quarta-feira, 22 de abril de 2026

Devagar a gente chega lá

 Por Ronaldo Faria


Nostalgia tardia. Premência fugidia dos dias que se transbordam de luz e maresia. Num mar longínquo e próximo, próspero tempo de se escrever mais devagar, o tempo flui a vagar. E vai a correr entre corpos de verão, cópulas de tesão, desavisada exatidão. Misto de hiato, início, meio e fim de alguma história que se mistura sem fim ou começo num limiar. Em tempos de têmporas profanas às infâmias que se destroçam nas pedras do quebra-mar, a vida carece se entregar e se embriagar de notícias que parecem perdidas no tempo ou urdidas no vento, a revoar.
Saudade vadia. Lembranças de erros e acertos, todos prestos a se tornarem quase só afetos ou fetos disformes e sem lar. Na esquina sobremaneira feminina, onde carros trafegam em transversais delírios, versos saem dos olhos de casais apaixonados, se movimentam em tormentos aplacados e dizem que o inferno astral é depois do aniversário, mas tem fim. Afinal, tudo tem um final que se mistura, se locupleta e se esvai. Nos rodopios sem chiados ou pios do pássaro que se esqueceu de voar. Nalgum lugar, decerto, o verso vira reverso para a noite se aconchegar.
Realidade e sina. Talvez exista milagre de Natal para quem se comportou direitinho o ano inteiro. Talvez sim, talvez não também. Mas, pouco importa. Detrás da porta do bar se aporta no porto de correntes marítimas que levam a sereias tresloucadas, amantes imponderadas, histórias forjadas em aços e percalços do destino. Em desatino, angústias de trovões postergados, dragões de mares viajados, galés afundadas em infundadas tempestades se fundem em palavras prostradas que viajam sem saber se irão um dia qualquer chegar.
 
(Com Bossa Nova no ouvido e a tentar controlar a dor)

Devagar a gente chega lá

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