populares, do teatro musical, das orquestras de rádio e das gravações luxuosas de Hollywood. Basie, da tradição do swing e do jazz afro-americano, das noites de Kansas City, do improviso e da energia contagiante das big bands. Em Sinatra-Basie, essas duas linhagens se encontram perfeitamente: o glamour e o fraseado vocal sofisticado convivem com o swing mais orgânico do jazz clássico. 
O resultado é um marco discográfico que atravessa décadas com frescor intacto. O álbum soa moderno ainda hoje, talvez porque Hefti, Basie e Sinatra compreenderam que a elegância é, por si só, uma forma de modernidade. Não há modismos nem maneirismos no projeto: há precisão e talento. Para o ouvinte contemporâneo, permanece um documento raro de entendimento artístico mútuo — uma aula de musicalidade que continua a valer com a mesma qualidade de 1963. 
As faixas: 
"Pennies from Heaven" (Arthur Johnston, Johnny Burke)  
"Please Be Kind" (Saul Chaplin, Sammy Cahn)  
"(Love Is) The Tender Trap" (Cahn, Jimmy Van Heusen) 
"Looking at the World Through Rose Colored Glasses" (Jimmy Steiger, Tommy Mailie) 
"My Kind of Girl" (Leslie Bricusse) 
"I Only Have Eyes for You" (Harry Warren, Al Dubin) 
"Nice Work If You Can Get It" (George Gershwin, Ira Gershwin) 
"Learnin' the Blues" (Dolores Vicki Silvers) 
"I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself a Letter" (Fred Ahlert, Joe Young) 
"I Won't Dance" (Jerome Kern, Jimmy McHugh, Oscar Hammerstein II, Dorothy Fields, Otto Harbach) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Spotify e no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=lQbH0mVvOYg. 

*A pesquisa para este artigo teve o auxílio da IA do ChatGPT. 


segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Reencontro sem ponto

Por Ronaldo Faria


A volta foi rápida, quase bucólica não estivesse ela com cólicas. Há muito não se viam. Feito viajantes ultramarinos, quase moribundos do último naufrágio tão frágil como tarde no sofá sem pipoca ou Doritos, bombom envolto em dourado, se tocaram e se entocaram na própria magia. Ele tinha feito gastronomia e ela filosofia. Estavam mais velhos. Um ou outro fio de cabelo se escabelava branco nas madeixas entregues à brisa frugal. Mas a luz curta e lúgubre parecia cena de Hollywood, com penumbra que esconde as profusas e difusas quirelas de amor que brilhavam entre os dentes.
-- Saudade...
-- Eu também, muita. Daqui até o sol.
-- Saudade do teu gosto.
Isso posto, na visita que não houve no novo morar, rostos se juntam postos em gostos antigos, cheiros de narizes a respirar aquilo que o outro trazia de seus pulmões em aflitos desejos de estrelas que buscam a negritude do universo irreal para brilhar. E tocaram a pele em pernas e orgias, sorriram em harmonia de Carnaval e redescobriram que o tempo viaja na contramão se assim se quiser. Amantes de anos muitos que correram décadas e lugares, nas terras e mares, sabiam que a ilusão percorre mundos e fundos para se fazer realidade, seja em qual idade for.
-- E aí, novidades?
-- Muitas e poucas, coisas preenchidas e outras ocas.
-- Eu também.
-- Garçom, outro chopp.
No derredor, a casa de pastel descansa de tanto fritar massas e sabores. Os odores sem as dores reminiscentes ficam pra depois. Na rua, em raios que chegam em profusão para qualquer confusão, mental ou real, a luz absorve o momento e se sorve de línguas e desejos como cata-ventos na tempestade de unguentos nunca práticos para fechar feridas tardias. Nalgum lugar, copos de cerveja transbordarão a borbulhar. Risos chegarão para rodear o lugar, mãos se entrelaçarão no insólito perguntar: “É aqui?” Na resposta trêmula e triste, a querer bis, “acho que é”. Logo mais, sem a certeza de saber se pé roça barriga ou umbigo serve de depositário de língua, ambos são corpo transeunte e pedinte por mais a bailar, desses que erram seu chegar. No luar que desabrocha do céu, algum rebelde querubim a tudo vê, se esbalda de alegria e diz que sim. A trama, refeita, chegou ao fim.
 
(Com Artur Verocai)

sábado, 27 de dezembro de 2025

Dúvidas em dívidas dadivosas

Por Ronaldo Faria


Dúvida. Quem entrará pela porta feito amante sedenta de beijos ou o agiota a cobrar seu espaço no lar? O que sairá do plantio da horta? Quem dançará a derradeira dança em mi bemol num semitom abaixo de mi e um semitom acima de ré? De onde sairá o grito derradeiro do sorriso brejeiro que não está aqui? O vento valsará entre as frestas da janela ou se largará nas festas que rolam na madrugada do amanhã? Nas ruas boiarão almas rumo às sarjetas que correm no asfalto infausto ou pássaros se aninharão na árvore que desabrocha a primavera? Na dúvida dadivosa que divide dramas e dogmas, o pó ao pó.
Marcelo caminhava no asfalto como andasse nas estrelas. Centelhas de fuligem desciam na avenida. Fria, quase frígida de si mesma, a madrugada se trajava de história e the end, num quase fim. No vento que volteia silencioso e cioso de atrapalhar o destino, há espaço que junta pés descalços e cadarço desatado. Há ainda a frágil monotonia que a diáspora faz levar - leve e iluminada de olhares fugazes. Em tudo isso, ele atravessa em versos o tempo que corre nos ponteiros do relógio em quiproquó desde que a humanidade deixou de viver sob a umidade de não ter um telhado pra dormir.
À frente, na infausta história que nem Fausto escreveria igual, Marcelo se pergunta agora se vale a pena viver. Na manhã de ontem, já outrora para o nada eterno, ele acreditava que sim. Afinal, se era para estar aqui, que fosse da forma que fosse. Mas, nesse momento, na avenida premida e espremida entre calçadas e concubinas, a resposta já era dúvida encravada de vozes ao longe e latidos feito grunhidos. Na sentença que se escrevia na junção de íris e lunares pesadelos, ele seguia a beirar a guia da calçada. Bem melhor do que aqueles que descansavam à eternidade nos campos santos cheios de ateus e seres bestiais, ao menos Marcelo conseguia seguir sem cão de guia. Ainda. “Senhor, quer comprar um churros de chocolate?” Ele não ouve o vendedor que parece vendilhão de açúcar e dor. Segue rumo ao prumo que visualizou. Na sua cabeça, torrentes de saudades correm nos dormentes do trem da felicidade que descarrilhou na última esquina. Entre mortos e feridos, corroem feito gritos ardidos nos poucos toscos que se salvaram...
 
(A ouvir João Cavalcanti e Marcelo Caldi)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Obrigado Melodia

Por Ronaldo Faria


Aprender ou ser? A pergunta pergunta e assunta o momento momentâneo e instantâneo da noite transversa em versículos de questiúnculas ínfimas de viver e sofrer. E vamos por lá para grunhir horrores internos ou nos fazermos arrefecer.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Samba outra vez

 Por Ronaldo Faria


-- De novo uma roda de samba?
-- Também, o que você ia querer?
-- Sei lá: rock doidão, funk putão, rap pirocão...
-- Podia ser, mas fazer o que posso fazer se nasci aqui no meio do Morro da Promissão...
Clemêncio e Clementina, casal próspero e etéreo da vida, dessas coisas que juntam água e óleo na mesma melodia, até curtiram juntos uns rejuntes de reboco no barraco que a chuva levaria e brincaram de fazer filhos aflitos de comer prato de comida. Simplórios, catárticos e com carcinomas que mais tarde se fariam verdade, viviam suas ausências e premências tardias. Nas manhãs bebiam um café rarefeito em copos de cerveja de bar, nas tardes se enfiavam em suas vidas nas orações ou biritas, nas noites falavam quase nada e nas madrugadas tinham sonhos e pesadelos a brotar nas mentes e fantasias. Eram, pois, casal singular. Desses que se vê todo dia na diuturna trilha de se trilhar.
-- Vamos orar a Ogum ou Oxalá?
-- Oremos aos dois. Para que nossa vida em paralelas se junte numa esquina sem encontrar as mãos.
No tempo atemporal que junta Melhoral e Dipirona num coquetel de querer continuar, ninguém se atrevia a por a colher. Entre brigas e rusgas, rugas surgiam em cada olhar no espelho. No reboco da casa inacabada chegavam contas e boletos, se achegavam duetos de parceria mal feita, afeita àquilo que o quilo de coxão duro pesava na balança da transa final. No espanto quântico da fantasia liquefeita, cegos de visão e impropérios dos impérios notívagos e atávicos, ambos ambicionavam a felicidade. Só erravam na receita que foi sobescrita inaudita e finita. Na porciúncula letal, farrapos de inerente poesia. Talvez, como diria o poeta, um caco de telha ou caco de vidro.
-- Lapa ou Estácio?
-- Tanto faz. É tudo caminho pra logo mais. Corridas entre estações de trem, solilóquios tardios e escassos descasos. Beijos dados, lambidos e entre línguas lavadas, desovadas de dentro do peito cravado de amor.
Na rua que se arruma e se apruma para viver a madrugada tragada de bêbados apaixonados entre tragos e benvindas vivências, os dois felicitam a madrugada que permeia o juntar. E se fazem falácias, volteiam passos, brincam de florear o compasso que o periquito preso a revelar destinos pega com o bico no crivo letal. No coração harmônico e afônico, que nem o melhor exame médico faz surgir, a poesia se faz fria e tardia a debulhar prosa e pressa em ser gratidão ao amor que se esvai ao desvanecer.
 
(Com o eterno e terno Luiz Melodia)

domingo, 21 de dezembro de 2025

A "Utopia" de Dori Caymmi

Por Edmilson Siqueira


Um disco que, mais uma vez, mostra toda a riqueza da música brasileira. Trata-se de "Utopia" do compositor, produtor, cantor e arranjador Dori Caymmi, com uma nova safra de obras inéditas (apenas uma já havia sido gravada), compostas com letras de Paulo César Pinheiro, Roberto Didio, Sergio Santos e Ivan Lins. 
Apesar dos mais de 80 anos, Dori continua bem ativo. Depois de “Prosa e Papo”, lançado ano passado, “Utopia” surge antes do fim deste 2025 e, com certeza, já há outros projetos na cabeça do artista. E não são projetos apressados: “Toda vez que eu penso em um novo projeto, trabalho três, quatro meses nas músicas, defino quem eu vou convidar, e só depois que estou pronto, que está tudo feito, levo para o estúdio”, conta Dori. 
O álbum reúne vários convidados, entre parceiros e intérpretes especialmente escolhidos para cada canção: “Generosos amigos, fabulosos artistas, que vieram cantar pra mim”, segundo Dori. Ivan Lins, parceiro na inédita “Isabela”, participa da gravação da canção, assim como Sergio Santos, que faz dueto em “Pelas mãos de algum poeta”, que compôs com Dori. 
Mônica Salmaso, com quem Dori já dividiu o álbum “Canto Sedutor” (2022), surge em “O Nome da Moça” (Dori Caymmi / Roberto Didio). Os quartetos vocais Boca Livre e MPB4 participam em “Búzios Azul” (Dori Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro) e “Ninho de Vespa” (Dori Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro), respectivamente. Paulinho Pauleira escreveu o arranjo vocal do MPB4, e Maurício Maestro o do Boca Livre. 
E, como se vê, são convidados do mais alto nível.  
A única música que não é inédita, “Ninho de Vespa” ganhou novo arranjo. Dori mesmo explica: “Quis regravar esse frevo com um formato mais pernambucano, em homenagem à música de Recife, que eu adoro”.  Juntos, MPB4, Mônica Salmaso, Boca Livre e Sérgio Santos fazem os vocais de “Viageiro” (Dori Caymmi / Paulo Cesar Pinheiro). Das dez canções de “Utopia”, sete são parcerias com Paulo César Pinheiro, “parceiro da vida inteira”, a quem Dori dedica o álbum. 
“Sozinho de Nascença”, “Navegação”, “Filete D’Água” e “Filigrana”, todas de Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro, completam o repertório do álbum, em gravações solo de Dori. A bela capa reproduz o quadro do patriarca Dorival Caymmi, no qual retrata Dori ainda criança. 
Além de Jorge Helder, o contrabaixista com que Dori dividiu o projeto, um time de músicos excepcionais comparece no álbum: Jurim Moreira (bateria), Itamar Assiere (piano), Paulo Aragão (violão), Iura Ranevsky (cello), João Bustamante (cello), Cristiano Alves (clarinete), Dirceu Leite (flauta), José Carlos Bigorna (flauta), Neymar Dias (viola) e Lulinha Alencar (sanfona). 


O nome do álbum, “Utopia” também foi explicado por Dori: “Já tenho 82 anos de idade e faço uma música extremamente brasileira, baseada em todos os ensinamentos que eu tive, de todos os grandes compositores do Brasil. Compor e pensar num disco desse nível, neste momento em que a nossa música está bem enferma, padecendo de cuidados, é algo totalmente utópico. Por isso o disco chama-se Utopia." 

Faixas: 
1. Búzio Azul (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
2. O Nome da Moça (Dori Caymmi e Roberto Didio) 
3. Viageiro (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
4. Pelas Mãos de Algum Poeta (Dori Caymmi e Sérgio Santos 
5. Sozinho de Nascença (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
6. Navegação (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
7. Isabela (Dori Caymmi e Ivan Lins) 
8. Ninho de Vespa (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
9. Filete D'Água (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
10. Filigrana (Dori Caymmi e Paulo Cesar Pinheiro) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Spotify e no YouTube em https://www.youtube.com/watch?v=8oNMv-5GPDg&list=OLAK5uy_mmDIeldQT5jMcQXMjbR1F9CLpXvJQqO3Y&index=2 . 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Derradeiro incenso

 Por Ronaldo Faria


Devagar ele traz divagar tardio e um ou outro cheiro de relva. Sobe no espaço em passo no descompasso que os olhos ainda sabem enxergar. Prazenteia em estrela perdida no céu um escarcéu que junta anjos, demônios, homens e mulheres, sinônimos de algo que em nada se parece com Deus. Brinca e brinda a brincadeira da cantoria imaginária e lúdica que trupica, mas não cai. No cais do mar revolto e distante, Anabela pragueja a ausência de Cassimiro, casmurro e ausente há tempos, desde que foi no barco de Altamiro na busca de lagosta e centavos minguados.
-- Amor, vai ser pouco tempo. É tudo por nós, pra buscar nosso canto de encanto onde vamos ter uma ruma de filhotes e pixotes.
-- Mas e se o barco virar e você afundar pra sempre na imensidão?
-- Isso não vai acontecer. Reza pra Nossa Senhora dos Bons Ventos. Ela há de nos guiar além-mar.
E assim ele zarpou, com Ferreira e Zaqueu. Singraram ondas e marés, ventanias e calmarias. Viram sereias, baleias e até Netuno, mesmo que esse tivesse aparecido soturno e noturno depois de duas garrafas de pinga cada um. Caminharam em ondas cheias de branco, oraram ao passado, tracejaram em bússolas e olhares para o Sol a melhor rota para voltar e descobriram cardumes no ardume que os olhos estavam com tanta secura. Amigos de infância, desses que juntam brincadeiras arteiras e lembranças, resistiram à falta de ventos e prosseguiram na busca do aconchego. Maria, Sebastiana e Mazé estavam em algum porto a esperar.
Assim, no fim que o porvir faz por fim despontar, conseguiram voltar. Cansados, queimados de um sol inclemente que os queimou mais do que queima toda gente, desembarcaram quase ausentes da missão que tiveram de cumprir. E lá estavam elas, suas amadas e famélicas de amor, mulheres por serem lembradas. Barbados, esturricados e sem vento para acarinhar, os três se jogam na brincadeira que chamam de amar.  No recôndito anacrônico de pau-a-pique, onde apenas dois corpos podem se juntar, o trio de pescadores de desejos se esmera em entregar seus corpos às cópulas do chegar. Naquilo que ainda carece de rimar, o marejar de olhos no choro do prazer envolve vozes quietas e prestas a vociferar o langor. Lá fora, bezerros berram pelas mães noutro pasto. O tempo agora é vasto.
 
(Com Paulo Matricó)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Com Rolando Boldrin

Por Ronaldo Faria


Devagar, a divagar atônito e perdido em si, Adamastor segue seu caminho sem admoestar a si mesmo. A esmo, na mesmice de um cavalo a correr a estrada seca, segue no caminho de quem só quer aninho. O lugar final: os braços em abraços gostosos, o riso sereno e pleno e os lábios carnudos de Maria, filha de Zé e Madalena da Luz. Debaixo de um pé de laranja lima, para o alazão comer o mínimo de capim que esqueceu de morrer, se põe a relembrar o desejo benfazejo de algum Santo Antônio que em alegria ri da vida. Curado da alergia que a algibeira traz no seu couro curtido da morte do gado que deixou de mugir, Adamastor cura a dor com o olhar para o sol que morre distante, equidistante do peito ao coração. Na igreja perto uma carola reza a derradeira oração.
Sem causos para contar além da própria vida, cheia de bocados que poderiam virar fados fosse essa história em Portugal, nos brocados e trocados que faltam, Adamastor chora em louvor ao Boi Fubá, morto para sua família alimentar. Ser entregue às feiras cheias de carnes dependuradas num gancho cercado de moscas toscas que revoam e pousam deveras a vera, caminhante de tempos outrora, nos alforjes e roupas de couro curtido, ele vislumbra o alumbre de viagens de tropeiro e boiadeiro. Feito carcará certeiro, mira os olhos de caramelo da amada para não descrer de que vale a pena viver. Em novo estrado o corpo daquela desejada desde o primeiro olhar abaixo de uma escada irá de novo vicejar. Na frente, no defronte das frontes, um pastel irá encher de cheiros o amor dos dois.
Assim, feito a açucena que tem gosto de beijo, Adamastor busca no passado o futuro de si. Caótico, ciclópico, morto no presente e ausente nas barcas que empacam no rio seco, a correr a areia branca onde antes corria água cristalina, guarda no sentimento a falácia de ser o mesmo. Nas brincadeiras que o relento lembra com o cheiro de lampiões brotando luz em querosene queimado, sombras voltam e perfazem desejos tristes onde os morcegos em desaconchego voam na busca de jugulares e saudades. Quiçá uma fruta ainda dependurada no pé de pau brilha na lua cheia. Para ele, pasmado e trôpego diante de tudo que se diz e traduz, a luz viceja amanhecer que trará plenitude. Alguém, nalgum lugar, tracejará trilha onde uma erva irá curar seu lumbago. E assim, refeito feito o amante que foi outrora, irá sentir a cama a correr no quarto, se deitar no mato e andar entre ondas frias que margeiam o ensejo do desejo de amar. E só aí a chegada, por fim, far-se-á.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Algo mais com Cannonball Adderley*

Por Edmilson Siqueira


Pensa num disco que soa moderno, mas que foi lançado há 67 anos. É disso que se trata esse "Somethin' Else", lançado em 1958, com Cannonball Adderley (sax alto), Miles Davis (trompete), Hank Jones (piano), Sam Jones (baixo) e Art Blakey (bateria). Também, pudera! Com esse time qualquer coisa que se fizesse podia parecer eterna. 
E, para completar, embora traga o nome de Cannonball Adderley na capa, o álbum costuma ser lembrado também como um dos momentos mais luminosos de Miles Davis fora de suas próprias formações. Essa convivência artística gera um dos registros mais equilibrados, líricos e marcantes da era do hard bop. 
Logo de cara, a introdução do piano, da bateria e do contrabaixo parece que vai nos levar para um mambo qualquer, mas quando ela termina e começam a entrar as primeiras notas de "Autumn Leaves" (J. Kosma e J. Mercer), o ouvinte sente estar diante de algo grandioso, o que vai ser fartamente comprovado nos quase 11 minutos de performance sobre o tema. O solo de Hank Jones, sempre elegante, reafirma a coesão do grupo. Já Art Blakey, com suas escovas precisas, age como quem não precisa impor nada mais do que o necessário. Sam Jones, no baixo, completa essa base com firmeza e discrição. 
O contexto do disco é especial. Cannonball havia chegado ao sexteto de Miles pouco tempo antes, participando das gravações que antecederiam "Kind of Blue". Aqui, porém, o saxofonista assume o protagonismo e com seu sopro firme, caloroso, com um fraseado que combina blues, gospel e precisão moderna. Sua sonoridade contrasta com o trompete econômico de Miles. A interação entre ambos sustenta o coração expressivo do disco. 
A segunda faixa é “Love for Sale”, um clássico de Cole Porter. Art Blakey marca um pulso mais vivo e dinâmico. Cannonball brilha especialmente, mostrando sua capacidade de transformar temas familiares em improvisações cheias de frescor rítmico. Miles, por sua vez, opta por um trompete seco e, claro, genial. O resultado é um contraste vivo, que prende a atenção de quem ouve. 


A seguir surge a faixa-título, “Somethin’ Else”, de autoria do próprio Miles Davis. É uma peça construída sobre um padrão sutil que se abre ao diálogo entre o trompete e o sax.  Miles toca com economia, mas Cannonball expande melodias com potência e fraseado cantável. A diferença entre os revela como elas podem ser complementares e não antagônicas.   
A quarta faixa é "One for Daddy-O" de Nat Adderley, trompetista e irmão mais novo de Cannonball. Sob um tema aparentemente simples, o grupo mostra toda sua versatilidade em transformar em ouro puro jazzístico o que lhe cai em mãos. O sax de Cannonball se sobressai em notas fortes, sempre com o acompanhamento primoroso do baixo e da bateria.  
Outro clássico, "Dancing in the Dark" (A. Schwartz e H.Deitz) vem a seguir. É o momento mais intimista do disco, com longo e expressivo solo de sax beirando um blues atravessa a faixa toda.  
Por fim, "Bangoon" do pianista Hank Jones, completa os cerca de 45 minutos do disco com um encerramento alegre, aberto com Davis caprichando nas notas rápidas, sendo seguido pelo sax de Cannonball. Tudo muito bem acompanhado pelo piano, bateria e contrabaixo, num ótimo exemplo do que a "turminha" podia fazer junto. 
"Somethin’ Else" é, acima de tudo, um encontro raro: são músicos no auge da maturidade criativa, reunidos em torno de um repertório enxuto e tratado com uma combinação de espontaneidade e rigor estético.  
Mais de seis décadas após sua gravação, "Somethin’ Else" permanece um daqueles discos que convidam tanto a escuta atenta quanto o puro deleite musical. É jazz de alta voltagem, capaz de combinar técnica e beleza formal com aparente naturalidade. Um clássico que soa sempre novo. 
O CD e o LP estão à venda nos bons sites do ramo, mas os preços são meio salgados. Ele pode ser ouvido no YouTube na íntegra em https://www.youtube.com/watch?v=u37RF5xKNq8&list=PLTIb4fKCEAevQGcDKFIXdimOXsMK4uVNv . 

*A pesquisa para este artigo foi auxiliada pela IA do ChatGPT.

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