Por Ronaldo Faria
-- Eita doideira, esse trem não
tem apito de parar?
Na velocidade que as chamas de
carvão queimado dão às composições, o trem vocifera que o destino, como diria o
poeta Ferreira Gullar, um dia novo vai encontrar. Do lado de fora dos vagões,
bois no pasto à espera do abater e gente na saudade de algum bom momento em
flor dão adeus ao Deus que se esqueceu deles. Ermo, no esmero prosaico de um
fado que termina em foda logo depois de tocado, o toque do amado na amada que
dorme saciada. Na estrada logo ali, o LGBTQIA+ é Mike Tyson. E se orelhas forem
arrancadas, valeu o lugar comum onde um qualquer é sempre qualquer um, sem julgamentos
ou verbo social.
-- Eita loucura, esse trem não
sabe que carrega mil formosuras?
Nos tantos quilômetros
daltônicos e atônitos de tantos dias vividos, o maquinista não sabe sequer se
existe singularidade entre fé e forfé. Afinal, tudo rima. E, às vezes, acaba na
mesma ruína. Na semiótica, sina.
-- Eita coisa despirocada e
lacrada nos dias de hoje. Cadê a plenitude da vida?
No velocímetro quebrado no odômetro
do mundo, as paisagens pairam na simetria que a vida dá. Talvez um fim ou outro
começo ao avesso. Talvez, nas transversas
trilhas que a existência dá, exista um lugar onde o trem da existência possa parar. Senão,
sigam os trilhos onde não se pode parear. E então, a parafrasear algum espírito
que toma conta do lugar, "para que uma estrada se há tanta trilha a se trilhar"?
-- Seu maquinista, vê se
segura essa merda e para na próxima estação onde tem tanta gente com fome a querer apenas descer.
Se você endoidou, vá se tratar! No sistema de saúde, daqui a alguns meses, quem sabe, alguém de bom grado o ouvirá.
(Aos trens da vida e o Boca Livre)
