sábado, 4 de abril de 2026

Com Gil

Por Ronaldo Faria



Sortilégio de egrégio lugar é onde a paz pode ser o fim que a tantos apraz. Era assim que Ferdinando sorvia o que via aos seus olhos que iam além do luar que se esparramava nas ondas rarefeitas da maré baixa. Fruto sabe-se lá do que (Ps.: ele sequer sabe tempos adverbiais ou regras gramaticais), viajava nas ilhas que iam da Cagarra à Itaparica, todas entranhadas em si. E nelas surfava em pranchas que as artimanhas de cuícas e berimbaus lhe entregavam em tragos e prenhas musas doidivanas.
Para Ferdinando, nos gracejos e ensejos do tempo que gostaria de fazer voltar e violar, a saudade é a maldade maior. Antes lhe entregassem aos grilhões daqueles tresloucados a morrerem nas masmorras do final inacabado e fadado a se repetir no fim. E tudo no universo que nem o melhor verso de Camões ou Bandeira, Drummond ou Pessoa, fará deslumbrar o começo do alento a se criar. O infinito místico que o finito falar não saberá sequer balbuciar uma sílaba para admoestar a paz que apazigua as feridas que o tempo se esmera em não cicatrizar.
E assim, crivado de prazeres solitários, versos enviesados, mandrágoras que curam dores, alforjes colados em cavalos alados, blasfêmias de fêmeas e pesadelos, desmazelos da Luanda que nunca fomos, Ferdinando é seu mando e mandado para seguir em frente até o fogo do inferno ou de um forno a lhe consumir. No encanto que tanto persegue à verve e se entrega em loucura antiga e ameríndia, ele sabe que está só no condado onde outros tantos solitários são solícitos ao solstício e faz-se tenor de uma ópera inacabada. No céu, surge enfim uma fada. Do alto de tudo, no ato, porém, o Criador grita desesperado: “Cuidado, garota, esse anjo de bosta não te ama. Ele só quer uma foda!”

Com Gil

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