segunda-feira, 20 de abril de 2026

Em Lupicínio

 Por Ronaldo Faria


João estava sentado e só a ver a vida passar. E passavam as moças com seus vestidos soltos, moços com cabelos desfeitos, desajeitados casais entre abraços e beijos em sobressaltos. E tinha ônibus a correr com gente dentro, vidas a transitarem num ir e vir tresloucado e pasmado. Na direção, um motorista cansado de seguir todos os dias a mesma rotina de ruas e esquinas. À mesma sina. Logo acima, nuvens passeavam brancas num azul cercado de raios solares. Nos olhares das casas, velhas senhoras vislumbram a imensidão que termina à beira logo no fim da cidade. Na cena toda, João vive no emaranhado que ao menos qualquer conhecedor da dor diria ser descalabro.
-- E aí João, posso sentar ao seu lado.
Era seu amigo Nestor. Camarada de velhas brigas e orgias.
-- Claro, a mesa é pública.
-- Valeu. Jurandir, desce mais uma estalando de gelada!
Na rua, um estridente buzinar reclama do cachorro que no meio dela deita para cochilar.
-- E aí, que conta de novo?
-- Quase nada. Bar e casa, casa e bar...
-- E entre esses dois destinos?
-- Desatino do destino, muito desatino e pouco destino...
-- Poxa, João, a vida dá pra ser um pouco mais do que isso.
-- Pode ser, pode ser para quem quer ainda viver...
Na pausa da conversa, versos saem das mãos do poeta na mesa ao lado. Nas rimas, afago, paixão, amor sem gosto amargo. Um pássaro canta sua poesia para a jovem passarinha que voa distante. Escondido num canto, à espreita nada suspeita, um meliante. A espera do incauto que por ali andar ou passar. No coreto de concreto que existe no meio da praça, dramática canção reverbera para a imensidão. Nas notas, repertório de perda e solidão.
-- E a Ana Maria? Que fim levou?
-- Sei lá. Deve ter ido pro Panamá.
-- Panamá? Mas o que alguém pode querer fazer por lá?
-- Vou lá saber...
-- Jurandir, traz a próxima e um balde gelo pra colocar nos copos porque essa cerveja está mais quente do que subúrbio em dia de verão!
As horas devagar se esparramavam pelo relógio de parede na parede de azulejos azuis e brancos. Uma mosca tentava saciar a fome no resto de salame que repousava sem serventia no chão. O cachorro que antes cochilava na rua agora ressona sob qualquer teto. Na barriga da mulher que passa, quem dorme é um feto. A noite, dessas que tão brilhante em estrelas parece açoite aos olhos e carece de olhares apaixonados, pede licença ao sol cansado e suado.
-- Sabe João, muitas vezes a saudade parece que só existe pra nos lembrar que é hora de esquecer tudo.
-- Taí, concordo.
-- Tipo brincadeira derradeira de um menino que sonhava com bicicleta de Natal e ganhava no máximo um patinete.
-- Porra, que história triste de pivete. Melhor falarmos da mais gostosa vedete...
--  Luz Del Fuego, Elvira Pagã, Virgínia Lane, um momento da vida até Leila Diniz.
-- Com certeza. Wilza Carla, Renata Fronzi e Mara Rúbia. Todas lindas e apoteóticas para todas as óticas.
-- Puta merda, erámos felizes e sabíamos...
-- Com certeza. Jurandir, descarrega agora aquela da promoção!
E assim as moças e moços seguiram seus destinos, alguns prazerosos e outros cretinos, casais se acasalaram e desfizeram velhos romances, o ônibus passou reto no ponto porque o motorista decidiu ir à garagem pedir demissão. Nuvens escureceram, as velhas senhoras sofreram com seus joanetes, o poeta terminou a missão, o pássaro se apassarinhou com a amada. O meliante roubou a corrente que pensou ser de ouro mas era comprada em camelô, o coreto da praça silenciou, o relógio da parede, por falta de dar corda, parou. A mosca ao se saciar foi pisada sem querer e o cachorro enfim encontrou novo lar. Um idoso lhe prometeu ração e amor em troca de companhia. A mulher, em contrações finais, pariu o rebento enquanto no estádio cheio o Flamengo fazia mais um tento. A noite deu o derradeiro beijo no sol e o fez ir ao horizonte e dormir. “Mas, por favor, sem roncar”, disse a última nuvem que cobriu o derradeiro iluminar. No bar, João e Nestor se abraçam no mais bêbado gesto de que certamente amanhã haverá, quiçá, novo amanhecer, despertar, adormecer...
 
(Com Elza Canta e Chora Lupi)

Em Lupicínio

 Por Ronaldo Faria João estava sentado e só a ver a vida passar. E passavam as moças com seus vestidos soltos, moços com cabelos desfeitos...