sexta-feira, 10 de abril de 2026

A nóia da paranoia que virou joia de camelô

Por Ronaldo Faria


-- Alô, Seu Joaquim? Hoje eu acho que não vai dar pra ir trabalhar. A linha de trem parou geral aqui na Pavuna. Quebraram uns vagões duas estações antes. Se tudo regularizar, prometo ir aí bater meio expediente...
Waldir, crente nas palavras e certo de que algum telejornal popular vai mostrar o caos suburbano, pensa em ir a outro bairro onde o trem não passe longe e consiga pegar no batente. Mas cadê a grana? O apontador de bicho com quem ele joga parece não dar sorte nenhuma. Ou seus sonhos e premonições são furados a mil. Num sol escaldante, desses de assar ovo e fazer bife bem passado no asfalto, o céu está anil.
-- Alô, Seu Joaquim? Sou eu outra vez. Talvez o senhor não tenha pego o recado anterior. Aqui a zona está total. Tem gente revoltada detonando geral os vagões. Pedra e tijolo é pouco. Mesmo ao preço no caralho das alturas, já surgiu até neguinho com galão de gasolina pra detonar geral. O senhor não sabe o que é pobre revoltado por perder um dia de trabalho e ser descontado injustamente. Se der eu vou cumprir o finzinho do expediente...
Sentado num banco diante do muro pichado com as iniciais da facção do lugar, Waldir assiste a tudo sem se intrometer. A última vez que resolveu colocar o bedelho, sem ser chamado, acabou em cana por baderna e depredação ao bem público. Hoje prefere ficar na sua, de boa. Afinal, em terra de polícia, milicianos e facções, quem tem um olho, nem que seja só o debaixo, é rei.
-- Alô, Seu Joaquim? O negócio tá piorando aqui. Tem vagão adoidado ardendo em chamas. Parece que o Choque já foi chamado. E nada da ferrovia ser liberada. Acho que aquela promessa de chegar no fim do expediente não vai dar. Aliás, o senhor ouviu essa história da jornada seis por um acabar? Quem sabe essa revolta popular, no meu caso, não seja um recado divino. Quer dizer, divino do meu Pai Oxalá, que o senhor sabe que eu sou macumbeiro de fé. Mas é isso: talvez o senhor tenha que começar a rever nosso trato social. Falei bonito e disse. Se tiver novidade, te ligo de novo. Se tiver crédito.
Até os passageiros que ainda teimam em achar que solução virá, começam a se revoltar também. Desde o Mané ao Zé Ninguém. Da Maria à Clementina. Agora todos são doutores de Oxford ou Sorbonne em questões sociais. Relembram as marchas de 1968 pelo mundo e encaram de frente os PMs que batem nos escudos para devolver a ordem e o progresso ao lugar. Ali, o lufar do vento quente e causticante só aumenta a tensão que a realidade faz criar.
-- Alô, Seu Joaquim? Como o senhor sequer ouviu os áudios de antes, te mando outro. Porra, cadê o senhor? Tá assediando alguma funcionária nova? Esquece mesmo eu ir pra aí. A coisa aqui deu merda total. Os homens chegaram batendo geral. Tô com os olhos ardendo de gás de pimenta. E eu nem gosto de pimenta! Meu nariz é só gás lacrimogênio. E eu atrasei a última conta do dono da distribuidora de bujão porque o senhor atrasou o vale. O senhor por acaso sabe o que é a dona do barraco buzinar no seu ouvido que a janta não tem sem fogão? Quer saber, se o senhor não abrir sequer essa porra de zap, vai se foder!
No entardecer suburbano, onde nenhum arcanjo sequer tem ordem do Poderoso pra descer à Terra e não dar perdido e o Céu ter de pagar plano de saúde angelical, a porrada rola geral. É mulher correndo feito recordista de 100 metros, vendedor de relógio fajuto pulando o muro como saltador olímpico de vara, malandro que virou trabalhador de última hora e trabalhador a mostrar a carteira e dizer que a vida tem seu lado social. Tem biscoito Globo voando em farelos na estação, extração de dente gratuita à base de cassetete, sirene a girar e apitar geral, caldo de cana derramado nas borboletas travadas de passagem aos trilhos, menino chorando perdido. Ou seja, vida que segue seu curso normal.
-- Alô, Seu Joaquim? Eu tô aqui dentro do camburão indo pra DP, pra ser fichado outra vez. E olha que eu tava quieto, sem me meter no murundu. Mas, sabe como é: deu merda, sobra geral. Aqui não é Zona Sul, onde todos são inocentes até que se dê carteirada e processe o Estado. Mas, quer saber, foda-se! Aliás, meu emprego nessa espelunca do senhor, foda-se! Só pague meus direitos direitinho. Posso ser mais um Waldir, mas estou aqui: certo de que o dia de amanhã vai raiar pra mim e pro senhor de forma igual na natureza. Aliás, vi aqui um cachorro da hora lambendo as feridas de um parça. Vou cravar ele na cabeça e na milhar! Já o senhor, vai tomar no meio do seu cu! E não precisa abrir o zap e nem responder...
No dia seguinte, a milhar do cachorro 2417 deu cheia na cabeça. Waldir, novo rico do pedaço, pede um Uber pra voltar pra Pavuna, paga as contas devidas, chama a patroa pra ir até Porto Seguro em férias de bacana e diz, em alto e bom som no WhatsApp, para o ex-patrão que doe as quirelas devidas a ele para uma instituição de amigos dos animais de quatro patas.
-- E Seu Joaquim, vai por mim, um dia a coisa pode piorar pro senhor. Espero que não. Quer dizer, se piorar, foda-se! Mas vou desligar e tirar o senhor dos meus contatos. A caipirinha de caju com leite condensado para adoçar a vida não pode ver o gelo todo derreter. Como diriam os franceses, au revoir...
Deitado na rede num resort de luxo, Waldir sente, por fim, ser parte do mundo.
 
(Num sonzinho de Bossa Nova Lounge Jazz)

A nóia da paranoia que virou joia de camelô

Por Ronaldo Faria -- Alô, Seu Joaquim? Hoje eu acho que não vai dar pra ir trabalhar. A linha de trem parou geral aqui na Pavuna. Quebrara...