Por Ronaldo Faria
João estava sentado e só a ver
a vida passar. E passavam as moças com seus vestidos soltos, moços com cabelos
desfeitos, desajeitados casais entre abraços e beijos em sobressaltos. E tinha
ônibus a correr com gente dentro, vidas a transitarem num ir e vir tresloucado
e pasmado. Na direção, um motorista cansado de seguir todos os dias a mesma
rotina de ruas e esquinas. À mesma sina. Logo acima, nuvens passeavam brancas
num azul cercado de raios solares. Nos olhares das casas, velhas senhoras vislumbram
a imensidão que termina à beira logo no fim da cidade. Na cena toda, João vive
no emaranhado que ao menos qualquer conhecedor da dor diria ser descalabro.
-- E aí João, posso sentar ao
seu lado.
Era seu amigo Nestor. Camarada
de velhas brigas e orgias.
-- Claro, a mesa é pública.
-- Valeu. Jurandir, desce mais
uma estalando de gelada!
Na rua, um estridente buzinar
reclama do cachorro que no meio dela deita para cochilar.
-- E aí, que conta de novo?
-- Quase nada. Bar e casa,
casa e bar...
-- E entre esses dois destinos?
-- Desatino do destino, muito
desatino e pouco destino...
-- Poxa, João, a vida dá pra
ser um pouco mais do que isso.
-- Pode ser, pode ser para
quem quer ainda viver...
Na pausa da conversa, versos
saem das mãos do poeta na mesa ao lado. Nas rimas, afago, paixão, amor sem
gosto amargo. Um pássaro canta sua poesia para a jovem passarinha que voa distante.
Escondido num canto, à espreita nada suspeita, um meliante. A espera do incauto que por ali andar ou
passar. No coreto de concreto que existe no meio da praça, dramática canção
reverbera para a imensidão. Nas notas, repertório de perda e solidão.
-- E a Ana Maria? Que fim levou?
-- Sei lá. Deve ter ido pro
Panamá.
-- Panamá? Mas o que alguém
pode querer fazer por lá?
-- Vou lá saber...
-- Jurandir, traz a próxima e
um balde gelo pra colocar nos copos porque essa cerveja está mais quente do que
subúrbio em dia de verão!
As horas devagar se esparramavam
pelo relógio de parede na parede de azulejos azuis e brancos. Uma mosca tentava
saciar a fome no resto de salame que repousava sem serventia no chão. O
cachorro que antes cochilava na rua agora ressona sob qualquer teto. Na
barriga da mulher que passa, quem dorme é um feto. A noite, dessas que tão
brilhante em estrelas parece açoite aos olhos e carece de olhares apaixonados, pede licença ao sol cansado e
suado.
-- Sabe João, muitas vezes a
saudade parece que só existe pra nos lembrar que é hora de esquecer tudo.
-- Taí, concordo.
-- Tipo brincadeira derradeira
de um menino que sonhava com bicicleta de Natal e ganhava no máximo um patinete.
-- Porra, que história triste
de pivete. Melhor falarmos da mais gostosa vedete...
-- Luz Del Fuego, Elvira Pagã, Virgínia Lane, um momento da vida até Leila Diniz.
-- Com certeza. Wilza
Carla, Renata Fronzi e Mara Rúbia. Todas lindas e apoteóticas para todas
as óticas.
-- Puta merda, erámos
felizes e sabíamos...
-- Com certeza.
Jurandir, descarrega agora aquela da promoção!
E assim as moças e
moços seguiram seus destinos, alguns prazerosos e outros cretinos, casais se
acasalaram e desfizeram velhos romances, o ônibus passou reto no ponto porque o
motorista decidiu ir à garagem pedir demissão. Nuvens escureceram, as
velhas senhoras sofreram com seus joanetes, o poeta terminou a missão, o pássaro
se apassarinhou com a amada. O meliante roubou a corrente que pensou ser de
ouro mas era comprada em camelô, o coreto da praça silenciou, o relógio da
parede, por falta de dar corda, parou. A mosca ao se saciar foi pisada sem
querer e o cachorro enfim encontrou novo lar. Um idoso lhe prometeu ração e amor
em troca de companhia. A mulher, em contrações finais, pariu o rebento enquanto
no estádio cheio o Flamengo fazia mais um tento. A noite deu o derradeiro beijo
no sol e o fez ir ao horizonte e dormir. “Mas, por favor, sem roncar”, disse a última nuvem que cobriu o derradeiro iluminar. No
bar, João e Nestor se abraçam no mais bêbado gesto de que certamente amanhã
haverá, quiçá, novo amanhecer, despertar, adormecer...
(Com Elza Canta e Chora Lupi)
