sexta-feira, 24 de abril de 2026

No celular no recôndito do lar

Por Ronaldo Faria

Queria agora só poder sentar e escrever sem dor. Escrever pouco. Quase um texto tosco. Talvez uma só palavra: flor.
Somente escolher as sílabas pela sua sonoridade ou sororidade, propor personagens, levitar e ler depois. Ser... se entreter.
Queria saber como curar a coluna doente, reverter uma calúnia rente, sorrir à vontade de calar e dizer. Escolher.
Apenas poder respirar e fazer, ver e responder, sentenciar a verdade de viver nos poucos dias ainda que virão a tecer sons e sílabas.
Queria inaugurar o novo computador, vencer a vil dor, descobrir que o calendário do tempo pode ser mais do que etéreo torpor no premente calor.
Por fim, deitado a dedilhar numa tela que dá forma às células e o sonhar, acordar com o sol a partir em mais uma jornada de se apaixonar e saber que para tudo há fim, hora, lugar ou chegar.
 
(Texto em decúbito dorsal e no brilho de um celular)

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